“A Prole”: artista cria ovos alienígenas em exposição em São Paulo
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 5 de maio de 2026 às 14:07 | Atualizado há 2 meses
Obras de Darks Miranda simulam ovos extraterrestres em exposição imersiva | Foto: Julia Thompson/ Divulgação
Um ovo do tamanho de uma cabeça, azul metálico e coberto com o que parece ser uma gosma preta, poderia ter saído diretamente do filme Alien: O Oitavo Passageiro, clássico do terror e da ficção científica de 1979. Não por acaso, o longa foi referência para a artista Darks Miranda quando ela criou a estrutura excêntrica.
Alguns de seus ovos são escuros e rochosos, como se fossem de outro planeta, e outros são perolados e carcomidos, infestados do que poderiam ser corais ou pequenos répteis, como se tivessem se formado após milhares de anos na natureza. Todos estão expostos na galeria Sadenberg, em São Paulo, na mostra individual da artista intitulada “A Prole”.
Influência do cinema
Miranda, cearense, é também cineasta. Como artista plástica, é seduzida pela capacidade do cinema de criar ilusões. Os efeitos visuais práticos de filmes de gênero, com maquetes, esculturas, telas, luzes e fumaças, influenciaram a prática escultórica da artista.
“Gosto da ideia de que esses elementos materiais, que criaram imagens tão fantasiosas quanto fantasmáticas em nossos imaginários, possam atravessar as telas e criar vida própria de outras formas, em outros tempos e espaços”, diz.
Ela conta que, em sua primeira tentativa de replicar um ovo extraterrestre, revestiu um mamão em resina. A fruta, com sua polpa e suas sementes negras, serviu para replicar o efeito visual de carne e ovas.
“O ovo e a fruta têm alguma relação, no sentido de que guardam potência de vida e tentam garantir a continuidade das espécies”, diz Miranda. Desde então, os ovos ganharam várias versões. As expostas agora são feitas de papel machê, tinta e cerâmica.
Referências ao body horror
Além de “Alien”, “A Prole” foi inspirada também pelo filme Os Filhos do Medo, de David Cronenberg — mais especificamente, pelas cenas de body horror envolvendo reprodução, geração de vida e maternidade. No longa, Nola Carvet, uma mãe perturbada que briga pela guarda da filha, faz sessões de terapia em uma clínica psiquiátrica.
“É curioso pensar como, em vários filmes de ficção científica ao longo de décadas, há espaços de confinamento que se assemelham ao que ficou conhecido nas artes como o cubo branco”, diz Miranda, referindo-se ao espaço expositivo para a arte contemporânea adotado por galerias e museus ao redor do mundo, caracterizado pelo espaço angular e pelas paredes brancas. “Minha experiência com a montagem cinematográfica me ajudou a pensar em diferentes formas de fusão nas esculturas, envolvendo materiais, texturas, cores, formas, seres.”
Ambiente imersivo e crítica contemporânea
Em “A Prole”, Miranda não quis que o cubo branco da galeria servisse apenas para ressaltar as obras, mas que servisse para dar o tom de ficção científica. De fato, a sensação é que se está no interior de uma nave espacial cheia de ovos alienígenas que podem eclodir a qualquer momento, revelando novas e bizarras formas de vida.
As cascas com bichinhos e rachaduras, que lembram efeitos geológicos, dividem espaço com ovos que parecem contaminados, como se tivessem sofrido efeitos da radiação ou de poluições químicas. São características que remetem aos males da contemporaneidade, da interferência humana nociva no meio ambiente à organização social urbana marcada por desigualdades territoriais.
Para a artista, os objetos não fazem apenas uma homenagem à fantasia, mas provocam para imaginar novas formas de vida que brotam em meio à ruína. É uma ode, enfim, ao desejo de criar apesar da destruição. (Alessandra Monterastelli/FOLHAPRESS)