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No Goiânia Noise, Tom Zé olha fechado pra ver melhor

Redação Online

Publicado em 8 de maio de 2026 às 21:02 | Atualizado há 2 meses

Baiano provocou a elite brasileira com invenções e tiradas - Foto: Fernando Laszlo
Baiano provocou a elite brasileira com invenções e tiradas - Foto: Fernando Laszlo

Marcus Vinícius Beck

Renda-se. Você tá diante do homem. Bata palmas, esqueça tudo. Todos os acordes, as notas. Olho fechado pra ver melhor. Desesperado pra ter paciência. O cara confunde tudo. Explica pra confundir. Hoje, a partir das 23h30, a noite será tomzeística no Goiânia Noise Festival.

Em certas assonâncias, Tom Zé confunde pra esclarecer e, viva a língua brasileira!, ilumina pra poder cegar. Pousa vogais no carinho que fere, na vida que morre, na despedida que volta. Estuda o samba suavemente pra poder rasgar, se é que o amigo aí me entende.

Mas é bom, soletre comigo, não duvidar: será emblemático. Um sábado emblemático. Noventa anos de inventividade, provocações. Música pra criança, pra adulto ou pra criança que está dentro do adulto — evoquemos, pois, o crítico Júlio Maria no “Estadão” em 2017.

Isso foi em “Sem Você Não A” (assim mesmo, como veio ao mundo, sem o “h”). Só que, antes dessa libertação gramatical, o nosso herói tinha andado pelas “Canções Eróticas de Ninar”. Aí, você pensa, tudo bem: Tom Zé faz música como se estivesse tendo um orgasmo.

Para o baiano, a criação é filha daquele ato que nos trouxe ao mundo. “Com as ancas sob o longo vestido da professora de piano na imaginação, Tom Zé é uma constante erupção”, disse o poético Maria. Apenas concordo, claro. Falamos, afinal, de arranjos orgásticos.

Tom Zé é, sobretudo, irreverente. Quando teve a sacada de que a juventude consumia muita cultura gringa, ele criou a canção “Jimmy Renda-se”. Não pegou. Não de cara. Nada era fácil em 1970. Além disso, os versos não eram em português, muito menos em um inglês comum. O artista inventava (!) um idioma: “Billie Holly Rolleiflex/ Jâni chope chope chope chope.”

Tropicalismo

Estamos, lembre-se, na tropicália. “Jimmy Renda-se” era um rock, um r&b. Mas ninguém entendia bulhufas. Indecifrável. O nosso herói nasceu no interior em 1936, logrou formação pela UFBA, viveu a antropofagia cultural com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Chegou a São Paulo em 1968, quando venceu o Festival da Record com “São, São Paulo, Meu Amor”.

Décadas depois, em 2000, Tom Zé relembraria seu sumiço. “Eu havia conhecido o colo da mãe e havia sido subtraído dele, em 73, quando ‘Todos os Olhos’ deixou de tocar e eu fui sumindo”, afirmou, numa entrevista para divulgar “Jogos de Armar – Faça Você Mesmo”.

Ainda assim, o artista se mostraria satisfeito. “Posso me orgulhar porque, mesmo quando não havia nenhuma carícia, consegui trabalhar, reconstruir. É claro que tenho amor por mim e vaidade, mas também tenho amor pela música”, declarou Tom Zé, na mesma conversa.

Por ser experimental, “Estudando o Samba”, de 1975, levou o baiano para o ostracismo. Os timbres, os ruídos e a instrumentação, todas essas singularidades resultaram no silêncio de artistas e jornalistas, ainda que o LP tivesse a colaboração de Elton Medeiros, respeitado no samba. Tô bem de baixo pra poder subir? Tô bem de cima pra poder cair? Hajam dualismos.

Tom Zé chega ao Noise lentamente pra não atrasar

Artista obteve reconhecimento a partir de David Byrne, do Talking Heads – Foto: Divulgação

O mercado fonográfico, estava na cara, achava Tom Zé esquisitíssimo. Como explicar, por exemplo, o fato de que as canções de protesto seguiam no rádio? É que, apesar do discurso engajado, essas músicas correspondiam à sonoridade aceita. Não era o caso do nosso herói.

Líder do Talking Heads, David Byrne arrisca um palpite sobre o isolamento do baiano. “É provável que Tom tenha levado o aspecto desconstrutivo mais a sério que os demais [tropicalistas]”, sublinha o músico, que lançou “Brazil Classics 4: The Best of Tom Zé”.

Foi uma triunfante virada. Após “Estudando o Samba” lhe explodir a cabeça, Byrne queria que o mundo percebesse a percepção tomzeística da música. O músico se sentiu atraído por estilos regionais e populares, desconstruídos e rearranjados de forma minimalista e radical.

Na biografia “Tom Zé, o Último Tropicalista”, Byrne diz que o nosso herói o fez ir além, levando-o a perceber que a vanguarda e a experimentação nas artes estão “em todo o mundo”. “Ao contrário do que muitas histórias aceitas nos Estados Unidos nos ensinam, não existe um centro”, assinala, no livro publicado pelo jornalista italiano Pietro Scaramuzzo.

Tom Zé, desde os anos 2000, começou a ser ouvido em seu país. De repente, ele deixou de ser o maluco que grava maluquices para se tornar imortal pela Academia Paulista de Letras. Os jovens o ouviam. A crítica o elogiava. Todos acharam por bem curti-lo. Por isso, o nosso herói seguiu em alta produtividade — seu último álbum, “Língua Brasileira”, saiu em 2022.

Enfim, o reconhecimento. Enfim, o Goiânia Noise. Próximo dos 90 anos — faz aniversário em outubro —, Tom Zé divide a vida com Neusa, sua companheira há mais de meio século. Ela, aliás, leu o artigo que Matinas Suzuki publicou na “Folha de S. Paulo” em 1988. O jornalista descrevia o apê de David Byrne. No escritório, um papel: “procurar Tom Zé”.

Chegamos ao Oscar Niemeyer, onde rola o Goiânia Noise Festival. Desesperamos pra ter paciência. Carinhosos pra botar ferir. Tom Zé já vai cantar. Batamos palma. Brindemos


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