Está faltando alguém na Papuda: o Zé Maria
Redação Online
Publicado em 21 de maio de 2026 às 09:14 | Atualizado há 4 meses
Por Hélmiton Prateado
“Ver o crime e não querer puni-lo é crime também”. Joaquim Manuel de Macedo
Os golpistas do movimento criminoso de 8 de janeiro já foram julgados e condenados por seus delitos e muitos estão cumprindo penas em estabelecimentos prisionais espalhados pelo país afora, dentre eles a Papuda, conhecido presídio no Distrito Federal. Todos incursos em fatos tipificados como crimes graves, a exemplo de tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Cada um dos indivíduos que teve participação ativa nos atos de preparação, organização e execução dos atos criminosos e foram devidamente identificados foram julgados e estão cumprindo suas respectivas penas. Guardadas as devidas proporções e casos distintos, estão no cárcere ou em penas alternativas, dentro do devido processo legal.
Todavia, como corolário da impunidade que incentiva a prática da conduta delitiva, porque o criminoso confia que não será punido, há inúmeros elementos que não foram identificados na prática de crimes que desaguaram no 8 de janeiro. E não foram implicados porque não houve identificação de sua conduta de maneira ostensiva. Isso não aconteceu porque não houve vontade das forças de segurança em identificar, denunciar e punir.
Um deles é um conhecido elemento arrependido da luta pela democracia na juventude que se tornou o canalha golpista da velhice. Justamente porque canalhas também envelhecem. Eu conheço um desses. Na juventude ele militou em grupos da resistência ao regime militar, frequentou aparelhos onde os comandos se reuniam, ajudou companheiros a se organizarem e fez parte de comandos. Teve até um pseudônimo como era costume, para ação de contrainteligência de enganar a polícia política: era chamado na militância pela alcunha de Zé Maria.
Zé Maria era o burguês típico. O pai labutava sofridamente para dar a ele e ao irmão a possibilidade de estudarem, morando longe de casa e se tornarem bons profissionais. Zé Maria participava do oba-oba do enfrentamento à ditadura, não porque acreditava, mas porque isso lhe dava aparição no meio social que ele frequentava. Já velho, virou apreciador da mesma ditadura que combateu na juventude e quando teve oportunidade participou pessoalmente dos movimentos na porta de quartéis que pediam intervenção militar porque não concordavam com a vitória democrática nas urnas de um candidato que não era o seu preferido. Além de frequentar com o populacho golpista os grupelhos de lambe-botas ele avançou no comprometimento: ele financiou acampamentos e atividades.
O burguês que militou como proletário ousou gastar o dinheiro que acumulou em toda a mais-valia que praticou na vida para estabelecer um regime de exceção no Brasil. Se habilitou a planejar, pedir e financiar uma ditadura porque não aceitou perder no voto democrático a escolha do mandatário.
Sacripanta. Idiota. Decrépito. O ordinário se escondeu nas sombras e ficou sem ser severamente punido. Sabidamente a impunidade induz à continuidade delitiva, porque o criminoso acredita sempre que ficará fora do abraço da Justiça. O canalha envelhecido confia até que por estar fora da responsabilização criminal por ser além da idade de ser preso pode continuar na atividade criminosa.
Ledo engano. Ele acha que seu dinheiro compra tudo, inclusive a impunidade. Mas, a história é implacável e não perdoa os canalhas que afrontam a justa convivência. Como um leão velho, Zé Maria já sente as agruras de ter sido tão tacanho a vida inteira. Búfalos lhes matam a pisões e outros leões novos desafiam sua liderança, confrontando sua nefasta figura e não permitindo que continue a usar e abusar do dinheiro para se manter na ação criminosa.
Zé Maria já se borra de medo ao saber que a mão da Justiça dos homens poderá lhe enquadrar. Sabe também que seus oponentes podem e querem lhe aplicar reprimendas exemplares, fazendo Justiça com as próprias mãos. Que aqueles que foram afrontados na vida lhe serão vingadores quando puderem. Hão de cuspir no seu caixão e mijar na sua cova e hão de rir muito ao ver sua derrocada.
Se a Papuda não lhe puder servir uma quentinha e nem lhe ver usar a privada rente ao chão haverá o julgamento do fim. Não se engane: a história vingará os que por você foram pisados.
Hélmiton Prateado é jornalista e advogado