Netflix refaz jornada do tri em produção que estreia nesta sexta-feira (29)
Redação Online
Publicado em 27 de maio de 2026 às 21:16 | Atualizado há 2 meses
Lucas Agrícola (à direita) interpreta Pelé na obra: “Futebol, eu já jogava” - Foto: Netflix/ Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Pelé, a alteza, vira arco-íris. Nas suas criações, tudo é ballet. Grita-se gol, garganta rouca, peito aberto. Comemora-se pelas ruas, pelos bares e casas. Um país inteiro em festa de beijos e abraços e cantos, uma gente a aplaudir o artista da bola, o maior de todos, o rei do povo.
Esse era o estado lírico do poeta Carlos Drummond de Andrade durante a Copa de 1970. Na crônica “Em Preto e Branco”, Drummond revela preferência por assistir aos jogos da Seleção Brasileira da velha forma. “Nos é concebido um exercício livre de imaginação”, salientou.
O desfecho foi o esperado. Com gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres, a canarinho fulminou os italianos por 4 a 1 no Estádio Azteca, na Cidade do México, em 21 de junho de 1970. Essa jornada é recriada em “Brasil 70 – A Saga do Tri”, que estreia na sexta (29).
Realizadas entre Brasil e México, as filmagens fazem reconstrução minuciosa do período. A ideia, conforme a Netflix, era capturar a intensidade e os desafios da campanha histórica. Os atores não precisavam apenas saber atuar. Haveria treino, preparo. Jogariam futebol no set.
“Futebol, eu já jogava”, diz o ator Lucas Agrícola, que vive Pelé. “E acho que pareço um pouco, né? Mas eu precisava atuar, vestir a camisa 10 do Pelé, estudar sua essência e fazer parte de uma história tão importante para o Brasil. É algo que vou carregar pra sempre.”
Para o diretor-geral Pedro Morelli, a Seleção contava com o maior jogador do mundo em 70. “Só que ele não tinha se tornado a lenda, o mito, que ele é”, diz. “A série é um convite pro público entrar no vestiário e acompanhar os treinos, a expectativa pros jogos, os jogos.”
Retrospectiva
Corta. Estamos em 58, final da Copa. Atenção porque lá vem Pelé, o futuro melhor jogador de todos os tempos, em uma jogada assombrosa. Não se limita a fazer gols. Quer enfeitá-los, pintá-los, como um poeta. Livrou-se do zagueiro, chapelando-o. Trucidou o arqueiro sueco.
Quatro anos depois, o percurso até o bicampeonato não foi fácil. Pelé se lesionou contra a Tchecoslováquia durante a segunda partida daquele Mundial. Ponta-esquerda do Botafogo, Amarildo o substituiu nos gramados chilenos, descobrindo-se entrosado com Garrincha.
No jornal “O Globo”, o escritor Nelson Rodrigues se disse angustiado. A Seleção, para ele, apresentara “um futebol quase feio, um futebol duro de cara amarrada”. Amarildo era um “dostoievskiano”. “Enfiava-se pela área como um rútilo epiléptico”, escreveu o cronista.
Pobre Nelson, mal podia esperar. A Seleção, com o bi, era a favorita na Inglaterra, em 66. No entanto, Pelé foi caçado em campo, vítima de pontapé. Então Mário Filho, no “Jornal dos Sports”, fez o que se imaginava: pôs em dúvida o torneio — no qual o rei não era benquisto.
‘A Saga do Tri’ parte de fracasso brasileiro em 66

“A Saga do Tri”, uma superprodução da Netflix, parte da dor. Durante cinco episódios, a minissérie retrata a formação do time tricampeão, cujos dribles e invenções do gol levaram o ensaísta italiano Pier Paolo Pasolini a cunhar o termo “futebol-poesia” no jornal “Il Giorno”.
“Ele [João Saldanha] escala, monta e classifica a Seleção Brasileira”, observa o ator Rodrigo Santoro, intérprete de João Sem Medo, em vídeo encaminhado à imprensa na quarta (27). “Então, o técnico é demitido e depois a gente o acompanha como comentarista.”
Jornalista e comunista — eram tempos de ditadura, lembremos —, o treinador assumiu uma equipe fracassada. Em 66, a Seleção vencera apenas um jogo, contra a Bulgária, na estreia, e perdera depois para Hungria e Portugal, este último violento e de placar 3 a 1 para os lusos.
Saldanha atropelou os adversários nas eliminatórias. Ainda assim, provocava dúvidas nos torcedores. O ditador Emílio Garrastazu Médici queria o atacante Dadá Maravilha, mas o técnico não cedia. “Quando ele formou o Ministério não me pediu opinião. Por isso não quero a opinião dele na hora de formar o meu time”, declarou, numa entrevista coletiva.
Demissão
Foi demitido. Anos depois, em 87, Saldanha afirmou que considerava Médici “o maior assassino da história do Brasil”. “Então vocês vão ver que não há de ser algo muito airoso que eu possa falar”, sublinhou no “Roda Viva”, dizendo que o general “matou amigos meus”.
“A Copa de 66 foi um grande fracasso. Então, quando chega a Copa de 70, a última do Pelé, era a chance de redenção”, explica o ator Bruno Mazzeo, que, em “Brasil 70”, vive Mário Jorge Lobo Zagallo. “Só nessa série é que eu soube da importância dele, por trazer a tática.”
Ao refazer os fracassos e as conquistas, a minissérie volta-se também aos desafios. Rivellino não seria jogador de decisões. Já Gérson, meia, renderia em clubes. Jairzinho, o Furacão da Copa, não passaria de um finalizador rápido. E Tostão não teria condições. Que equívoco.