Dólar abre em queda com tensão no Oriente Médio e alta do petróleo
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 8 de junho de 2026 às 11:00 | Atualizado há 3 horas
Mercado monitora escalada da guerra entre Israel e Irã e seus reflexos sobre o dólar, o petróleo e os juros americanos | Foto: Arte/JC
O dólar abriu em leve queda nesta segunda-feira (8), acompanhando a desvalorização da divisa dos EUA em outros países. Os investidores se preocupam com a retomada dos ataques entre Israel e Irã, que acabaram com o cessar-fogo que começou em 7 de abril.
A retomada dos bombardeios entre os dois países levou o preço do petróleo a disparar mais de 5% nesta manhã, com o aumento do temor pela interrupção do fornecimento do commodity.
Às 9h12, a moeda norte-americana caía 0,24%, cotada a R$ 5,1433. Na sexta-feira (5), o dólar fechou em disparada 1,76%, a R$ 5,155, e a Bolsa caiu 0,76%, a 169.019 pontos.
Emprego forte nos EUA impulsiona expectativa de juros mais altos
O movimento foi puxado pela geração de empregos acima do esperado nos Estados Unidos. Segundo o Departamento do Trabalho, foram gerados 172 mil postos de trabalho no mês passado, bem acima dos 85 mil projetados por economistas ouvidos pela Reuters.
O número deu força à percepção de que o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) deverá trabalhar com taxas de juros mais elevadas, ainda mais considerando a guerra no Oriente Médio. Essa leitura impulsionou os rendimentos das Treasuries, títulos de renda fixa dos EUA.
“Os dados ainda afastam o fantasma de recessão nos EUA, mas podem ter um efeito de ‘good news is bad news’ [boas notícias são más notícias], à medida que pode motivar o Fed a apertar os cintos e manter juros altos por ainda mais tempo, conforme um mercado de trabalho aquecido tende a pressionar a inflação”, ponderou a estrategista-chefe da Nomad, Paula Zogbi.
A probabilidade do Fed aumentar a taxa em dezembro, segundo o mercado de juros futuros dos EUA, subiu para 65%, ante 48% antes da publicação dos numeros.
A leitura de “boas notícias são más notícias” se baseia em uma das tese mais comuns no mercado global. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá é quase como um investimento livre de risco. Quando os juros dos EUA estão elevados, as Treasuries sobem —e operadores retiram parte dos recursos aplicados em ativos mais arriscados, como os de mercados emergentes, para apostar no baixo risco e alto retorno.
Esse movimento aconteceu globalmente nesta sexta. Até o S&P500, índice de referência do mercado acionário americano, tombou 2,5%, antes em altas recordes com o boom de inteligência artificial.
Fed monitora inflação e mercado acompanha nova gestão
A próxima reunião do Fed ocorrerá entre 16 e 17 de junho, sendo a primeira sob o comando do novo presidente da autarquia, Kevin Warsh, que foi indicado por Donald Trump, crítico do antecessor Jerome Powell.
Além dos resultados de emprego, o Fed também leva em consideração a inflação elevada, que aumentou no ritmo mais rápido em três anos em abril, impulsionada pelos preços mais altos da energia em meio à guerra com o Irã.
O índice de preços PCE subiu 3,8% nos 12 meses até abril, maior aumento desde maio de 2023, de acordo com o Escritório de Análises Econômicas do Departamento de Comércio. Referência usada pelo Fed, o PCE estava em 3,5% em março.
Nesta sexta, Trump voltou a defender a redução da taxa de juros, mas disse que deixará a decisão sobre um possível corte para o novo presidente do Fed.
Trump criticou seguidamente Powell pela manutenção dos juros acima de 3%. O republicano defende que a taxa deveria estar entre 1% e 1,5%, bem abaixo do patamar atual entre 3,5% e 3,75%.
Conflito no Oriente Médio mantém mercados em alerta
O cenário de guerra no Oriente Médio tampouco trouxe alívio. Na quinta-feira, com o mercado brasileiro fechado por conta do feriado de Corpus Christi, o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã, rejeitou um novo cessar-fogo no Líbano, enquanto Israel disse que não iria retirar as tropas do país.
Essas decisões minam um possível entendimento entre Teerã e Washington, já que o Irã vem considerando o cessar-fogo entre Israel e Hezbollah como requisito para um acordo de paz com os EUA.
Publicamente, Trump tem tentado afastar a ideia de impasse. Na quarta, ele afirmou que o Irã “concordou em não ter armas nucleares” e que deve se encontrar com o líder supremo do país persa, Mojtaba Khamenei.
“Eles já concordaram que não vão ter armas nucleares”, afirmou o presidente americano, sem entrar em detalhes. A interrupção do programa nuclear iraniano é considerada um dos principais impasses entre os países, e o regime vinha demonstrando resistência em relação ao tema.
O conflito paralisa as cadeias de suprimento globais e o tráfego do estreito de Hormuz, via marítima responsável por 20% de todo o petróleo e gás natural produzidos no mundo.
“Esse cenário reforça a percepção de que as negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã esfriaram e de que não há indicações de uma solução rápida para o conflito”, diz Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX. (FOLHAPRESS)