Livro resgata tragédias da ilha Dawson, símbolo de repressão no Chile
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 21 de junho de 2026 às 14:30 | Atualizado há 1 hora
A ilha Dawson, no estreito de Magalhães, foi cenário de confinamento indígena e de um campo de concentração durante a ditadura chilena | Foto: Ana Branco/Agência O Globo
Dois episódios trágicos da história do Chile, separados por quase um século, tiveram como palco o mesmo pedaço do fim do mundo: o ambiente subantártico da ilha Dawson, no meio do estreito de Magalhães.
Em ambos os casos, decisões autoritárias do Estado chileno transformaram a ilha em prisão, primeiro confinando boa parte dos indígenas da região, no fim do século 19, e, nos anos 1970, criando um campo de concentração para membros do governo Salvador Allende, derrubado por militares golpistas, entre eles o general Augusto Pinochet.
Ao seguir os fios que ligavam ambas as histórias de brutalidade, o escritor e crítico literário paulistano José Godoy teve de responder algumas vezes a mesma pergunta: por que um brasileiro foi se interessar por um lugar tão longínquo? A distância, porém, é muito mais aparente do que real, diz ele.
“Se a gente procurar em cada um dos países da América Latina, a gente vai encontrar uma ilha Dawson”, afirma Godoy, referindo-se ao que chama de “espaços de recorrência traumática” no continente, unidos pela combinação de colonialismo e autoritarismo.
Livro revisita tragédias da ilha Dawson
Os episódios são a espinha dorsal do novo livro do autor, “A Ilha do Silêncio: Terror e Genocídio na Terra do Fogo”, fruto de seu doutorado em literatura pela PUC-RJ.
Mas, além de reconstruir o confinamento dos indígenas selk’nam e kawésqar sob a tutela de religiosos salesianos, a partir de 1889, e os dois anos de existência do campo de concentração após o golpe militar chileno, a obra também revisita as impressões do naturalista Charles Darwin, pai da biologia evolucionista, acerca dos nativos da região.
O livro aborda também as impressionantes imagens do etnólogo austríaco Martin Gusinde, que registrou os rituais dos indígenas da Terra do Fogo quando muitas dessas práticas estavam desaparecendo; e a trajetória do arquiteto e militante comunista chileno Miguel Lawner, de 97 anos, um dos confinados no campo de concentração pinochetista, que, ao obter acesso a papel e lápis, produziu registros preciosos do cotidiano dos prisioneiros.
Esses fios são amarrados pela narrativa de viagem do próprio Godoy em suas idas ao Chile.
“Eu uso esse eixo temporal, com os dias que vão se sucedendo, para enxertar esse caminhão de informações que eu carregava comigo”, conta ele. “Ao mesmo tempo, a primeira pessoa no texto reflete também um desejo de comunicação com o leitor não especializado, uma forma de aproximá-lo desse mundo.”
Autor não conseguiu acesso à ilha
Ironicamente, porém, a jornada não vai além da cidade de Punta Arenas, do lado de cá do estreito de Magalhães — isso porque, apesar de muitas tentativas de negociar uma visita com o corpo diplomático e as Forças Armadas do Chile, o autor nunca teve acesso à ilha, que está sob controle da Marinha do país.
“A ilha Dawson corresponde a um campo de treinamento militar com operações em desenvolvimento, o que complica a coexistência com outro tipo de atividades que impliquem levantar a restrição a visitas”, dizia a recusa oficial, assinada pelo contra-almirante Jorge Castillo Fuentes.
Paradoxalmente, conta o autor, Dawson é um dos “lugares de memória” oficiais do Chile, destinados a marcar os acontecimentos da ditadura de Pinochet, mas ainda assim as disputas em torno desse legado acabaram por montar um cordão de isolamento em torno da ilha.
“A minha dificuldade de chegar até lá é um efeito colateral de uma série de bloqueios anteriores”, resume Godoy. Para ele, os dois polos pós-ditadura — as forças políticas que querem deixar para trás de vez o legado pinochetista, de um lado, e os que se apegam com unhas e dentes ao que a ditadura construiu, de outro — são muito mais fortes e estruturados lá do que no Brasil.
“O Chile tem um museu dos direitos humanos que é incrível, e, ao mesmo tempo, vê o [José Antonio] Kast ser eleito [como presidente], alguém que é totalmente ligado a essa direita dos anos Pinochet. Dawson, por isso, acaba seguindo uma lógica própria até hoje.”
Confinamento indígena marcou a história da ilha
A primeira encarnação da ilha como área para prisioneiros surge num momento em que os jovens Estados sul-americanos estão consolidando o controle sobre suas regiões mais inóspitas, e as áreas descampadas da Patagônia e da Terra do Fogo viram alvo para expansão dos rebanhos de ovelhas.
No meio do caminho, porém, havia alguns milhares de caçadores-coletores, cujos ancestrais tinham ocupado aquela região desde a chegada dos seres humanos ao continente.
Charles Darwin, ao visitar a região nos anos 1830, acabou justificando a tomada daquelas terras ao descrever os grupos originários como “as mais abjetas e miseráveis criaturas que já havia contemplado”.
“Vendo aqueles homens, alguém dificilmente acreditaria serem eles criaturas deste mesmo mundo”, diz o naturalista.
Para evitar conflitos entre os fazendeiros e os indígenas, a solução, adotada a partir de 1889, foi atrair os grupos da região à missão San Rafael, na ilha Dawson, com o propósito de catequizá-los e transformá-los em mão-de-obra para as estâncias.
O resultado, porém, foi o mesmo de diversos outros experimentos semelhantes ao longo da colonização: a morte em massa dos grupos originários, causada por doenças de origem europeia para as quais não tinham defesas naturais. Sobraram tão poucos moradores que a missão teve de ser fechada em 1911.
Registros preservaram a memória dos prisioneiros
O abandono das estruturas da ilha foi tamanho que o próprio Miguel Lawner, com seus conhecimentos de arquiteto, propôs a seus algozes militares a restauração da igrejinha dos salesianos enquanto era prisioneiro ali, levando em conta sua importância histórica.
O comandante do campo de concentração se espantou, segundo contou o arquiteto a Godoy.
“Nas próprias palavras dele, ele tinha diante de si um comunista, um judeu, propondo restaurar uma capela!”
Foi o projeto que acabou proporcionando a Lawner o acesso a papel e lápis que lhe permitiu, enfim, registrar algo de seu encarceramento. (Reinaldo José Lopes/FOLHAPRESS)