Copa 2026: Seleção Brasileira aposta em jogo à italiana em vez do futebol-arte
Redação Online
Publicado em 23 de junho de 2026 às 21:32 | Atualizado há 1 hora
Carlo Ancelotti: italiano se formou na escola moderna do calcio - Foto: Rafael Ribeiro/ CBF
Marcus Vinícius Beck
A Seleção Brasileira tem jogado à italiana. Não se trata de rebaixar a Squadra Azzurra (fora da Copa do Mundo pela 3ª vez seguida), mas salientar a cultura futebolística desenvolvida na Bota: catenaccio e contropiede, retranca ou contra-ataque, na língua de Dante Alighieri.
Assim funcionam os canarinhos sob Carlo Ancelotti. Foi em duas bolas recuperadas que o Brasil saiu do zero contra o Haiti, na última sexta (19), pela 2ª rodada do Grupo C da Copa. Os contragolpes, até aqui, são uma ótima arma para o time pentacampeão — senão a única.
Ancelotti gosta do pragmatismo. Quando jogador, atuou no revolucionário Milan de Arrigo Sacchi, bicampeão da Liga dos Campeões da UEFA. Era cerebral, tinha passes precisos e boa leitura tática. Na Roma, onde vestiu a camisa 4, conheceu o inovador Nils Liedholm.
Mas não usa todos os ensinamentos. Nem os menospreza. Do gioco all’italiana, ou jogo à italiana, guarda a cautela: “Se falamos de estatística, o mais importante são os gols marcados e sofridos. Então, a ideia é ter controle de jogo com a bola e ser cômodo quando não a tiver.”
É algo inventado por Vittorio Pozzo, o técnico bicampeão do mundo com a Azzurra em 1934 e 1938. Para o jornal “La Gazzetta dello Sport”, Pozzo criou o tal “método italiano”, no qual os atletas desenhavam um WW no campo. Era uma variação do WM, muito usado na época.
Nessa perspectiva, o sistema de jogo previa cinco jogadores para a defesa. Os outros cinco comandavam a parte ofensiva. A Nazionale mostrava técnica modesta, embora resistisse à pressão de um torneio curto, como a Copa de 34 — teve início em maio e acabou em junho.

Anatomia
Giuseppe Meazza tornava o meio-campo azzurro elegante. Ídolo da Internazionale, chutava com força e precisão, sabia driblar e enganar seus marcadores. Fintava goleiros e, vendo as redes livres, estufava-as. Detalhe: tinha “só” 1,69 m. Esse era Peppino, o craque italiano.
Logo na estreia pela Azzurra, vazou o arqueiro suíço duas vezes. Um ano depois, na Copa de 34, recorreu à picardia no épico entre italianos e espanhóis, apoiando-se no zagueiro para finalizar. “Contar com Meazza no time significa começar ganhando por 1 a 0”, dizia Pozzo.
“La Gazzetta dello Sport” narra a odisseia contra a Noruega. Transcorria a Copa de 1938, jogo difícil, truncado: 2 a 1. Meazza, em nome de seus companheiros, pediu ao treinador: “Não vemos uma mulher há dois meses. O senhor poderia nos dar uma tarde de liberdade?”.
A rigidez não era exatamente uma novidade. Ex-combatente na Primeira Guerra Mundial, Pozzo impunha aos seus jogadores uma disciplina militar que já o levara ao topo quatro anos antes. Il Duce, como Benito Mussolini era conhecido, ficou satisfeito e aprovou tudo.
Dentro de campo, Meazza representava o orgulho nacional, utilizado pelo fascismo. Para muitos, Peppino foi o homem de Pozzo e Mussolini em campo, um garoto-propaganda do regime totalitário. A Squadra Azzurra chegou ao Olimpo do futebol vencendo em 34 e 38.
Pelo seu caminho, a Azzurra encontrou o Brasil na semifinal em 38. Só que, sem Leônidas da Silva, a Canarinho acabou eliminada por um time que jogara todo de preto. Era uma alusão aos Camisas Negras (milícia do ditador Benito Mussolini). O placar, apertado, foi 2 a 1.

Itália de 82 eliminou Seleção em partida traumática
No livro “82 – Uma Copa Para Sempre”, os jornalistas Celso Unzelte e Gustavo Longhi de Carvalho reconstroem a Tragédia de Sarriá. Pela esquerda, narram os autores, o experiente goleiro Dino Zoff, 40 anos, corta a bola cruzada por Toninho Cerezo. Não, não foi dessa vez.
“Em um cruzamento despretensioso de Antognoni, Cerezo tenta recuar com a cabeça e acaba cedendo um escanteio. O único a favor da Itália em toda a partida”, contam, na obra. Waldir Peres acompanha o lance, quase evita o córner, mas a bola, desobediente, ultrapassa a linha de fundo. “Dentro da área, estão onze jogadores brasileiros contra cinco italianos.”
Um deles, outra vez, é Paolo Rossi. O herói, ou carrasco, precisou desmarcar-se das críticas para estar ali, dentro da área. Quase perdeu as esperanças, saiu da Juventus e chegou ao Vicenza, que deixara para trás a temporada ruim de 76 — não caíra por pouco à Série C.
Rossi não tinha um físico futebolístico. E isso lá importava? Era rápido, ágil. O técnico Enzo Bearzot gostava dele, convocando-o para a Copa de 78, na Argentina. Poucos anos depois, em 1981, transferiu-se para a Juventus. Um ano antes, porém, envolveu-se no escândalo Totonero.
Ex-jogador do tradicional Torino, Bearzot encontrou na música a inspiração para seu estilo: “Isto é, eu gostaria de uma equipe jazzística, um grande trabalho como um todo, uma enorme harmonia e, de repente, o improviso do solista.” Achava, em suma, que o catenaccio já era.
Algoz
Em 1970, sob o comando de Ferruccio Valcareggi, a Nazionale levou um baile do Brasil. “Os canarinhos promoveram a desordem no sistema defensivo italiano”, diz o jornalista Arthur Barcelos, em texto publicado no site “Calciopédia”, especializado em futebol italiano.
Depois da Copa, a Squadra Azzurra esteve por baixo. Apostou em Bearzot, que pensava diferente. Imaginava que seu time não deveria apenas se fechar na defesa para contra-atacar. Segundo ele, o jogo à italiana havia morrido no México — com direito a samba canarinho.
Para o jornalista Piero Tellini, autor do livro “Anatomia do Sarriá: Brasil x Itália, 1982”, Bearzot sonhava em ter uma equipe na qual houvesse participação dos atacantes na defesa e vice-versa. “Queria superar a especialização de tarefas, demasiado rígidas, que caracteriza o futebol italiano, estrutura ainda ligada ao regista (meio-campista armador)”, escreve.
E foi assim, como uma big band, que Bearzot traumatizou o Brasil. Naquele 5 de julho de 82, o solista era Rossi. A Bota modernizou-se, vieram Arrigo Sacchi e a pressão alta, sufocante, como o futebol total de Cruyff e Rinus Michels. O Brasil joga contra a Escócia, hoje, às 19h.