Lula amplia agendas no Rio para reduzir força eleitoral de Flávio Bolsonaro
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 24 de junho de 2026 às 09:59 | Atualizado há 2 horas
Lula participa de evento ao lado do governador interino Ricardo Couto durante agenda no Rio de Janeiro | Foto: Daniel Ramalho/AFP
A sequência de agendas do presidente Lula (PT) no Rio de Janeiro faz parte de uma estratégia da equipe do petista de aproveitar a fragilização do palanque do senador Flávio Bolsonaro (PL) em sua base eleitoral.
Lula tem buscado colher frutos da atuação do desembargador Ricardo Couto como governador interino, cuja condução do Palácio Guanabara tem sido avaliada de forma positiva pelo eleitorado, segundo pesquisas internas. O magistrado tem promovido auditorias em contratos e exonerações de possíveis funcionários fantasmas.
A iniciativa da equipe petista visa reverter a vantagem que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve no estado nas últimas duas eleições. A redução da diferença, que foi de 14 pontos percentuais em 2022 e 36 em 2018, já é considerada uma conquista pela campanha.
O presidente participou de cinco agendas ao lado de Couto nesta segunda (22) e terça-feira (23) no Rio de Janeiro.
Propag e investimentos federais
O principal evento foi a assinatura do termo de adesão do Governo do Rio de Janeiro ao Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), que permite o refinanciamento da dívida dos estados com a União mediante contrapartidas, como investimentos em áreas como educação.
A gestão fluminense afirma que a dívida com a União, atualmente em R$ 210,6 bilhões, cairá para R$ 168,5 bilhões. A partir de julho, a parcela mensal paga pelo estado terá redução média de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões. Só este ano, o alívio é calculado em R$ 3 bilhões.
Lula também assinou convênios do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para obra em três favelas somando R$ 700 milhões.
Nos eventos, Couto tem tentado manter uma postura neutra, destacando no início de suas falas o fato de “não ser político”. Contudo, agradeceu em todos os eventos em que discursou a assinatura do Propag, o que chamou de “presente” e símbolo da “união, que hoje felizmente temos no Rio de Janeiro”.
A União também negocia com São Paulo, Minas Gerais e Goiás a adesão ao programa.
Além do vínculo com Couto, o presidente ressalta contraponto com a gestão anterior, de Cláudio Castro (PL), aliado de Flávio. Ao anunciar os investimentos em favelas da capital estadual, Lula puxou o desembargador pelo braço, pediu aplausos para ele, e disse que o governador interino tinha uma “tarefa muito nobre”.
“É tentar moralizar a política e acabar com a corrupção no Rio de Janeiro”, afirmou o presidente.
Enfraquecimento do grupo político de Flávio
O movimento de Lula visa aproveitar o enfraquecimento do palanque de Flávio no Rio de Janeiro. Cláudio Castro abriu mão da pré-candidatura ao Senado após ser alvo de operações da Polícia Federal sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o empresário Ricardo Magro, em maio.
O presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), pré-candidato ao governo, viu frustrado o plano de assumir o Palácio Guanabara e usar a exposição do cargo para ampliar seu conhecimento junto ao eleitorado.
O STF (Supremo Tribunal Federal) determinou a permanência de Couto no cargo até a decisão dos ministros sobre como será definido o governador-tampão, que comandará o estado até dezembro — se eleição direta ou indireta. A retomada do julgamento depende do ministro Flávio Dino, que pediu vista para analisar melhor o caso.
O desembargador, que também é presidente do Tribunal de Justiça, assumiu o governo em março após a renúncia de Castro, na véspera do julgamento em que o ex-governador foi declarado inelegível pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Último na linha sucessória, ele tomou posse no cargo porque o estado estava sem vice-governador desde a renúncia de Thiago Pampolha no ano passado para assumir uma vaga no TCE (Tribunal de Contas do Estado). O então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), estava afastado do cargo em razão da investigação por vazamento de informações de operação contra ex-deputado ligado ao Comando Vermelho.
Ruas já teve dois pedidos para assumir o governo negados no STF.
Cenário eleitoral mais favorável ao PT
A presença de Couto gera um cenário menos adverso do que o das últimas eleições presidenciais, em que o PT perdeu no estado.
Em 2018, o ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB) vivia uma crise financeira aguda e Fernando Haddad (PT), candidato a presidente naquela ocasião, não tinha um palanque forte. A filósofa Márcia Tiburi (PT) obteve apenas 5,85% dos votos válidos.
Em 2022, Castro buscava a reeleição e venceu no primeiro turno, com 58,67% dos votos válidos. O ex-deputado Marcelo Freixo (à época no PSB), palanque de Lula, obteve 27,38%. (Italo Nogueira/FOLHAPRESS)