Autista e portadora de doença rara, jovem supera preconceitos e conquista espaço na construção civil
Léo Carvalho
Publicado em 24 de junho de 2026 às 12:08 | Atualizado há 2 horas
Após superar desafios de saúde e preconceitos, Priscylla de Sousa encontrou na construção civil uma oportunidade de crescimento profissional | Foto: Arquivo pessoal
Aos 22 anos, a goiana Priscylla de Sousa Vicente dos Santos transformou desafios que a acompanharam desde a infância em motivação para construir uma nova trajetória profissional. Diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA) apenas na vida adulta e portadora de uma doença genética rara, ela encontrou na construção civil uma oportunidade para crescer, empreender e inspirar outras pessoas.
Priscylla atua atualmente como pintora profissional ao lado do marido. O trabalho surgiu após a conclusão de um curso gratuito oferecido pelo Instituto Elon Soares (IES), em Trindade, que abriu as portas para uma área na qual ela nunca havia imaginado trabalhar.
“O professor e os colegas me apoiaram muito durante o curso. Sempre tiveram paciência e me ajudaram quando precisei. Sou muito grata por isso”, relata.
A descoberta do autismo aconteceu há cerca de dois anos. Segundo ela, o marido percebeu alguns comportamentos característicos do transtorno e passou a questioná-la sobre o assunto. Foi então que a mãe revelou que ela já possuía um laudo, mas que nunca havia compreendido completamente o diagnóstico.
“Tenho hiperfocos, comportamentos repetitivos e sensibilidade sensorial e auditiva. Durante muito tempo não entendia por que era assim. Só depois dessa conversa minha mãe me mostrou o laudo”, conta.

Além do autismo, Priscylla convive desde o nascimento com a fenilcetonúria (PKU), doença genética rara identificada ainda no teste do pezinho. A condição impede o organismo de metabolizar adequadamente a fenilalanina, exigindo uma alimentação extremamente controlada desde a infância. Ela também enfrentou problemas oculares graves e precisou passar por cirurgia nos dois olhos quando era criança.
As dificuldades, porém, não impediram que buscasse independência financeira. Antes de ingressar na construção civil, trabalhou como babá, sacoleira e em uma fábrica de estopa. Apesar das experiências, desejava encontrar uma profissão que oferecesse mais oportunidades de crescimento.
“Quando soube dos cursos na área da construção civil, me interessei porque vi que havia espaço no mercado. Durante as aulas fiquei encantada com tudo o que estava aprendendo e resolvi continuar me qualificando”, afirma.
Atualmente, além da pintura, ela participa de cursos de impermeabilização e construção a seco. O objetivo é ampliar o conhecimento técnico e conquistar novas oportunidades profissionais.
A história de Priscylla ganha ainda mais relevância diante dos desafios enfrentados por pessoas com autismo no mercado de trabalho. Dados do Censo Demográfico de 2022 apontam que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. Especialistas apontam que a falta de informação e o preconceito ainda representam barreiras para a inclusão profissional desse público.
Para a jovem, sua trajetória mostra que limitações não precisam definir o futuro de ninguém.
“Trabalhar nessa área me faz muito realizada. Sou uma prova de que podemos correr atrás dos nossos sonhos, independentemente dos desafios que enfrentamos”, destaca.