EUA sancionam brasileiros e empresas por suposta ligação financeira com o PCC
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 1 de julho de 2026 às 13:41 | Atualizado há 1 hora
As sanções foram anunciadas semanas após Donald Trump classificar o PCC como organização terrorista | Foto: Getty Images
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (1º) um novo pacote de sanções contra pessoas físicas e jurídicas suspeitas de participar da estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC). A medida atinge dois brasileiros, três empresas do Brasil e uma companhia portuguesa, acusados de integrar um esquema internacional de lavagem de dinheiro associado à facção criminosa.
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Segundo o Departamento do Tesouro norte-americano (USDT), os investigados teriam movimentado recursos provenientes de atividades ilícitas por meio de empresas e operações financeiras que facilitaram o envio de dinheiro entre os Estados Unidos e o Brasil. A ação ocorre poucas semanas após Washington enquadrar oficialmente o PCC como Organização Terrorista Estrangeira (FTO), ampliando o alcance das medidas adotadas contra integrantes e colaboradores do grupo.
Foram sancionados Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Também passaram a integrar a lista de restrições as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.
Como consequência da decisão, todos os bens e interesses dos envolvidos localizados em território americano ou sob controle de pessoas e empresas dos Estados Unidos ficam bloqueados. Além disso, cidadãos e companhias norte-americanas estão proibidos de manter relações comerciais com os sancionados. Instituições financeiras de outros países que realizarem operações consideradas relevantes com essas pessoas ou empresas também poderão ser alvo de penalidades impostas pelo governo americano.
A investigação que resultou nas sanções contou com a atuação conjunta do FBI, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) e de uma força-tarefa vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS).
Empresário é apontado como operador financeiro da facção
De acordo com as autoridades americanas, Victor Henrique de Oliveira Shimada desempenhava um papel estratégico na movimentação de recursos atribuídos ao PCC. Conforme o comunicado oficial, ele fazia a ligação entre operadores da organização criminosa estabelecidos na Flórida e traficantes internacionais, utilizando criptomoedas para ocultar a origem dos valores e transferi-los ao Brasil.
O Departamento do Tesouro estima que mais de US$ 30 milhões provenientes de atividades criminosas tenham sido lavados por meio desse esquema.
Shimada é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia, empresa que também foi incluída na lista de sanções. No Brasil, a companhia é investigada por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao contrato de patrocínio firmado entre a casa de apostas Vai de Bet e o Corinthians.
Sem mencionar diretamente o clube paulista, o governo americano relembra que o empresário foi preso pela Polícia Federal em janeiro de 2025 por suspeita de utilizar recursos desviados de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude envolvendo publicidade.
Em nota, o Departamento do Tesouro afirma que a Victory Trading teria sido utilizada para ocultar recursos obtidos de forma ilícita durante a operação.
As investigações conduzidas pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) apontam ainda que a empresa realizou um repasse de R$ 200 mil para a UJ Football Talent Intermediação. Segundo o inquérito, o dinheiro teria seguido para a empresa Neoway Soluções, que, conforme a investigação, estaria registrada em nome de um laranja.
Já Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira aparece na investigação como colaboradora direta de Shimada. As autoridades afirmam que ela auxiliava na logística para recolhimento e transporte de dinheiro em espécie utilizado nas operações financeiras atribuídas ao grupo.
Classificação como organização terrorista ampliou atuação dos EUA
As sanções representam um desdobramento da decisão anunciada pelo governo do presidente Donald Trump em 5 de junho, quando o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passaram a integrar oficialmente a lista de Organizações Terroristas Estrangeiras dos Estados Unidos. O ato foi assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
Com esse enquadramento, as duas facções deixam de ser tratadas apenas como organizações criminosas voltadas ao narcotráfico e passam a estar sujeitas às normas aplicadas pelo governo americano para grupos classificados como terroristas.
Na prática, isso amplia os instrumentos legais disponíveis para rastrear patrimônio, bloquear ativos, interromper operações financeiras e intensificar a cooperação internacional voltada ao combate das atividades dessas organizações fora do território brasileiro.
A classificação também endurece as punições para pessoas e empresas que prestem apoio financeiro, material ou logístico às facções.
Outra consequência é a adoção de medidas migratórias mais rigorosas. Integrantes identificados do PCC e do Comando Vermelho podem ter vistos americanos cancelados, ficar impedidos de entrar nos Estados Unidos e, caso já estejam no país, serem submetidos a procedimentos de deportação previstos na legislação de imigração norte-americana.