Mulher que pulou de janela para escapar de marido vive sequelas e medo
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 14 de julho de 2026 às 12:21 | Atualizado há 41 minutos
Jhennipher Sabriny diz que ainda convive com as consequências físicas e psicológicas após pular de uma janela para escapar do ex-companheiro \ Foto: Arquivo Pessoal
Mais de um ano depois de pular da janela de um prédio para escapar do marido que a ameaçava com uma faca, a auxiliar de produção Jhennipher Sabriny de Oliveira, 33, diz que ainda convive com as marcas da violência, mas tenta reconstruir a rotina.
Jhennipher saltou de uma altura de cerca de sete metros, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, para fugir do então companheiro, Pablo Henrique de Oliveira Rodrigues, 33, que, segundo ela, tentava matá-la naquele 12 de fevereiro do ano passado.
A queda provocou fraturas nas pernas, nos braços, nos punhos e na bacia. Pablo foi condenado em junho deste ano, mas está foragido, e sua defesa recorreu.
“Eu não pulei porque quis. Pulei porque achei que era a única chance de continuar viva”, afirmou à reportagem.
Vítima enfrenta sequelas físicas e psicológicas
Hoje, Jhennipher diz que ainda tenta reconstruir a rotina interrompida pela violência. Ela convive com as sequelas físicas e psicológicas do ocorrido e tenta recuperar uma sensação de segurança que, segundo relata, desapareceu desde aquele dia.
Ela conta que o processo de recuperação foi longo. Além das lesões provocadas pela queda, precisou enfrentar meses de limitações físicas, sessões de fisioterapia e faz acompanhamento médico até hoje.
“Eu voltei a andar, mas não consigo me locomover por longas distâncias por causa das dores que sinto. Tomo remédios todos os dias para depressão e ainda preciso passar por mais uma cirurgia na bacia para ter um pouco mais de qualidade de vida”, disse à reportagem.
Apesar da melhora física, Jhennipher conta que ainda vive com medo do ex-companheiro e evita frequentar locais públicos. Até uma simples ida sozinha à padaria ela diz que ainda não consegue fazer.
“Como ele está foragido, eu vivo dentro de casa com medo. Hoje eu trabalho em casa, não saio sozinha e até para ir para a faculdade vou de carona com uma amiga ou de carro por aplicativo. Não me sinto segura”, relata.
Estudante de direito quer defender outras mulheres
Atualmente, Jhennipher cursa o segundo semestre do curso de direito e quer ser advogada justamente para defender os direitos das mulheres.
“Com a minha vivência, eu vou poder auxiliar muito além do que diz a lei. Eu conheço de perto o que uma mulher passa em um ambiente de violência doméstica. Acredito que o meu propósito seja esse, auxiliar outras vítimas para que nenhuma passe o que eu passei”, disse.
Mulher relata ameaças antes de pular da janela
Segundo Jhennipher, no dia em que tudo ocorreu, Pablo passou a ameaçá-la de morte após ela se negar a entregar a ele uma quantia de R$ 10 mil em espécie que estava guardada no quarto do casal.
O valor havia sido retirado da conta da empresa que os dois tinham juntos e seria utilizado para pagar contas no dia seguinte.
Ameaçando a mulher com uma faca, o homem teria trancado a porta do quarto. Sem conseguir sair do local, Jhennipher decidiu então saltar pela janela.
Gravemente ferida, ela começou a pedir socorro. Vizinhos tentaram ajudá-la, mas o homem não deixou, dizendo que a mulher estava “delirando”. Ele a levou até um hospital da cidade mineira.
Por 12 dias, o homem acompanhou a mulher no hospital com ameaças de morte e impedindo que ela usasse o telefone celular sem sua supervisão.
Jhennipher só conseguiu denunciá-lo após convencê-lo a deixar o aparelho no quarto enquanto ele deixava o local para visitar um cliente, segundo ela conta. Com a ajuda de uma enfermeira, ela conseguiu ligar para uma advogada e relatar tudo que estava vivendo.
Um boletim de ocorrência foi registrado pela advogada, e Jhennipher conseguiu uma medida protetiva de urgência.
Pablo chegou a ser preso, mas foi liberado após dois meses para responder ao crime em liberdade.
Condenação e recurso da defesa
No final de junho, foi julgado e condenado a oito anos e dez meses de prisão pelos crimes de tentativa de feminicídio e ameaça. Porém, deixou o fórum antes da sentença e está foragido desde então.
“Fiquei extremamente decepcionada, porque ele foi ouvido e depois deixou o fórum antes de ser preso. Espero que a Justiça seja feita e ele pague preso por tudo o que fez”, disse.
Defesa diz que caso sofreu ‘contaminação midiática’
Em nota, a defesa de Pablo disse que foi apresentado recurso de apelação requerendo a anulação do julgamento pelo Tribunal do Júri, diante do que chama de nulidades verificadas no processo.
“Antes da realização do júri, a defesa protocolou petição alertando o Juízo sobre a contaminação midiática do caso, uma vez que os jurados já estavam expostos à forte influência da mídia, o que comprometia a imparcialidade necessária ao julgamento”, afirmou na nota a advogada Isabela Brum dos Santos Silva.
“Na ocasião, foi requerido o desaforamento e o adiamento da sessão do júri, contudo, o pedido não foi analisado antes do julgamento.”
Ainda de acordo com ela, a ausência de decisão prévia gerou fundamento para que a questão fosse novamente levantada no recurso de apelação, “cujas razões já foram apresentadas e deverão ser remetidas ao Tribunal de Justiça para análise”.
Sobre o paradeiro de Pablo, a defesa disse que ele informou que se entregaria no momento oportuno e que, atualmente, não possui contato com ele e não sabe sua localização.
A defesa de Jhennipher também recorreu da decisão, pedindo aumento da pena de Pablo. (Simone Machado/FOLHAPRESS)