Quando guardar o celular não basta: acampamentos apostam em experiências que devolvem espaço ao mundo presencial
Redação Online
Publicado em 24 de julho de 2026 às 16:26 | Atualizado há 32 minutos
Foto/Divulgação
No Brasil, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos eram usuários de internet em 2025, segundo a TIC Kids Online Brasil. Entre os usuários de internet, o acesso diário pelo celular chegava a 98% entre adolescentes de 15 a 17 anos e a 82% entre crianças de 9 a 10 anos. O dado ajuda a dimensionar uma tensão que atravessa famílias, escolas e períodos de férias: em uma rotina marcada por dispositivos sempre disponíveis, como fazer o mundo presencial voltar a disputar a atenção de crianças e adolescentes?
A resposta mais imediata costuma ser guardar o aparelho. Mas a restrição, sozinha, não resolve toda a questão. Ela pode abrir espaço, mas não necessariamente preenche esse espaço com vínculo, movimento, curiosidade e convivência. Não basta retirar a tela. É preciso oferecer à criança um mundo presencial que mereça sua atenção.
O tema ganhou contornos mais concretos com a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos na educação básica, com exceções para fins pedagógicos, acessibilidade, inclusão, saúde e direitos fundamentais. Fora da escola, porém, o desafio continua sendo cotidiano: criar ambientes em que crianças e adolescentes não apenas fiquem longe do celular, mas também queiram estar presentes.
O material “Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais”, lançado pela Secom-PR em março de 2025, orienta que o uso desses dispositivos seja pensado a partir da proteção integral, do melhor interesse, da autonomia progressiva e da participação de crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria também recomenda limites por faixa etária, supervisão, ausência de telas durante as refeições, desconexão antes do sono e estímulo a alternativas, como brincadeiras, esportes, atividades ao ar livre e contato com a natureza.
É nesse ponto que os acampamentos de férias entram não como solução mágica, mas como campo de observação. Em uma temporada estruturada fora da rotina doméstica e escolar, o aparelho deixa de organizar o tempo. No lugar dele, entram combinados coletivos, deslocamentos em grupo, refeições compartilhadas, desafios, conversas, natureza e situações em que cada participante precisa negociar, esperar, discordar, colaborar e se posicionar fora de seu círculo habitual.
No NR Acampamentos e Viagens Educacionais, que realiza temporadas de férias para crianças e adolescentes há mais de sete décadas, a proposta é deslocar o centro da atenção sem transformar a tecnologia em vilã.
“A ideia não é eliminar a tecnologia, mas mostrar que ela pode ocupar um papel complementar”, afirma Fernanda Vivolo, diretora do NR. “A desconexão não acontece só porque o celular é guardado. Ela acontece quando a experiência presencial se torna mais interessante.”
Essa diferença muda o tom da conversa. Em vez de tratar o celular apenas como uma ameaça, o acampamento trabalha com a substituição da experiência. A criança não recebe apenas o conteúdo que deseja, no ritmo que escolhe e com interrupção imediata. Ela encontra pessoas de outras escolas, cidades, idades e repertórios. Pode descobrir uma habilidade em um jogo, assumir um papel em uma apresentação, ajudar alguém do grupo, lidar com frustração ou aprender que nem toda pausa precisa virar tela.
“A tela costuma iluminar um rosto; a fogueira ilumina uma roda”, diz Fernanda. “Essa imagem resume muito do que vemos nas temporadas: quando há história, grupo e presença, a atenção deixa de ser uma experiência solitária.”
A programação varia conforme a faixa etária, mas a lógica é a mesma: criar situações em que crianças e adolescentes ajam no mundo e não apenas consumam estímulos. Esportes, brincadeiras, oficinas, trilhas e atividades culturais aparecem como meios para algo maior: a convivência, a autonomia e o pertencimento. O projeto de reflorestamento de Mata Atlântica desenvolvido com a Fundação Energia e Saneamento, a Fundação Toyota e o CETESB é um exemplo pontual de como a natureza também pode entrar como território de experiência, cuidado e observação.
A presença adulta, nesse contexto, não é a de mera fiscalização. Ela organiza a segurança, o ritmo e a mediação para que a convivência aconteça. A proposta não é romantizar a ausência de tecnologia, mas sim construir um ambiente em que o participante tenha outras razões para olhar ao redor.
“Eu posso atravessar o acampamento com o celular na mão e ver grupos se dirigindo a uma atividade, uma refeição ou uma roda de conversa, sem que isso vire o centro do interesse”, afirma Fernanda. “O que chama a atenção é o que está prestes a acontecer com os outros.”
O debate sobre telas exige cuidado: envolve saúde, educação, desigualdades de acesso, cidadania digital, usos pedagógicos e mediação familiar. Mas as férias ajudam a iluminar uma parte prática da conversa. Crianças e adolescentes não precisam apenas de menos tempo de tela. Precisam de mais mundo e de experiências presenciais fortes o suficiente para competir com o que cabe na palma da mão.
Sobre o NR
O NR Acampamentos e Viagens Educacionais realiza experiências educacionais fora da sala de aula há mais de 70 anos, com temporadas de férias, viagens pedagógicas e programas voltados à convivência, à autonomia, à natureza e à aprendizagem experiencial para crianças e adolescentes.