Retatrutida reduz até 22,6% do peso em estudos de fase 3
DM Online
Publicado em 28 de julho de 2026 às 13:46 | Atualizado há 1 dia
A retatrutida proporcionou perda média de até 22,6% do peso corporal em dois novos estudos de fase 3 divulgados pela farmacêutica Eli Lilly. O medicamento experimental é aplicado uma vez por semana e está sendo desenvolvido para o tratamento da obesidade e de problemas metabólicos relacionados.
Os resultados foram observados após 80 semanas de tratamento, período equivalente a aproximadamente um ano e meio. Em um dos estudos, os participantes que receberam a dose mais alta perderam, em média, 25,3 quilos.
Apesar dos números expressivos, a retatrutida ainda não foi aprovada para comercialização em nenhum país. A fabricante pretende solicitar o registro nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2027.
Esse cronograma representa apenas a previsão para a apresentação do pedido à agência reguladora norte-americana. Não significa que o medicamento estará automaticamente aprovado ou disponível nessa data.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é um medicamento injetável experimental desenvolvido para aplicação semanal. A substância atua simultaneamente nos receptores de três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon.
Essas vias estão envolvidas em processos como controle do apetite, sensação de saciedade, produção de insulina, regulação da glicose e gasto energético.
Por atuar em três receptores, a retatrutida é chamada de agonista triplo. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, age sobre GLP-1 e GIP. Já a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, atua principalmente no receptor de GLP-1.
Essa diferença não permite concluir, isoladamente, que um medicamento seja melhor para todos os pacientes. Eficácia, segurança, contraindicações e resposta individual precisam ser avaliadas em estudos e por profissionais de saúde.
Estudo com pacientes que tinham diabetes tipo 2
O estudo TRIUMPH-2 acompanhou 1.152 adultos com obesidade ou sobrepeso associado ao diabetes tipo 2.
Os participantes receberam doses semanais de 4 mg, 9 mg ou 12 mg de retatrutida, enquanto outro grupo recebeu placebo. Após 80 semanas, os resultados médios foram:
| Grupo | Redução do peso |
|---|---|
| Retatrutida 4 mg | 12,7% |
| Retatrutida 9 mg | 19,1% |
| Retatrutida 12 mg | 20,8% |
| Placebo | 4% |
Na dose de 12 mg, a redução média foi de 22,5 quilos. Os participantes começaram o estudo com peso médio de aproximadamente 106,4 quilos.
O medicamento também reduziu a hemoglobina glicada em até 1,6 ponto percentual. Esse exame indica a média dos níveis de glicose no sangue durante os meses anteriores.
Perda chegou a 22,6% em pessoas com doença cardiovascular
O TRIUMPH-3 reuniu 1.949 adultos com obesidade grave e doença cardiovascular já estabelecida. O estudo aceitou pessoas com ou sem diabetes tipo 2.
Os participantes tratados com 9 mg de retatrutida perderam, em média, 21,6% do peso corporal, o equivalente a 23,9 quilos.
Na dose de 12 mg, a redução média chegou a 22,6%, ou 25,3 quilos. O grupo que recebeu placebo perdeu 3,2% do peso, aproximadamente 3,5 quilos.
O tratamento também foi associado a mudanças em alguns fatores de risco cardiovascular. Na dose mais alta, a fabricante relatou reduções médias de:
- 37% nos triglicerídeos;
- 16,5% no colesterol não HDL;
- 9,3 mmHg na pressão arterial sistólica;
- 19 centímetros na circunferência da cintura;
- 51,2% na proteína C-reativa ultrassensível.
Esses resultados não comprovam, por enquanto, que a retatrutida previna infartos ou mortes cardiovasculares. O número de eventos registrados no estudo foi menor do que o esperado e as análises apresentaram intervalos de confiança que não permitem confirmar esse benefício.
Quais foram os efeitos colaterais?
Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, principalmente:
- Diarreia;
- Náusea;
- Constipação;
- Vômitos;
- Redução do apetite.
No TRIUMPH-3, até 13,5% dos participantes que receberam retatrutida interromperam o tratamento devido a efeitos adversos. No grupo placebo, a taxa foi de 4,8%.
Também foram registrados casos de disestesia, alteração da sensibilidade que pode provocar formigamento, ardência ou sensação diferente ao toque. A ocorrência chegou a 6,4% nos grupos tratados com retatrutida no TRIUMPH-3, ante 1,3% entre os participantes que receberam placebo.
A frequência e a intensidade dos efeitos variaram conforme a dose e o perfil dos participantes.
Anvisa: retatrutida não está aprovada em nenhum país
Em uma checagem oficial sobre a retatrutida, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária informou que o medicamento continua em fase de pesquisa e não está disponível legalmente para venda em nenhum lugar do mundo.
Segundo a Anvisa, até 24 de julho de 2026 a fabricante ainda não havia solicitado o registro da substância à agência brasileira nem a outra autoridade reguladora internacional.
A Eli Lilly informou posteriormente que pretende apresentar um pedido de licença à Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2027.
Depois do protocolo, a FDA precisará avaliar os dados de eficácia, segurança, fabricação e controle de qualidade. A aprovação não é automática e não existe uma data confirmada para o início das vendas.
No Brasil, a comercialização dependerá de um pedido específico da fabricante e da aprovação da Anvisa.
Anvisa alerta para produtos vendidos irregularmente
Apesar de não ter registro, a retatrutida tem sido anunciada em sites e redes sociais. Produtos identificados com o nome da substância também já foram apreendidos em fronteiras brasileiras como contrabando.
A Anvisa alerta que medicamentos experimentais vendidos irregularmente não oferecem garantia sobre composição, procedência, dose ou condições de armazenamento.
Entre os principais riscos estão:
- Presença de uma substância diferente da anunciada;
- Dose desconhecida ou inadequada;
- Contaminação e impurezas;
- Variações de composição entre os lotes;
- Armazenamento em temperatura incorreta;
- Efeitos adversos ainda desconhecidos;
- Interações perigosas com outros medicamentos;
- Ausência de comprovação de eficácia.
Sem registro e fiscalização, também não existe uma bula oficial que informe contraindicações, dose segura, prazo de validade e procedimentos diante de reações adversas.
A oferta de uma suposta retatrutida na internet não significa que o produto usado nos estudos clínicos esteja sendo comercializado. Não há como garantir que a substância anunciada tenha a mesma composição daquela desenvolvida pela fabricante.
Resultados completos ainda serão publicados
Os números divulgados são resultados gerais apresentados pela própria Eli Lilly. Os dados completos dos estudos TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3 ainda deverão ser apresentados em eventos médicos e publicados em periódicos científicos com revisão por pares.
A análise detalhada será importante para esclarecer aspectos como segurança em longo prazo, manutenção da perda de peso, resposta de diferentes grupos de pacientes e comparação direta com tratamentos já disponíveis.
Os resultados são promissores, mas não justificam a utilização de produtos vendidos irregularmente nem a troca de tratamentos prescritos.
Pessoas com obesidade ou diabetes devem procurar acompanhamento médico para receber uma avaliação individualizada e utilizar somente medicamentos autorizados pela Anvisa.