‘Honestino’ estreia em Goiânia com debate no Oscar Niemeyer. Veja trailer
Redação Online
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 20:45 | Atualizado há 2 horas
Bruno Gagliasso interpreta ex-presidente da UNE no filme 'Honestino' | Foto: Luciana Melo
Marcus Vinícius Beck
O filme “Honestino” estreia em Goiânia, no Oscar Niemeyer, nesta quinta-feira (13/8), na sessão das 19h30. Depois da exibição, os cinéfilos goianienses vão acompanhar debate sobre a película histórica com a presença do diretor, Aurélio Michiles, e do ator Bruno Gagliasso.
Sob a produção de Nilson Rodrigues, a fita relembra a trajetória do estudante Honestino Monteiro Guimarães, banido da UnB durante a ditadura. Ele viveu na clandestinidade entre 1968 e 1973. Aos 26 anos, o jovem goiano foi preso por agentes a serviço da repressão.
Honestino está desaparecido desde o dia 10 de outubro de 73. O apartamento onde morava com sua companheira Shoshana Rappaport, no Rio de Janeiro, nunca foi confirmado pelo regime. A mãe, dona Maria Rosa Leite Monteiro, e os irmãos Norton e Luiz Carlos Monteiro Guimarães tentaram encontrá-lo ao longo das últimas décadas, mas não conseguiram êxito.
Sequestrado, torturado e morto, o líder estudantil teve sua expulsão revogada pela ex-reitora da UnB Márcia Abrahão. Recebeu o diploma de geólogo em cerimônia simbólica realizada em 26 de julho de 2024, no campus Darcy Ribeiro, em Brasília. Honestino era bom acadêmico, sendo aprovado em 1º lugar no vestibular. Faltavam-lhe 11 créditos para concluir o curso.
É preciso dar tempo ao passado, como diz o escritor Milton Hatoum. O que não significa distanciar-se dele. O Brasil dá show nisso. Por aqui, a história é esquecida e, não raro, alguém tenta reescrevê-la. Nos últimos anos, isso até virou moda. Mas, a depender do cineasta Aurélio Michiles, que lança amanhã o filme “Honestino”, agora será diferente.

Memória
Há motivação pessoal nesse projeto. Aurélio foi amigo de Honestino e, desde 68, tem se preocupado com a memória do ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Anos depois, um vídeo do neto de seu velho camarada, durante a reinauguração da ponte que leva o nome do avô, tornou-se o empurrão necessário para que a obra saísse do papel.
Segundo Aurélio, Honestino sempre esteve no horizonte de suas realizações. “Eu sempre pensei em contar a história dele, mas não tinha coragem, porque é também a nossa história, a de um Brasil injusto, violento, que matou milhares de brasileiros”, afirmou o diretor manauara, na estreia do longa durante o Festival do Rio, em outubro do ano passado.
Aurélio declara que, com o filme, o propósito é não deixar um personagem histórico dessa dimensão “congelado numa fotografia antiga”. Por isso, explica, a sua intenção foi torná-lo tangível. “O ontem é hoje e o hoje pode ser o futuro”, reflete o cineasta, que espera provocar no público brasileiro o mesmo impacto e comoção alcançados por “Ainda Estou Aqui”.
A ditadura prendia e, muitas vezes, matava. É o que evidencia o filme do cineasta Walter Salles, vencedor do Oscar. Baseado em um livro best-seller do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do ex-deputado federal cassado após o golpe de 64, a obra mostra que Rubens Paiva acabou preso dentro de sua casa, no Rio, em 71. Nunca mais retornou para a família.
Ao perfilar estudante, filme aloja-se entre documentário e ficção

Para perfilar Honestino Guimarães, Aurélio Michiles fica entre o documentário e a ficção. Recorre a cartas, poemas e imagens de arquivo, bem como a relatos de amigos, familiares e políticos. Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Betty Almeida, biógrafa do ex-presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (Feub), recordam-se do líder estudantil.
Xico Chaves, militante estudantil da UnB em 68, espantou-se com a capacidade para liderar que Honestino tinha. “É uma figura muito carismática”, diz Chaves, no doc. “O movimento estudantil foi todo esfacelado. Foi todo desmobilizado, foi destruído pela ditadura militar.”
Em agosto de 1968, o Exército e a polícia política invadiram a UnB para prender o estudante de geologia e outras sete lideranças estudantis. Honestino foi retirado da Feub e permaneceu preso até novembro. Sem saída, ele deixou Brasília em dezembro daquele ano, após o AI-5.
Logo depois, o documentário traz o depoimento da professora Catarina de Almeida Santos, da UnB. Segundo ela, quem controlasse a educação controlaria as mentes e os corações. “E quem controlasse aqueles que estavam sendo educados hoje controlaria o futuro”, analisa.

Hibridismo
Como a linguagem é híbrida, o docudrama dispõe ainda de cenas ficcionais construídas por Bruno Gagliasso. Em uma delas, Gagliasso, interpretando Honestino Guimarães, se volta contra o regime instaurado no país e, aos gritos, convoca: “Mais uma vez, nós, estudantes de Brasília, vamos às ruas denunciar esses fascistas, essa ditadura militar que invadiu a UnB.”
Gagliasso afirma que “Honestino” chega em um “momento muito importante”. Segundo o artista, a desinformação se dissemina pela sociedade “numa velocidade absurda”. O filme, em razão desse cenário, vira um instrumento de memória, reflexão e, sobretudo, resistência. “Não para impor uma verdade, mas para nos lembrar da importância de buscar os fatos.”
“Os assassinos de Honestino andam soltos e impunes por aí? Ainda riem dos que foram torturados e jogados no fundo da terra calcinada? Ou são apenas fantasmas de uma história infame?”, reflete o escritor Milton Hatoum, na crônica “Antes do Amanhecer”, publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”. Os restos de Honestino Guimarães jamais foram localizados.