Quando a intimidade vira rotina e o casal deixa de se descobrir
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 13:02 | Atualizado há 2 horas
Cena de “O Convite”, filme estrelado e dirigido por Olivia Wilde que aborda os desafios de relacionamentos longos | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Um dos grandes perigos de um relacionamento longo é deixar de ter curiosidade sobre o outro. Quando acreditamos que já sabemos quem é aquela pessoa, os papéis se cristalizam e a convivência pode virar uma rotina funcional.
Em “O Convite”, filme dirigido e estrelado por Olivia Wilde, uma troca de parceiros que parece prometer novidade acaba revelando que o problema do casal protagonista é anterior ao sexo: eles já não conseguem se olhar.
Refilmagem do espanhol “Sentimental” (2020), de Cesc Gay, o longa acompanha Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde), juntos há mais de uma década e pais de uma menina. Eles recebem os vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), juntos há apenas um ano, e desde o início fica evidente a desconexão do casal anfitrião.
Atenção: este texto contém alguns spoilers nos parágrafos a seguir.
Angela e Joe conversam para cobrar e acusar um ao outro e têm uma tendência a responsabilizar o parceiro pelas próprias frustrações. Piña e Hawk também têm conflitos, mas parecem mais disponíveis para reconhecer o incômodo, pedir desculpas e negociar.
Quando surge a proposta de uma troca de casais, os anfitriões topam como se a novidade pudesse recuperar alguma coisa que se perdeu. Mas a experiência deixa clara a falta de intimidade entre eles.
A casa como retrato da relação
Para a psicanalista Maria Homem, a casa dos protagonistas é também uma espécie de personagem do filme e representa a própria relação. Joe e Angela investiram numa reforma cara, mas trata-se na verdade de uma “pseudo-reforma”, avalia Maria, em que as estruturas são mantidas.
A decoração do apartamento expressa esse movimento, acrescenta a psicanalista. “Há uma indecisão sobre novos tons de azul para pintar, que você nem consegue escolher ou diferenciar de tão parecidos. Tudo permanece no mesmo lugar.”
A ideia de mudar sem sair do lugar também aparece na análise da filósofa e professora Lúcia Helena Galvão. Para ela, não se trata apenas de ficar parado, mas de seguir continuamente, sem aceleração ou pausa.
“O maior risco que corremos é o de deixar de agir por medo e resistência. Se algo não está bem, a mudança é bem-vinda, interna ou externamente”, diz Galvão.
Quando o casal entra em uma guerra silenciosa
Consultora do filme “O Convite”, a psicoterapeuta Esther Perel, autora do best-seller “Sexo no Cativeiro: Como Manter a Paixão nos Relacionamentos” (Objetiva), usou a expressão “guerra crônica de baixa intensidade” para descrever o casamento de Angela e Joe.
“O filme fala sobre os desafios de casais que ficam estagnados, que não conseguem mais se reconhecer, que perderam o desejo, a ânsia, que foram aprisionados em uma guerra crônica de baixa intensidade”, disse Perel em entrevista recente ao Jornal The New York Times.
É nesse terreno que pode surgir o ressentimento. Para a psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian, isso acontece quando os parceiros passam a “olhar para o outro muito mais como um oponente do que como um parceiro de aventura”.
“A gente está num mundo cada vez mais verbal, mental. Quando foi a última vez que o casal intencionalmente se fez um carinho, deu um beijo demorado de língua, se tocou?”, questiona. “No momento em que a gente acha que é íntimo porque já conhece, a gente acaba esvaziando a relação de intencionalidade, de curiosidade. Isso vai desgastando e esgarçando o amor.”
Maria Homem sugere que os indivíduos façam uma reflexão para continuar se reinventando. “Como é que a gente se renova? Como é que a gente se deixa ser interessante, criativo?”
Desejo, intimidade e a busca pelo novo
É nesse contexto que a psicanalista lê o comportamento de Angela. Para Maria, a personagem canaliza seu “eu erótico e desejante” ao caminhar nua pela casa com a janela aberta sabendo que Hawk pode observá-la.
A questão, portanto, não se limita ao sexo. Diz respeito também à possibilidade de voltar a ser desejada e desejante. Maria Homem observa que muitos casais colocam suas fantasias em jogo no início da relação, mas podem chegar, depois de alguns anos, a uma “parede” formada por medos, repressões ou pela própria chegada dos filhos. A partir daí, recuam da pesquisa erótica, e o sexo pode travar.
No contexto da troca de casais, Maria afirma que a renovação não se resume à troca do objeto, “uma mudança via magia, pirlimpimpim”. Ela precisaria atingir “o vínculo, o elo, o jogo desejante” na dinâmica do casal.
Galvão também alerta para o risco de procurar o novo apenas fora da relação. Ao fazer isso, afirma, “estaremos sempre condicionados a uma mudança externa que nunca nos trará a verdadeira realização”.
Para ela, uma possibilidade é cultivar deliberadamente a curiosidade. “Se aprendêssemos a olhar para o mundo sempre com esse olhar do novo, com a curiosidade de uma criança, e nos dispuséssemos a conhecer um novo aspecto do outro todos os dias, a convivência só aprofundaria cada vez mais as relações.”
Novas experiências podem ajudar na reconexão
Carol sugere que uma forma de levar isso para o dia a dia é fazer coisas novas juntos. “Por isso que casais em crise muitas vezes vão viajar, porque na viagem você tem que aprender a abrir um chuveiro diferente, a pedir um prato numa língua que você não sabe. Vencer esses pequenos desafios juntos traz para o casal um senso de que é possível mudar dinâmicas, ainda que eles estejam há muito tempo juntos.”
A pesquisadora também defende recuperar prazeres que existam para além do casal. Ver o parceiro envolvido com algo que desperta seu entusiasmo pode renovar o olhar. “É poder falar sobre os novos tesões da vida e criar novos tesões juntos.”
Outra sugestão é reservar momentos para o lúdico, a curiosidade e a reconexão, em vez de esperar que sobre energia depois de um dia exaustivo. A mesma lógica vale para novas experiências sexuais. Abrir o relacionamento ou experimentar aventuras pode conectar o casal com o novo, pode ser “a cereja do bolo e o frio na barriga”, diz Carol.
Há, contudo, uma questão fundamental que deve sempre ser respondida: existe a vontade de renovar essa parceria? (Luiza Souto/FOLHAPRESS)