Entretenimento

Hyldon promove ‘Festa na Aldeia’ em disco suingado e cheio de preciosidades

Redação Online

Publicado em 16 de agosto de 2026 às 19:56 | Atualizado há 2 horas

Hyldon se apresenta no Blue Note, no Rio de Janeiro: soulman | Foto: Divulgação
Hyldon se apresenta no Blue Note, no Rio de Janeiro: soulman | Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Tudo se funde entre o novo e o velho, o conhecido e o inédito em “Festa na Aldeia”, o 17º disco do cantor Hyldon, 75. A obra, que reúne desde canções guardadas nos anos 1970 até obras recentes, chega ao streaming pela ONErpm. Nada vai ser tão bom nesta segundona.

A soul music está suingada na faixa “Vida Maneira”. Gravada por Wanderléa em 1972, no disco “Maravilhosa”, a canção ainda permanecia inédita na voz de Hyldon. O artista conta que a composição nasceu quando assistira a um casal de amigos discutir por ciúmes. Pegou o violão e, pouco tempo depois, a obra veio ao mundo. Os três, felizes, começaram a cantá-la.

“Meu vestido curto, não uso/ Pois você não deixa/ Nem de maquiagem eu curto/ Pois você se queixa”, diz o soulman baiano, entre comentários de guitarra e de sopros. “Que bom que você descobrisse/ Que tudo evoluiu/ Ciúme é pura tolice/ Que bom que você descobrisse.”

No início dos anos 70, Hyldon tocava guitarra na banda de Wanderléa — anos depois, o músico inventaria a soul music rural, no sentido brasileiro da palavra, um som que reuniria algo de Marvin Gaye, Milton Nascimento e Tim Maia. Para o repertório da cantora e símbolo da Jovem Guarda, ele colaborou em duas faixas, sendo que “Vida Maneira” era uma delas.

Hyldon vive de música desde os 14 anos e, junto com Tim e Cassiano, formou a santíssima trindade do soul brasileiro. Em 1973, o baiano gravou o compacto “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)”, cuja faixa-título versa sobre o amor e o amor pela natureza. No ano seguinte, lançou “As Dores do Mundo”. O esperado primeiro LP apenas sairia em 1975.

Cantor surgiu na música popular brasileira durante os anos 1970 | Foto: Divulgação

Povos originários

Depois do abre-alas, tem início “Festa na Aldeia”, um tributo aos povos originários. Trata-se de uma parceria de Hyldon com o africanista, grafiteiro, rapper e compositor Nkongo Divw. A letra mescla português e tupi. O artista entoa: “Hoje todos os índios da aldeia / Vão pular, vão dançar até o pôr do sol.” A mão direita do músico dá o ritmo reggae-ancestral à música.

Capturado o inimigo — como declama Hyldon —, o soulman se revela instrumentista hábil, com sua guitarra suingada balançando e cadenciando. Há, então, um transe: “A Onça”. E se não é nada disso, é quase isso. Sente-se assim ouvindo a metaleira: Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete) e Zé Maria (sax) conferem um brilho metálico a esse soul clássico.

Você há de se surpreender, há de se surpreender com o som que apoia essa voz grave. Apoia ou a impulsiona? Bem, agora ressoa um tal “blues sertanejo”, para ficar numa expressão de Hyldon. Eis que o nosso herói, absolutamente bluesy, relembra os primórdios e a mudança do interior baiano para o Rio de Janeiro: “Saudade da morena, dos beijos e dos cheiros”.

“Fã do sanduíche” entorna aquele mingau de tapioca do pé de umbuzeiro. O eu lírico, ou o próprio Hyldon, confessa querer “voltar a falar cantando” e querer “calma e palmas”. As memórias pretéritas ganharam Alex Malheiros e seu violão nylon, Paulinho Guitarra e seus dedilhados, Maurício Einhorn e sua gaita. Márcio Pombo toca um belo órgão Hammond.

Artista destrava baú e revela preciosidades ao ouvinte

Suingue: disco demonstra capacidade rítmica com a guitarra do cantor e compositor baiano | Foto: João Moura

Meu velho, eu tentei, juro que tentei. Minha ideia, aqui, era evitar a primeira pessoa, essa voz tagarelante e subjetiva. Afinal, você — reflito enquanto ouço — se interessa pelo objeto ao qual me dedico a escrever, talvez com requintes analíticos e existenciais. Acontece, leitor, o seguinte: estou atarantado. Só pode ser a música de Hyldon, uma dádiva do nosso tempo.

Agora dou play em “O Pierrot, a Lua e o Mar”, a 5ª faixa de “Festa na Aldeia”. Essa música foi composta depois de Hyldon e Pepeu Gomes ficarem sem contato por 40 anos. Houve um desentendimento entre eles em uma partida de futebol. A alquimia uniu a guitarra brasileira e nova baiana com o pulso rítmico no instrumento de um dos fundadores do soul brazuca.

“O Pierrot, a Lua e o Mar” é, digamos, uma canção praiana ao estilo de Dorival Caymmi e João Gilberto. Tem, claro, um quê roqueiro. É o tipo de som que nos leva a certas reflexões, como o inferno astral no qual Hyldon se meteu nos anos 1980. Nunca foi uma surpresa seus problemas com gravadoras: naquela década, ele só gravou em selos pequenos. Foi um erro.

Especialidade

Um erro que, diga-se, partiu mais das companhias do que dele. E, amigo, veja bem: se o amor é há séculos força criativa para a arte, o desamor mais ainda. Nisso, você há de ouvir, Hyldon joga com a camisa dez — manda muito bem nessa que se revela de fato uma de suas especialidades, a balada. Para escrever “Desamor”, o homem se inspirou em uma desilusão.

Em 1977, Hyldon tinha mudado de gravadora. Contudo, descobriu que havia pintado uma ordem da direção para que não divulgassem seu álbum. Chateado com o boicote, largou tudo e se instalou em Búzios, a 170 km do município do Rio de Janeiro. Foi nessa época que rascunhou a música “Aconteceu em Geribá”, agora finalizada — um soul delicioso.

Ao fim do disco, “Um Lindo Dia” se revela bela e reconfortante. É parceria com o baterista Ivan Conti, o Mamão, cujas baquetas estão no trio de samba-jazz-soul Azymuth. A faixa acabou sendo feita poucos meses antes da morte de Mamão, em 17 de abril de 2023. O disco tem a capa criada pelo artista naïf Marcio Bertoli. Tudo se funde entre o novo e o velho.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia