Braskem avança para recuperação extrajudicial de cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas
Léo Carvalho
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 12:34 | Atualizado há 2 horas
Braskem enfrenta crise financeira e avança para pedido de recuperação extrajudicial | Foto: Divulgação
MARIA CLARA MATOS E DIEGO FELIX / Folhapress – A petroquímica Braskem informou ao mercado nesta segunda-feira (24) que seu conselho de administração deu sinal verde para que a empresa entre com um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas, o equivalente a aproximadamente R$ 56,2 bilhões.
O pedido deve ser feito ainda nesta segunda-feira à Justiça. Nos últimos dias, a companhia fechou com seus credores um acordo para renegociar as dívidas, abrindo caminho para o pedido formal de recuperação extrajudicial na Justiça.
A posição de caixa da Braskem foi severamente afetada pelos preços baixos no setor petroquímico e por um desastre relacionado às suas minas de sal no Nordeste.
A empresa estava em negociações avançadas para um potencial pedido de recuperação extrajudicial no Brasil antes do final de agosto, quando expiraria uma proteção emergencial de 60 dias, ao mesmo tempo em que explorava opções de reestruturação para sua subsidiária mexicana.
De acordo com a petroquímica, contudo, os documentos ainda não foram protocolados na Justiça.
“A Braskem esclarece que a recuperação extrajudicial possui escopo limitado, estritamente financeiro, e não abrange quaisquer obrigações da Companhia com seus fornecedores, clientes e demais stakeholders, as quais permanecem vigentes e seguem sendo cumpridas normalmente, nos termos dos respectivos contratos”, disse a empresa.
Fundada em 2002, a empresa nasceu da consolidação de ativos petroquímicos da antiga Odebrecht, atual Novonor. Hoje avaliada em cerca de R$ 6,2 bilhões, a companhia está muito distante do auge registrado em outubro de 2017, quando seu valor de mercado superou R$ 60 bilhões.
Na última sexta-feira (21), a petroquímica havia afirmado ao mercado não ter se decidido sobre a possibilidade de uma recuperação extrajudicial, mas que havia intensificado a negociação com credores e avaliado medidas de proteção.
No segundo trimestre de 2026, a companhia divulgou receita líquida de R$ 21,72 bilhões, crescimento de 22% sobre o segundo trimestre de 2025, um Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 1 bilhão e um lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o prejuízo de R$ 267 milhões registrado no mesmo período do ano anterior.
A alavancagem, um dos principais indicadores que apontam o tamanho do problema da dívida, chegou a 14,7 vezes o Ebitda, muito acima dos limites considerados saudáveis no mercado. Ao todo, a dívida da companhia é de R$ 54 bilhões.
Em junho, a companhia finalizou o processo de entrada da gestora IG4 na operação. A transação foi feita a partir da venda da maior parte do controle da Novonor no negócio, que repassou 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social da petroquímica ao fundo Shine I.
O restante das ações pertence à Petrobras, e a Novonor ainda manteve 4% das ações. A assinatura do contrato foi anunciada no dia 20 de abril.
Em dezembro do ano passado, quando anunciou a intenção de compra da fatia da Novonor, a IG4 comprou cerca de R$ 20 bilhões em dívidas da construtora com os maiores bancos do Brasil. As ações da Braskem eram dadas como garantia nesses contratos.
CRONOLOGIA DA CRISE
Em 2015, a Braskem realizou seu último grande investimento ao anunciar a construção de uma planta fabril no México, onde hoje opera a subsidiária Braskem Idesa. O objetivo era reforçar sua presença global na indústria petroquímica por meio da joint venture com a mexicana Idesa.
Na ocasião, a companhia desembolsou US$ 5,2 bilhões para montar uma fábrica focada na produção de eteno à base de gás e três plantas de polietileno.
Acontece que, meses após a inauguração da planta mexicana, em 2016, a operação Lava Jato atingiu o coração da Odebrecht e jogou a construtora em uma espiral de dívidas. Na busca por dinheiro para quitar seus passivos, a Odebrecht iniciou tratativas para vender sua participação na petroquímica.
Foram dez anos tentando encontrar, sem sucesso, uma solução para a Braskem, que sofreu com o colapso financeiro de sua controladora justamente quando precisava de solidez financeira.
COLAPSO EM MACEIÓ
Dois anos depois, em março de 2018, a companhia viu o início de um dos maiores desastres ambientais do país, com o afundamento do solo em bairros de Maceió (AL). A causa foi a extração inadequada de sal-gema em 35 minas subterrâneas, que causou tremores de terra, rachaduras em imóveis, fendas nas ruas e a evacuação de mais de 60 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
A atividade de mineração só foi interrompida na região em maio de 2019. Naquele ano, a Odebrecht entrou em recuperação judicial, o que, combinado com o passivo ambiental de Maceió, ajudou a agravar a crise financeira da Braskem.
Apesar da interrupção das atividades de mineração, em novembro de 2023 houve um aumento abrupto na velocidade de afundamento do solo. No final daquele mês, a prefeitura decretou emergência por 180 dias diante do “iminente colapso” de uma mina, o que acabou se concretizando em menos de duas semanas, quando o rompimento da Mina 18 promoveu a abertura de uma cratera de 300 metros de diâmetro.
Em novembro de 2025, dois anos após o desastre, a Braskem assinou um acordo com o governo de Alagoas para o pagamento de R$ 1,2 bilhão em indenização pelos danos causados pelo afundamento do solo, montante que se soma ao que já havia sido desembolsado anteriormente.
O valor foi dividido em parcelas anuais ao longo de dez anos, sendo que o governo ainda complementou um pacote de investimentos de cerca de R$ 2,3 bilhões, voltado para a recuperação de 13 municípios da região metropolitana de Maceió.
O valor foi criticado por movimentos de vítimas do desastre, que se apoiavam em estimativas do próprio governo estadual indicando mais de R$ 30 bilhões somente em danos.
Nos últimos dois anos, a Braskem diz que sofreu com o excesso de oferta global de petroquímicos, o que ajudou a derrubar os preços dos produtos. Esse quadro foi agravado pelo aumento de importações baratas vindas da Ásia, sobretudo de polietileno, cuja participação da Braskem no mercado brasileiro chegou a 70%.
Fora do país, a operação mexicana entrou em dificuldades e complicou a situação da Braskem, uma vez que a companhia tinha um contrato de suporte financeiro em um empréstimo tomado pela Idesa e que poderia ser acionado caso a subsidiária entrasse em recuperação judicial nos EUA, o Chapter 11, o que aconteceu.
Na última terça-feira (18), a joint venture entrou com o equivalente à recuperação judicial nos EUA. A companhia chegou a acordos com credores e acionistas para abater a dívida em mais de US$ 920 milhões, o equivalente a R$ 4,78 bilhões, e espera sair do Chapter 11 dentro de 60 a 90 dias, acrescentando que suas operações diárias continuarão funcionando normalmente.
A Braskem, acionista majoritária da Braskem Idesa, informou que contribuirá com US$ 476 milhões, o equivalente a R$ 2,48 bilhões.
A saída formal da Novonor e a chegada da IG4 geraram alívio momentâneo, já que a gestora é especializada em recuperar a operação de empresas em crise.