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Doc investiga filme não realizado que se baseou em livro de José J. Veiga

Redação Online

Publicado em 26 de agosto de 2026 às 22:54 | Atualizado há 21 minutos

Jean-Claude Bernadet: cineasta escreveu roteiro de "A Hora dos Ruminantes" | Foto: Manoela Rabinovitch
Jean-Claude Bernadet: cineasta escreveu roteiro de "A Hora dos Ruminantes" | Foto: Manoela Rabinovitch

Marcus Vinícius Beck

Sob a direção dos cineastas Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, “Os Ruminantes” está em cartaz no Cine Cultura, em Goiânia, e ganha na segunda-feira (31) sessão especial a partir das 19h30. Os diretores vão conversar com o público após a exibição do documentário.

A película toma como base o roteiro de “A Hora dos Ruminantes”, escrito em 1967 por Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernardet. Era uma tentativa de levar à tela grande o romance do escritor José J. Veiga, de 1966. No entanto, o projeto empacou, tornando-se um não filme.

Segundo Cordeiro de Mello, doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Veiga tinha “uma visão ambígua” sobre a alegoria política em “A Hora dos Ruminantes”. O pesquisador afirma ao DM que, em certas entrevistas, o escritor goiano reconheceu a intenção de dialogar com o momento histórico após o golpe de 1964.

“Noutras, [o autor] argumentou que o sentido alegórico da obra ia além daquele momento histórico”, recorda-se o estudioso. “Veiga trabalhou como jornalista da BBC na época em que o mundo descobriu as atrocidades do nazismo. Tinha, portanto, uma visão mais ampla das formas de opressão ao longo da história. O mesmo se pode dizer de Jean-Claude Bernardet.”

Homem de esquerda, Bernardet nasceu na Bélgica em 1936. Seu pai atuou na resistência aos nazistas, instalando-se no Brasil quando o filho contava 13 anos. Tempos depois, já adulto, o jovem se naturalizou brasileiro. Crítico, professor da USP, escritor, roteirista, ator e cineasta, viveu muitas vidas. Morreu em julho de 2025, em São Paulo — tinha oito décadas de ideias.

O escritor José J. Veiga: ‘A Hora dos Ruminantes’ se tornou não-filme – Foto: Acervo José J. Veiga/ Facebook

Perfil

Person, por sua vez, filmou a classe média paulistana em “São Paulo S/A”, de 1965. Com “O Caso dos Irmãos Naves”, lançado em 1967, ele evidenciou a prática da tortura — o caso era do Estado Novo, mas aos militares nada disso importava. Na sequência, em 1968, o AI-5 foi baixado pela ditadura. “A Hora dos Ruminantes” não passaria pela censura do regime.

Araújo revela à reportagem que, ao decidirem transpor o romance para o cinema, em 1967, Bernardet e Person queriam representar alegoricamente o golpe e a ditadura. “Ironicamente, no nosso caso, quando fizemos o documentário, também nos sentimos obrigados a falar do momento atual. Fazemos referência ao momento de guinada autoritária na história recente.”

Como sugere “Os Ruminantes”, o filme não realizado talvez inaugurasse um movimento cinematográfico. Cordeiro de Mello observa que isso se tratava de “uma proposta estética concebida” naquele ano, ocasião na qual a literatura fantástica latino-americana estava em “pleno florescimento” — é quando sai, por exemplo, o romance “Cem Anos de Solidão”.

José J. Veiga, tal qual Gabriel García Márquez, criou uma cidade. No romance, publicado pela Civilização Brasileira, o escritor expõe a noite chegando cedo em Manarairema. Conta que, “mal o sol se afundava atrás da serra — quase que de repente, como caindo — já era hora de acender candeeiros, de recolher bezerros, de se enrolar em xales” para sofrer a noite.

O mistério do ‘roteiro maldito’ de Person e Bernardet

Invasão de Manarairema simboliza a ascensão do autoritarismo – Foto: Cinemateca Brasileira

A julgar pelo ponto de vista narrativo, “a água cochichava debaixo da ponte” e “fazia redemunho nos esteios, espumando”. Havia, conforme a voz da prosa, “um arzinho frio” que subia em ondas, trazendo “cheiro de areia e folhas molhadas”. Donos da noite, sapos e grilos competiam. Cigarros foram fumados, os tocos sobre a calçada, indo para cá e para lá.

Então, seguindo a tradição do absurdo ionescano, tudo muda: “um grande acampamento fumegando e pulsando do outro lado do rio, coisa repentina, de se esfregar os olhos. As pessoas acordavam, chegavam à janela para olhar o tempo antes de lavar o rosto e davam com a cena nova.” Irresistível não pensar em Eugene Ionesco e sua peça “O Rinoceronte”.

Logo depois, Manarairema é invadida por cachorros, que aparecem aos montes no vilarejo, fazendo a população se trancar em casa. Os animais andam pelo local. Centenas de bois fecham o arco narrativo mágico do livro. Jean-Claude Bernardet, em certa altura de “Os Ruminantes”, explica que essa metáfora — o clímax, não à toa — simbolizaria os fascistas.

Para Cordeiro de Mello, a originalidade da proposta de Person e Bernardet era justamente apostar em uma forma de cinema político que se aliava ao entretenimento. Com isso, diz o cineasta e pesquisador, cria-se um filme-espetáculo capaz de atingir um público extenso.

No doc, a cineasta e apresentadora Marina Person revela que seu pai achava as obras do cinema novo herméticas. “Eram filmes feitos para intelectuais, filmes que se encerravam em um circuito próprio. Meu pai queria fazer cinema popular”, afirma Marina, que lembra de ter recebido um conselho de Carlos Reichenbach, morto em 2012, aos 67 anos, em São Paulo.

‘Faça o que você quiser’

“Faça o que você quiser de sua vida, só não vai inventar de filmar aquele roteiro maldito do seu pai”, disse o cineasta. Outros diretores, como José de Anchieta, tentaram levar adiante o projeto, mas fracassaram. O próprio Luiz Sergio Person, aliás, procurou financiamento nos EUA, no que acabou boicotado — ninguém gostou por lá de “O Caso dos Irmãos Naves”.

“Os Ruminantes” apresenta documentos da ditadura: agredia-se a cultura naqueles tempos. Person trabalhou com publicidade e, insatisfeito, telefonou aos donos das agências. Um por um, avisou que sairia desse meio. Em seguida, mandou-os à puta que os pariu. O cineasta, que não havia feito 40 anos, desapareceria num acidente de carro, em São Paulo, em 1976.

Person e Bernardet inovaram ao se voltar para um romancista goiano e para uma estética nova, inspirada em um “certo aspecto documental regionalista do interior do Centro-Oeste”. Era algo que, anos mais tarde, se afirmaria tanto no cinema alegórico quanto na tendência que surgiria nas telenovelas durante os anos 1970 e 1980, explica Marcelo Cordeiro de Mello.

Para o crítico Eduardo Escorel, Araújo e Cordeiro de Mello realizaram uma “preciosidade”. “O documentário de Araújo e Mello nos confronta com as difíceis condições em que, muitas vezes, tentamos fazer cinema no Brasil”, escreveu Escorel na revista Piauí, em 2 de abril de 2025. Naquela época, o longa fora exibido durante o É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo.

O doc esteve ainda no Festival de Brasília, na Mostra Competitiva da CineOP (Mostra de Ouro Preto) e no Festival Guarnicê de Cinema. A obra conquistou três prêmios: o de Melhor Documentário no Festival de Cinema de São Bernardo, o de Melhor Direção no Festival de Santos e o Grande Prêmio do Júri no Festcine Itaúna. Chegou aos cinemas no último dia 6.


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