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Gregório Duvivier: “A língua é um ser vivo e querer congelá-la nunca deu certo”

Redação Online

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 22:12 | Atualizado há 58 minutos

Gregório Duvivier diz que “está louco” para ouvir jeito goiano de falar português | Foto: Priscila Prade
Gregório Duvivier diz que “está louco” para ouvir jeito goiano de falar português | Foto: Priscila Prade

Fausi Humberto

Ator, escritor e humorista, Gregório Duvivier construiu uma trajetória marcada pela circulação entre teatro, literatura, televisão e cinema. Formado em Letras, ganhou projeção nacional como um dos criadores do Porta dos Fundos e consolidou uma linguagem própria ao combinar humor, crítica e observação do cotidiano.

Agora, ele volta aos palcos com “O Céu da Língua”, espetáculo dirigido por Luciana Paes que transforma a língua portuguesa em matéria-prima para humor, poesia e reflexão. A montagem chega a Goiânia no início da próxima semana, com apresentações nos dias 30 e 31 de agosto, no Teatro Rio Vermelho.

Em entrevista ao Diário da Manhã, Duvivier explica por que decidiu olhar para a língua de maneira menos normativa e mais divertida. Também fala sobre as mudanças do português, a poesia escondida nas expressões cotidianas e revela a curiosidade em conhecer o chamado “goianês”.

Duvivier: “A peça nasce justamente dessa percepção de que a poesia vem sendo tratada de uma maneira muito séria” | Foto: Priscila Prade

Diário da Manhã – Você transforma aquilo que normalmente estudamos de maneira séria — gramática, metáfora, gíria e reforma ortográfica — em matéria-prima para o humor. Em que momento percebeu que a língua portuguesa poderia ser não apenas tema de uma peça, mas também uma personagem?

Gregório Duvivier – A peça nasce justamente dessa percepção de que a poesia vem sendo tratada de uma maneira muito séria, muito normativa. A língua também é tratada como uma questão de certo ou errado, de maneira muito prescritiva. Dizem o que deve ser dito, como deve ser dito ou como não deve ser dito. E acabamos não percebendo as belezas e a graça que ela tem. A peça vem daí: da tentativa de tratar com mais leveza e humor um tema que costuma ser abordado de forma muito sisuda.

DM – A língua está sempre mudando, principalmente nas mãos das novas gerações. Como alguém que trabalha com a palavra e também com o humor, você vê essas transformações mais como uma ameaça à língua portuguesa ou como uma prova de que ela está mais viva do que nunca?

Duvivier – A língua está sempre mudando, e acho que não há nada mais bonito do que isso. As transformações são fontes de poesia e de humor. O barato da língua é justamente esse: ela é um ser vivo. Querer congelá-la nunca deu certo, embora já tenham tentado muito. Os gramáticos vivem tentando até hoje. Os poetas, ao contrário, não só gostam das transformações como muitas vezes ajudam a provocá-las.

Artista declara amor à língua portuguesa: “Há palavras bonitas para momentos muito bonitos do dia” | Foto: Priscila Prade

DM – O espetáculo provoca uma ideia muito interessante: a de que a poesia está muito mais presente no nosso cotidiano do que percebemos. Depois de mergulhar tanto nesse universo, você passou a enxergar o cotidiano de outra maneira? Há alguma expressão ou palavra banal que hoje considera particularmente poética?

Duvivier – Sim, o tempo todo. Essa peça é exatamente isso: uma lembrança da onipresença da poesia no cotidiano. Basta abrir os olhos — ou, melhor, os ouvidos. A gente fala uma língua que tem imagens muito bonitas e, às vezes, é preciso uma criança ou um estrangeiro para estranhá-las e nos fazer perceber como são bonitas.

Tenho uma amiga estrangeira que ouviu alguém dizer “lavar a alma”. Ela perguntou: “Como é possível lavar a alma?”. Aí percebi como é bonita essa expressão. E não é só ela. Estamos o tempo todo usando palavras que não valorizamos. Há palavras bonitas para momentos muito bonitos do dia. “Lusco-fusco”, por exemplo, é uma palavra linda. A língua é cheia dessas descobertas.

DM – O humor costuma ser associado à velocidade — a piada precisa chegar rápido. Já a poesia muitas vezes pede pausa, silêncio e contemplação. Como você equilibra essas duas forças no palco sem deixar que uma “mate” a outra?

Duvivier – Acho interessante essa oposição, mas não acredito necessariamente nela. Tanto o humor quanto a poesia têm clichês e certas convenções. Uma delas é essa ideia de que o humor é rápido e a poesia é lenta. Outra é que o humor é leve e a poesia é pesada, densa. Também existe a ideia de que o humor é para qualquer um e a poesia, para poucos; de que o humor é popular e a poesia é elitista. Eu não concordo com nenhuma dessas convenções.

A peça tenta justamente quebrá-las. Acredito em uma poesia que tenha a leveza do humor e em um humor que tenha densidade poética. Existe uma esquina entre essas duas avenidas. Também há uma poesia rápida e um humor da pausa, que aproveita cada segundo. Acho que essa mistura é muito interessante.

Ator quer escutar ouvir “goianês” e acrescentar contribuições à peça | Foto: Priscila Prade

DM – Você já apresentou “O Céu da Língua” para públicos muito diferentes, em várias cidades e países. O que muda quando a peça encontra um novo sotaque, uma nova gíria e uma nova maneira de falar português? E o que gostaria de descobrir sobre o jeito goiano de falar quando sair do palco em Goiânia?

Duvivier – O barato dessa peça, que está viajando tanto, é justamente lidar com uma quantidade enorme de variedades linguísticas. A gente vai se deparando com uma vastidão infinita da língua e acrescentando coisas ao espetáculo. Na Bahia, por exemplo, ouvimos a expressão maravilhosa “eu fiquei esperando uma hora de relógio”, e isso entrou na peça. Em Minas, colocamos um pouco do mineirês: “Nuuu!”. É uma síntese impressionante. “Nossa Senhora!” virou “Nóó!”, virou “Nuuu!”. A gente vai atualizando o espetáculo. Em Goiânia, estou louco para ouvir o “goianês” e acrescentar essas contribuições. Tenho certeza de que serão muito bem-vindas. Acho que a língua é de muitos, é uma língua que a gente fala. Uma variante linguística é a cara do lugar onde nasce. Não é à toa que a Bahia é tão vocálica, tão aberta. Acho que isso também diz sobre os baianos. O português de Portugal, por outro lado, tem as vogais muito mais fechadas. Enfim, tenho certeza de que o “goianês” vai me ajudar a entender os goianos. Então é isso, gente. Até breve!


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