Inteligência artificial identifica câncer de mama anos antes do diagnóstico
Léo Carvalho
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 14:46 | Atualizado há 49 minutos
Estudos mostram que sistemas de IA podem encontrar padrões sutis em mamografias aparentemente normais e ajudar antecipar casos da doença | Foto: Mobilemed
A inteligência artificial (IA) está ganhando espaço na análise de exames de imagem e pode ajudar a identificar sinais associados ao desenvolvimento do câncer de mama antes que a doença seja diagnosticada pelos métodos convencionais. Pesquisas recentes mostram que algoritmos conseguem reconhecer padrões muito discretos em mamografias que, embora pareçam normais aos olhos humanos, podem estar relacionados a um risco maior de câncer nos anos seguintes.
A tecnologia, porém, exige uma distinção importante. Identificar um padrão associado a um risco futuro não significa necessariamente que a inteligência artificial tenha encontrado um tumor já existente cinco anos antes do diagnóstico. Em determinadas pesquisas, o sistema reconhece características da imagem relacionadas à probabilidade de desenvolvimento posterior da doença.
Essa diferença também aparece na regulamentação de sistemas desenvolvidos especificamente para previsão de risco. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, classificou o Allix5 como um software destinado a prever o risco futuro de câncer de mama. O sistema calcula uma estimativa para os cinco anos seguintes a partir da análise de mamografias e não tem como finalidade diagnosticar ou detectar câncer.
IA encontra sinais que podem passar despercebidos
Estudos retrospectivos vêm mostrando que algoritmos podem encontrar informações em mamografias realizadas anos antes de um diagnóstico que posteriormente se confirmou como câncer de mama.
Em uma pesquisa envolvendo mais de 2,4 mil mulheres que posteriormente desenvolveram câncer invasivo, a inteligência artificial identificou padrões associados ao risco da doença em exames realizados entre dois e 5,5 anos antes do diagnóstico.
Outro estudo, com 1.602 mulheres, apontou que aproximadamente 23% dos cânceres diagnosticados posteriormente já recebiam a classificação máxima de risco pelo sistema quatro anos antes.
Os resultados não significam que os tumores necessariamente estavam visíveis ou plenamente desenvolvidos naquele momento. A interpretação é que os algoritmos podem encontrar características extremamente sutis relacionadas ao risco futuro, algumas delas difíceis de serem percebidas em uma avaliação convencional.
Estudo na Alemanha testa tecnologia em situação real
O potencial da tecnologia também foi avaliado fora dos experimentos retrospectivos. Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista científica Nature Medicine acompanhou o uso de IA em um programa real de rastreamento de câncer de mama na Alemanha.
A pesquisa envolveu 461.818 mulheres entre 50 e 69 anos que participaram do programa de rastreamento em 12 unidades alemãs entre julho de 2021 e fevereiro de 2023. Os exames eram avaliados por dois radiologistas de forma independente.
Em 260.739 exames, pelo menos um dos profissionais utilizou uma ferramenta de inteligência artificial como apoio à interpretação das imagens. O sistema classificava exames com maior confiança como normais ou suspeitos e também funcionava como uma espécie de mecanismo de segurança.

Quando a IA identificava uma alteração suspeita em uma mamografia que havia sido considerada não suspeita pelo radiologista, o sistema emitia um alerta e indicava a região da imagem que merecia uma nova avaliação.
Ao todo, 2.881 casos de câncer de mama foram identificados durante o estudo. A taxa de detecção foi de 6,7 casos para cada mil mulheres no grupo em que houve apoio da IA, contra 5,7 casos por mil no grupo submetido à avaliação convencional. Isso representou uma elevação de 17,6% na taxa de detecção e correspondeu a aproximadamente um caso adicional identificado a cada mil mulheres examinadas.
A pesquisa também mostrou que o uso da tecnologia não aumentou a taxa de convocação para exames complementares. Pelo contrário, ela foi ligeiramente menor no grupo que contou com o apoio da IA, embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa.
Tecnologia funciona como apoio ao radiologista
No modelo estudado na Alemanha, a inteligência artificial não substituiu os médicos. A tecnologia foi utilizada como ferramenta complementar à avaliação dos radiologistas.
A experiência é especialmente relevante em programas de rastreamento que lidam com um grande volume de exames. No sistema alemão, duas avaliações independentes são realizadas para cada mamografia. Quando existe suspeita de alteração, um terceiro especialista pode ser acionado para decidir pela necessidade de exames adicionais.
O volume de exames torna esse processo particularmente exigente. A possibilidade de utilizar algoritmos para destacar imagens que merecem maior atenção pode reduzir a carga sobre os profissionais e ajudar a acelerar determinadas etapas da análise.
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo consideraram os resultados promissores justamente pelo potencial de aumentar a capacidade de detecção sem ampliar proporcionalmente a quantidade de exames chamados para investigação.
Câncer de mama é um dos maiores desafios de saúde
A busca por métodos capazes de antecipar a identificação da doença ocorre diante da dimensão mundial do câncer de mama. Dados da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, apontam que aproximadamente 2,3 milhões de novos casos foram registrados no mundo em 2022, enquanto cerca de 670 mil mulheres morreram em decorrência da doença.
O câncer de mama continua sendo o tipo de câncer mais diagnosticado entre as mulheres e uma das principais causas de morte por câncer nesse grupo. A ampliação da detecção precoce é considerada uma das estratégias fundamentais para melhorar os resultados do tratamento.
Nesse cenário, pesquisadores e empresas de tecnologia vêm desenvolvendo diferentes aplicações de inteligência artificial para auxiliar profissionais de saúde.
Google também pesquisa uso da IA
Entre os projetos internacionais está o trabalho desenvolvido pelo Google na área de análise de imagens médicas. A empresa iniciou, em 2016, pesquisas com modelos de redes neurais profundas voltados ao apoio à identificação de câncer de mama metastático.
Em 2021, o Google Health e a Northwestern Medicine realizaram pesquisas clínicas para avaliar o uso de inteligência artificial na análise de mamografias. Os resultados divulgados na época apontaram redução de falsos negativos e falsos positivos no modelo avaliado, além da capacidade de análise das imagens em um intervalo inferior a dois minutos.
A tecnologia, entretanto, continua sendo tratada como ferramenta de apoio. A interpretação médica, a investigação de achados suspeitos e a definição do diagnóstico permanecem etapas fundamentais do processo.
Startups brasileiras investem na tecnologia
O desenvolvimento de soluções com inteligência artificial também ocorre no Brasil.
A startup Huna, fundada em 2022, trabalha com soluções de inteligência artificial voltadas à identificação precoce de tumores de mama a partir de exames de sangue de rotina. Segundo as informações apresentadas pela empresa, mais de 500 mil mulheres já foram rastreadas pela tecnologia.
Outra iniciativa é a Linda Lifetech, criada em 2017. A empresa desenvolve um sensor infravermelho que registra imagens da mama e encaminha os dados para análise em servidores na nuvem. Algoritmos de inteligência artificial são utilizados para comparar as imagens com uma base de dados e procurar padrões associados a possíveis lesões.
IA pode mudar o rastreamento, mas não substitui o diagnóstico
Os estudos indicam que a inteligência artificial pode desempenhar diferentes funções no combate ao câncer de mama. Em alguns casos, o objetivo é ajudar a encontrar alterações presentes nas imagens. Em outros, a tecnologia busca estimar o risco de desenvolvimento da doença nos anos seguintes.
A diferença é fundamental para evitar a interpretação de que uma ferramenta de previsão de risco seria capaz de diagnosticar um tumor antes de ele existir ou antes de estar clinicamente identificável.
O avanço da tecnologia abre a possibilidade de tornar o rastreamento mais eficiente, especialmente diante do enorme volume de mamografias analisadas todos os anos. Mas a IA permanece como uma ferramenta complementar dentro de um processo que depende da avaliação médica, da investigação de alterações suspeitas e da confirmação diagnóstica quando necessária.