Jota Quest leva ouvinte contente para Minas Gerais em tributo a Tim Maia
Redação Online
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 20:34 | Atualizado há 2 horas
Mineiros releem clássicos da música popular brasileira Mineiros releem clássicos da música popular brasileira | Foto: Fernando Young
Marcus Vinícius Beck
Em meio a tantos sons que nos causam cacofonia, “Dance Enquanto é Tempo”, disponível nas plataformas digitais e com previsão de ser editado em vinil duplo, grooveia ao ritmo do balanço funk-soul brasuca. O Jota Quest, trinta anos completados, celebra a obra do chefão Tim Maia, símbolo da turma mela-cueca e daqueles que esquentam os sovacos nas pistas.
Trago estas rosas, como me sopra o mestre, para te dar. Voz rouca e grave, encorpada por baurets e biritas, a cantar: o céu está tão lindo — “vai chuva”. No som, mussita a confissão romântica na balada: “Pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti, porque é primavera.”
“Dance Enquanto é Tempo” começa. Entoa uma faixa inédita, intitulada “Seroma”, e agora Tim Maia pega o verbo: “Minha mãe era Maria Imaculada Maia e meu pai, Altivo Maia. Sou o décimo oitavo filho desse casal que se amava. Minha mãe era apaixonadíssima no meu pai. […] Estou estudando ufologia agora. Tenho consciência de que existem seres extraterrestres.”
Sebastião Rodrigues Maia foi vocalista inigualável, inventor do funk e soul brasileiros. De forma original, o artista mostrou aos coleguinhas como se faz: cantava para fora, mermão, dane-se se era coisa de corno. Bem-humorado, com duas garrafas de uísque, revelava-se: “Espero um grande amor. Enquanto isso, fico por aí exercitando, senão perco a prática.”
Uma luz azul me guia, conforme Tim não para de relatar no rádio, augurando a clareza e o brilho do cristal que transam as cores desta vida. O soulman, percebo eu, é voz. Voz e letra, com aquela doce e tesuda melodia assobiando entre a divisão temporal. Os riffs, aqui, são de metais, verdadeira sinfonia majestosa — até o baixo, ouça bem, está tímido diante do sopro.
Vamos dançar
O Jota Quest, vai vendo, sabe gravar. Todos, na banda mineira, têm admiração pelo rei do soul. Daí o fato de “Dance Enquanto é Tempo” ser o que é: uma celebração a Tim Maia, esse especialista na arte de produzir canções descomplicadas. O barato, para o tijucano, se achava às vezes numa simples nota, como aquele dó interminável de “Sossego”, agora regravado.
Tim é, segundo o baixista PJ, figura inconteste para o grupo. O músico diz, em entrevistas recentes, que ele e seus colegas estão ligados ao ídolo black-soul desde 1996. Foi quando bolaram a versão foda para “Dance Enquanto é Tempo” e ligaram para a lenda. No entanto, o nome gringo — Jey Quest — acabou mal-recebido, embora o síndico curtisse o novo som.
Tim Maia morreu cedo, aos 55 anos, no Rio de Janeiro. “Faleceu dois meses depois de nos encontrarmos pessoalmente no festival Planeta Atlântida”, recorda-se o vocalista Rogério Flausino, de 54 anos. “E desde aquela época a gente pensa em uma homenagem pra ele.”
O baixista PJ, 55 anos, puxa os fios da memória. “Tim obviamente não sabia nada da banda, éramos conhecidos somente no cenário mineiro da música, mas se amarrou na gente porque não tínhamos escolhido um hit tão famoso do repertório dele”, explica o músico e produtor.

Com Tim, Rogério Flausino solta a lírica da saudade
“Nem sei por que você se foi…” Flausino, em dueto com Tim, solta a lírica da saudade — “e de tristezas vou viver, e aquele adeus, não pude dar”. Na sequência, o hit “Gostava Tanto de Você” termina e inicia-se “Imunização Racional (Que Beleza)”, trazendo o sal percussivo de Carlinhos Brown e o grupo Os Garotin. Eis que vem a baladona — “vocêêê é algo pra mim”.
Qualé, amigo, são dezesseis faixas, sendo sete delas já lançadas como esquenta em formato single e bundle digital desde dezembro de 2025. Sempre combinando hits e os tais ‘lados B’ de Tim Maia. Apenas coisa boa, veja só: “Acenda o Farol”, “I Don’t Know What To Do With Myself (feat. Mãeana)”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)” e “Estrela do Meu Show”.
Acerca do soul-reggae “Imunização Racional (Que Beleza)”, Rogério Flausino explica: “A percussão incrível do Brown, aliada à energia de Os Garotin, representantes desta nova geração, formou um par perfeito para revisitarmos esta pérola gospel do Tim Maia.”
Tim, então, roga o perdão — “venho lhe seguir, lhe pedir desculpas”. Na versão do Jota Quest, “Réu Confesso” logrou êxito, pois ganhou arranjos modernos. Flausino conta que, dentre as canções escolhidas para “Dance Enquanto é Tempo”, esse som era um samba-soul. A banda esbarrou com Thiaguinho, um amigão, e então o convite foi feito — topou na hora.
Lenda
O disco traz ainda participação do artista Tony Tornado. “Não bastasse tê-lo com a gente agora, do alto de seus 96 anos, vale muito relembrar que ele também esteve conosco em nosso primeiro disco, na faixa ‘Há Quanto Tempo’. É bonito e simbólico tê-lo no álbum novamente, 30 anos depois, para celebrarmos Sebastião. É muita honra”, vibra Flausino.
“Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar, dizer que aprendi…” Nada disso tem IA, longe dos formatos algorítmicos, com introduções mais estendidas e elaboradas. O funk “Racional Culture”, ao estilo George Clinton — mas sem dispensar o gosto brasileiro —, encerra “Dance Enquanto é Tempo”. Tim Maia apresenta-se na faixa.
Por fim, Rogério Flausino elogia o filho de Tim, Carmelo, que cuida e gerencia o espólio do pai. “Incentivou o projeto, nos contando histórias, sugerindo faixas e ideias para o projeto, mas também nos emprestando as vozes originais do Tim Maia para usarmos em algumas faixas”, relata. O Jota Quest é Flausino, PJ, Marco Túlio, Paulinho e Márcio Buzelin.