Corpos encontrados sob escombros em Gaza reacendem alerta da ONU sobre possíveis crimes de guerra
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 15 de setembro de 2026 às 12:53 | Atualizado há 2 horas
Cidade de Gaza, vista do centro da Faixa de Gaza | Foto: REUTERS/Mahmoud Issa
A retirada de centenas de corpos dos escombros de edifícios destruídos na Faixa de Gaza voltou a levantar questionamentos sobre possíveis violações do direito internacional durante a guerra. Nesta terça-feira (15), o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, manifestou preocupação com as descobertas e pediu que investigadores internacionais tenham acesso ao território.
Segundo Türk, entre os restos mortais encontrados estão vítimas que aparentam pertencer a famílias inteiras, incluindo mulheres e crianças. Para o representante da ONU, a localização dos corpos confirma os temores de parentes que passaram longos períodos sem informações sobre seus familiares desaparecidos.
As descobertas também retomam preocupações apresentadas em um relatório das Nações Unidas publicado em 2024. O documento apontou que ataques israelenses contra edifícios residenciais e outros espaços civis nas primeiras semanas do conflito podem ter violado normas do direito internacional humanitário.
Israel rejeita as acusações de que tenha atacado civis deliberadamente e sustenta que suas operações contra o Hamas foram conduzidas de acordo com o direito internacional. O governo israelense também acusa o grupo de utilizar civis como escudos humanos em regiões densamente povoadas, alegação negada pelo Hamas.
Milhares ainda podem estar sob os escombros
De acordo com a Defesa Civil Palestina, mais de 630 corpos e restos mortais foram recuperados sob construções destruídas desde novembro de 2025. Autoridades palestinas estimam que mais de 8 mil pessoas ainda estejam soterradas.
Türk afirmou que o número de vítimas encontradas até agora pode representar apenas uma pequena parcela do total. Grande parte da Faixa de Gaza foi destruída por bombardeios e por posteriores operações de demolição e limpeza.
Somente neste mês, segundo a Defesa Civil Palestina, 96 corpos e restos mortais foram localizados em um único ponto na região de Zeitoun, na Cidade de Gaza. Entre eles estavam 58 crianças e 23 mulheres.
A ofensiva israelense foi iniciada após os ataques liderados pelo Hamas contra Israel, em outubro de 2023, que deixaram cerca de 1.200 mortos e 251 pessoas feitas reféns, conforme dados israelenses. Desde então, mais de 73 mil palestinos morreram durante a campanha militar de Israel, segundo autoridades de saúde de Gaza.
A guerra também deixou aproximadamente 61 milhões de toneladas de destroços e detritos no território palestino. Estimativas das Nações Unidas indicam que a retirada desse material poderá levar cerca de sete anos.
Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos encerrou os combates em grande escala em outubro de 2025. Apesar disso, ataques continuaram sendo registrados, enquanto Israel e Hamas trocam acusações de descumprimento da trégua.
Türk também afirmou que Israel continua realizando demolições em determinadas regiões onde suas forças permanecem posicionadas e criticou a utilização de escavadeiras em áreas onde ainda podem existir corpos soterrados.
O representante da ONU defendeu ainda que investigadores internacionais tenham acesso a todas as regiões de Gaza para localizar e preservar possíveis provas relacionadas à guerra. Segundo ele, Israel tem impedido a entrada de máquinas pesadas necessárias para a retirada dos escombros.
Francesca Albanese, especialista da ONU para os territórios palestinos, também defendeu que evidências sejam preservadas e que os restos mortais sejam identificados antes que uma operação ampla de limpeza seja realizada.
