Polilaminina começa a ser testada em humanos no Brasil
DM Online
Publicado em 17 de setembro de 2026 às 12:59 | Atualizado há 1 hora
Uma substância brasileira estudada por seu potencial no tratamento de lesões na medula espinhal entra em uma etapa decisiva. A partir de 24 de setembro, começam os primeiros testes clínicos de fase 1 com a polilaminina, medicamento experimental desenvolvido a partir de pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o laboratório Cristália.
Nesta primeira etapa, cinco pacientes participarão do estudo. O objetivo principal não será determinar se a polilaminina consegue recuperar movimentos, mas verificar a segurança da aplicação em seres humanos e identificar eventuais riscos associados ao procedimento.
A pesquisa será realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Poderão participar pessoas entre 18 e 72 anos que tenham sofrido lesão completa e aguda da medula espinhal na região torácica, entre as vértebras T2 e T10, há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.
Aplicação será diretamente na medula
A polilaminina será administrada uma única vez, diretamente na região lesionada da medula. Segundo a Anvisa, a formulação utiliza laminina extraída de placenta humana, posteriormente preparada para obtenção da laminina polimerizada, ou polilaminina. O mecanismo de ação da substância no tratamento de traumas medulares ainda não está totalmente esclarecido.
Depois da aplicação, os voluntários serão acompanhados durante seis meses, com protocolo clínico e monitoramento independente de segurança. A etapa de reabilitação contará ainda com apoio da AACD.
Pesquisa levou mais de duas décadas
O desenvolvimento da polilaminina está ligado às pesquisas conduzidas pela professora Tatiana Sampaio, da UFRJ, que há mais de duas décadas investiga a laminina e seu possível papel na regeneração do sistema nervoso.
A laminina é uma proteína presente naturalmente no organismo e participa de processos relacionados ao desenvolvimento celular. No sistema nervoso, funciona como suporte para estruturas dos neurônios envolvidas na transmissão dos sinais nervosos. A hipótese investigada é de que sua forma polimerizada possa favorecer conexões afetadas após uma lesão medular.
Resultados anteriores despertaram interesse dos pesquisadores, inclusive em experimentos com animais e em um estudo-piloto realizado com pacientes. Esses dados, entretanto, não permitem concluir que eventuais recuperações motoras tenham sido provocadas pela substância.
Ainda não é um tratamento aprovado
Apesar da expectativa em torno da pesquisa, a polilaminina ainda é experimental e não possui autorização sanitária para utilização como tratamento de rotina.
A Anvisa autorizou em janeiro de 2026 especificamente o ensaio clínico de fase 1. Caso essa etapa apresente resultados adequados de segurança, novas fases serão necessárias para investigar a eficácia e reunir evidências suficientes antes de uma eventual aprovação do medicamento.
Também não há prazo definido para que a substância possa chegar aos pacientes como tratamento regular. O próprio laboratório informa que a polilaminina ainda está em processo de testes e aprovação.
O início do ensaio representa, portanto, um avanço no desenvolvimento da pesquisa, mas ainda não significa que exista uma terapia comprovada capaz de reverter lesões medulares.