Torcedores do Vila Nova e Atlético-GO criticam manifesto em defesa das bets
Léo Carvalho
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 15:20 | Atualizado há 50 minutos
Posicionamento dos clubes sobre mercado de apostas provocou reações contrárias entre torcedores nas redes sociais | Foto: Reprodução/Rede social
Vila Nova e Atlético-GO aderiram à mobilização de clubes brasileiros que defendem a manutenção do mercado regulamentado de apostas esportivas. O posicionamento ganhou repercussão nas redes sociais e provocou críticas de torcedores dos dois clubes, que questionaram a dependência financeira do futebol em relação às chamadas bets.

Em manifesto intitulado “O Fim do Futebol Brasileiro”, compartilhado pelas equipes goianienses, clubes defendem que uma mudança abrupta nas regras poderia reduzir receitas de patrocínio e afetar estruturas, categorias de base, futebol feminino e outros setores das agremiações.
O documento afirma que as empresas de apostas autorizadas se tornaram uma das principais fontes de receita do futebol e que os recursos também chegam a clubes de menor expressão e divisões de acesso. As entidades defendem a manutenção do mercado regulamentado e argumentam que o fim desse modelo poderia favorecer plataformas clandestinas.
A discussão ocorre enquanto o governo federal avalia mudanças nas regras das apostas on-line. O debate ganhou força após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e diante da possibilidade de uma medida provisória que atinja os jogos de cassino on-line e, indiretamente, o faturamento das empresas que investem no futebol.
O tamanho do vínculo financeiro ajuda a explicar a reação dos clubes. Levantamento publicado nesta sexta-feira (18) aponta que pelo menos 28 dos 40 clubes das Séries A e B possuem algum tipo de relação comercial com empresas de apostas. Na Série A, são 15 equipes, considerando também propriedades comerciais além do espaço máster da camisa.

Torcedor goiano
Apesar dos argumentos apresentados pelos clubes, torcedores do Vila Nova e do Atlético-GO foram às redes sociais para contestar o posicionamento. Entre os comentários, há críticas à presença das bets no futebol e questionamentos sobre a necessidade de os clubes dependerem desse dinheiro.
“Se pra existir o futebol precisa das apostas, provavelmente ele já acabou”, escreveu um torcedor.
Outro comentário questionou diretamente a origem dos recursos. “Se meu time do coração depender de dinheiro de fruto de famílias destruídas, então eu prefiro que o time acabe”, afirmou.
Também houve quem defendesse a retirada das empresas de apostas do futebol. “Que acabem com as malditas bets, o futebol já existia antes delas e continuará a existir”, publicou outro usuário.

A crítica também apareceu entre torcedores que se identificaram como atleticanos. “Sou Atleticano e também não concordo com este posicionamento. Hoje está difícil de usar camisa de time porque quase todas precisam divulgar as bets”, afirmou um deles.
Outro torcedor resumiu a discordância dizendo que nunca apostou e que considera as apostas prejudiciais. “E só não pagar salário astronômico a jogadores e treinadores”, escreveu.
No X, o Vila Nova reforçou o argumento apresentado no manifesto e afirmou que o futebol reconhece suas responsabilidades e pretende participar da discussão. O clube também publicou que “o torcedor não pode pagar essa conta” e defendeu que, sem um mercado regulado, as apostas não deixariam de existir.
A discussão, portanto, coloca em lados distintos dois interesses que hoje estão diretamente ligados ao futebol. De um lado, clubes apontam a importância dos recursos das bets para a manutenção de suas estruturas e competições. De outro, torcedores questionam os efeitos sociais das apostas e rejeitam que o futebol tenha sua sustentabilidade associada ao setor.

O contraponto do DM
O Diário da Manhã (DM) entende que o futebol brasileiro não pode ter sua sustentabilidade financeira condicionada à expansão das apostas. Os números mostram a dimensão econômica desse mercado. Em 2025, as bets autorizadas registraram R$ 220,6 bilhões em depósitos e tiveram R$ 36,9 bilhões em receita, segundo dados do Ministério da Fazenda.
No primeiro quadrimestre de 2026, a receita estimada das empresas já havia chegado a R$ 12,2 bilhões, de acordo com levantamento baseado na arrecadação tributária do setor. Os números ajudam a dimensionar a força econômica de um mercado que também se tornou importante fonte de patrocínio para clubes e competições esportivas.
É justamente diante dessa dimensão financeira que o DM considera necessário discutir não apenas quanto as bets investem no futebol, mas também quanto o futebol está disposto a depender desse dinheiro.
O argumento dos clubes é que a retirada ou redução dos patrocínios provocaria perdas, afetaria contratos e poderia comprometer estruturas importantes das equipes. Esse impacto financeiro precisa ser considerado. Mas a resposta não pode ser simplesmente aceitar uma dependência crescente desse mercado.
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Clubes como Vila Nova e Atlético-GO podem participar desse debate cobrando alternativas de financiamento, diversificando suas receitas e reduzindo progressivamente a exposição de suas marcas às empresas de apostas. Bilheteria, sócio-torcedor, licenciamento de produtos, direitos comerciais, formação de atletas, exploração de patrimônio, novos patrocinadores e outras fontes de receita podem fazer parte dessa transição.
Para o DM, proteger o futebol também significa discutir os efeitos que a expansão das apostas produz sobre os próprios torcedores. O futebol existia antes das bets e não deveria ser apresentado como economicamente inviável sem elas.
A regulamentação permite fiscalização e controle do setor. O próprio Ministério da Fazenda estabelece regras para as empresas autorizadas a operar no país. Mas regulamentar uma atividade não elimina a necessidade de discutir seus impactos sociais e o espaço que ela deve ocupar dentro do esporte.
A questão, portanto, não precisa ser apresentada como uma escolha entre “acabar com as bets” ou “acabar com o futebol”. Há um debate mais amplo sobre até que ponto clubes, federações e competições devem depender financeiramente de um mercado que movimenta dezenas de bilhões de reais e no qual milhões de brasileiros colocam dinheiro.
O DM entende que o futebol precisa encontrar caminhos para preservar suas receitas sem transformar a aposta em condição para sua sobrevivência.