Papa Leão XIV alerta para riscos da IA e pede que mundo não aceite a guerra como inevitável
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 11:52 | Atualizado há 50 minutos
O Papa Leão alerta que a IA está criando um "paraíso de máquinas" | Foto: REUTERS
O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira (25) sua visita de quatro dias à França com um discurso no Palácio do Eliseu, em Paris, no qual colocou no centro do debate temas como inteligência artificial, guerra, armas nucleares e proteção da vida.
Primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, Leão XIV afirmou que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por critérios éticos para que a humanidade não perca o controle sobre as decisões que afetam sua própria existência. Ao falar sobre a inteligência artificial, alertou para o risco de um futuro dominado pelas máquinas.
“Para garantir que não percamos nossa humanidade em meio ao ‘paraíso de máquinas’ que invade e molda nossa vida cotidiana, é urgente que treinemos nossas mentes para o discernimento ético”, afirmou o papa.
A preocupação com a IA já aparece de forma recorrente nos posicionamentos do pontífice. Em documento publicado em maio, Leão XIV defendeu que a tecnologia seja submetida à responsabilidade humana e criticou seu uso como instrumento de dominação, exclusão ou violência.
Tecnologia não deve substituir decisões humanas
Para Leão XIV, o debate sobre inteligência artificial não deve se limitar à capacidade das máquinas ou aos avanços econômicos proporcionados pela tecnologia. A discussão também envolve os limites que devem ser estabelecidos para preservar a dignidade humana.
Em discurso recente à Pontifícia Academia das Ciências, o papa afirmou que sistemas de IA podem trazer benefícios para áreas como medicina, ciência e energia, mas também apresentam riscos relacionados à vigilância, manipulação, discriminação e segurança internacional quando desenvolvidos sem supervisão adequada.
O pontífice também relaciona a expansão da IA ao setor militar. Segundo a visão apresentada pelo Vaticano, sistemas autônomos e tecnologias utilizadas em conflitos podem reduzir o controle humano sobre decisões de grande impacto.
“Nunca” aceitar a guerra como inevitável
O discurso em Paris também foi marcado por um forte apelo contra a normalização dos conflitos armados. Diante do presidente francês Emmanuel Macron e de autoridades do país, Leão XIV pediu que a sociedade não trate a guerra como algo inevitável.
“Peço a vocês que nunca se resignem à perspectiva da guerra ou a considerem ‘inevitável’”, afirmou.
O papa pediu ainda que a França continue atuando em defesa da paz e do multilateralismo, especialmente no contexto europeu.
A preocupação com os conflitos internacionais ocupa espaço importante no pontificado de Leão XIV. Em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, o Vaticano também destacou os efeitos da evolução tecnológica aplicada à guerra e os riscos associados ao uso de inteligência artificial em operações militares.
Críticas às armas nucleares
Outro ponto abordado pelo pontífice foi a proliferação de armas nucleares. Leão XIV reiterou a posição histórica da Igreja Católica contrária a esses arsenais e defendeu o desarmamento.
Segundo ele, a ideia de que a posse de armas nucleares garante segurança pode contribuir para uma nova corrida armamentista.
A questão ganha peso no momento em que a Europa discute sua capacidade de defesa diante da guerra entre Rússia e Ucrânia e de outras ameaças internacionais. A França, uma das potências nucleares europeias, mantém sua própria estratégia de dissuasão como parte de sua política de segurança.
Defesa da vida também entra no discurso
Além da tecnologia e dos conflitos, Leão XIV voltou a defender a posição da Igreja sobre a proteção da vida. Durante o encontro com autoridades francesas, o papa criticou iniciativas relacionadas à chamada morte assistida para pessoas com doenças incuráveis.
A manifestação ocorreu após o avanço, na França, de medidas relacionadas ao tema. O pontífice também criticou o que considera usos inadequados da ciência quando a tecnologia deixa de estar voltada para a promoção da vida e passa a ser utilizada com objetivos que, segundo sua visão, ameaçam a dignidade humana.
Viagem inclui Unesco, Lourdes e Metz
A passagem pela França é a primeira visita de Leão XIV ao país e ocorre quase duas décadas depois da última viagem de um papa ao território francês.
A agenda oficial prevê compromissos em Paris, Lourdes e Metz, além de encontros com autoridades políticas, religiosos, jovens e representantes da sociedade civil. Nesta sexta-feira, o pontífice também visita a sede da Unesco, participa de celebração na Catedral de Notre-Dame e se reúne com jovens no Stade de France.
A viagem também tem um componente delicado para a Igreja Católica. Leão XIV pretende dialogar sobre a crise provocada pelos casos de abusos cometidos por membros do clero na França e se reunir com pessoas afetadas pelos escândalos. Um relatório publicado no país em 2021 estimou centenas de milhares de vítimas de abusos cometidos por integrantes do clero e instituições católicas ao longo de décadas.
Futuro da Europa
A agenda do papa ainda prevê uma passagem por Lourdes e, posteriormente, por Metz, onde deverá aprofundar sua visão sobre o futuro europeu.
Ao longo da visita, paz, dignidade humana, tecnologia e cooperação internacional aparecem como temas interligados na mensagem do pontífice. A preocupação central apresentada por Leão XIV é que avanços científicos e militares não sejam tratados apenas pelo potencial que oferecem, mas também pelas consequências éticas e humanas de seu uso.
A visita à França, portanto, combina compromissos religiosos e diplomáticos com uma agenda voltada a questões que ultrapassam os limites da Igreja, como inteligência artificial, desarmamento, conflitos internacionais e os rumos da Europa.
