Cotidiano

Da geração de empregos à violência contra a mulher: estudo mede o que muda nos municípios com a chegada da mineração estratégica

Redação Online

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 12:32 | Atualizado há 57 minutos

Estudo apresentado durante o Goiás Mineral 2026 analisa efeitos da mineração estratégica em municípios de Goiás | Foto: Naira Batista/ Fieg
Estudo apresentado durante o Goiás Mineral 2026 analisa efeitos da mineração estratégica em municípios de Goiás | Foto: Naira Batista/ Fieg

O que acontece com um município depois que um grande projeto de mineração começa a operar? O PIB cresce, mas essa é apenas uma parte da resposta. Um estudo apresentado no Goiás Mineral 2026, evento realizado pelo Sindicato das Indústrias de Mineração GO e DF (Minde) na última quarta-feira (23), analisou 82 indicadores para investigar se a riqueza gerada pela mineração chega à vida das pessoas — e encontrou resultados que passam pelo emprego, renda e proteção social até saúde e violência contra a mulher.

A pesquisa estima um crescimento adicional médio de 32,86% no PIB municipal associado à mineração estratégica, aumento de 29,95% na arrecadação de impostos e acréscimo de cerca de 2 mil vínculos formais ativos nos municípios analisados.

Os resultados mostram ainda que a movimentação econômica não fica restrita à indústria extrativa: há geração adicional de empregos também na construção, no comércio e nos serviços.

Mas foi justamente para olhar além do PIB que o estudo ampliou sua análise. Os 82 indicadores avaliados estão distribuídos em dez dimensões do desenvolvimento municipal: atividade econômica, emprego, remuneração e distribuição de renda, proteção social, saúde, educação, finanças públicas, infraestrutura, segurança e qualidade do ar. A pesquisa combina comparação descritiva e inferência causal para estimar os efeitos associados à chegada da mineração estratégica.

Responsável pela apresentação, o diretor-executivo do Instituto Mauro Borges (IMB), Erik Figueiredo, explicou que o objetivo foi trabalhar com um conceito mais amplo de desenvolvimento.

“Normalmente, nós enxergamos o PIB como vetor de desenvolvimento, a renda como vetor, a geração de emprego como vetor. Mas aqui eu quero trazer um conceito mais amplo de desenvolvimento, como desenvolvimento humano, socioeconômico.”

A própria questão central da pesquisa é compreender em que medida a mineração estratégica transforma a economia e as condições de vida nos municípios onde se insere. Para isso, a análise observa se a movimentação econômica chega a fornecedores, comércio e serviços; se emprego e renda alteram a realidade das famílias; se infraestrutura e serviços públicos acompanham a nova escala dos municípios; e se os ganhos conseguem se converter em melhores condições de bem-estar.

Resultados chegam à dimensão social
Um dos resultados está relacionado à proteção social. O estudo estima uma redução de 9,08% no número de famílias no Bolsa Família, paralelamente a um crescimento de 5,95% da população municipal associado à mineração estratégica.

Na saúde, a pesquisa encontrou redução de 16,95% na incidência de baixo peso ao nascer.

Os indicadores relacionados à violência contra a mulher receberam atenção especial na apresentação. A pesquisa estima redução de 53,97 notificações contra mulheres por 100 mil habitantes.

Erik Figueiredo destacou esse conjunto de resultados ao explicar por que a análise da atividade mineral precisa ir além dos indicadores tradicionalmente utilizados para medir crescimento econômico.

“Temos resultados sobre saúde, educação e violência. E aqui eu vou estar com o principal resultado: a redução da violência dentro dos lares, em especial a violência contra a mulher.”

Emprego vai além da mina
A pesquisa também mostra como a atividade mineral movimenta outros segmentos da economia. Dos cerca de 2 mil vínculos formais adicionais estimados, 406,59 estão na indústria extrativa. Outros 389,54 estão na construção, 340 no comércio e 756,70 nos serviços, além dos vínculos identificados na agropecuária e em outros segmentos industriais.

A apresentação mostra ainda que, embora 98,2% da produção da mineração de metais não ferrosos siga para fora de Goiás, a operação mineral movimenta internamente serviços financeiros, logística, manutenção de máquinas e equipamentos, energia, serviços profissionais e imobiliários e construção.

Durante a apresentação, Erik exemplificou como esse movimento chega ao cotidiano dos municípios.

“Essa mão de obra vai no restaurante da esquina todos os dias para almoçar, faz a compra no supermercado. Isso tudo vai gerando dinâmica econômica.”

Na renda, o estudo estima aumento de R$ 123,97 na remuneração média real. Também aponta redução de 3,53% na razão entre as remunerações dos percentis 75 e 25, indicando diminuição da distância salarial entre essas duas faixas de trabalhadores.

Oportunidade não elimina desafios
A pesquisa também mostra que crescimento econômico não significa melhoria automática em todas as dimensões do desenvolvimento.

A própria apresentação parte do princípio de que crescimento não é sinônimo de desenvolvimento e que renda e PIB, isoladamente, são insuficientes para avaliar as condições de vida de uma população.

Entre os pontos de atenção identificados estão a diversificação da estrutura produtiva e a diferença salarial entre mulheres e homens. Em áreas como educação, disponibilidade de profissionais de saúde e saneamento, os resultados não apontaram melhorias consistentes associadas à mineração.

Na segurança, a pesquisa também encontrou aumento em indicadores de homicídios masculinos e de jovens.

Os resultados reforçam que a expansão econômica cria oportunidades e recursos, mas o desenvolvimento de longo prazo depende também da capacidade dos territórios de responder às novas demandas geradas pelo crescimento.

A estrutura apresentada por Erik Figueiredo mostra esse percurso: o projeto mineral gera investimentos, obras e operação; movimenta fornecedores, emprego e salários; altera renda, população e decisões das famílias; e chega a uma etapa em que infraestrutura, serviços e capacidade pública passam a ser determinantes para ampliar os ganhos e construir um legado duradouro.

Goiás diante de uma nova oportunidade mineral
Para o presidente do Conselho Consultivo do Minde, Luiz Antônio Vessani, o momento vivido pela mineração abre uma oportunidade relevante para Goiás diante das transformações mundiais e da crescente importância dos recursos minerais.

“Esse momento, para Goiás, significa uma oportunidade incrível.”

Vessani destacou a posição do Estado na produção de terras raras e níquel e defendeu articulação entre setor mineral, instituições e poder público para criar condições para o avanço dos projetos.

“Goiás é hoje o primeiro produtor de terras raras, fruto de uma ousadia e de uma vontade muito grande de investir em risco. Temos a importância de Goiás na produção de níquel, e essa importância poderá ser ampliada desde que a gente consiga fazer um bom trabalho junto com a mineração e as instituições.”

Segundo Vessani, esse foi um dos objetivos do Goiás Mineral: reunir conhecimento técnico e experiência prática para subsidiar decisões capazes de aproveitar as oportunidades abertas pela atividade.

“O objetivo é trazer conhecimento, trazer as pessoas que têm tanto competência técnica quanto experiência na prática para nos ajudar a pensar. Pensar políticas públicas que sejam realistas e que realmente venham ajudar Goiás a cumprir seu papel como fornecedor de insumos minerais para o mundo.”

Estado sinaliza maior atenção ao setor mineral
A necessidade de aproveitar esse momento também esteve presente na fala do governador Daniel Vilela, que afirmou durante o encontro que o Estado pretende ampliar sua atuação voltada à mineração.

“Nós temos o desejo e, mais do que o desejo, a decisão de alavancarmos esse setor, no sentido de ampliar a atuação do nosso governo no setor mineral do nosso Estado.”

Vilela reconheceu que Goiás poderia ter avançado mais nessa agenda nos últimos anos e afirmou que o Estado reúne atualmente condições estruturais para dar novos passos.

“Estamos em um momento em que o Estado exige isso de nós e temos também as condições estruturais para que a gente possa promover avanços.”

O governador também defendeu maior diálogo entre o poder público e o setor produtivo e afirmou que a atuação governamental deve considerar a relevância socioeconômica da atividade mineral para Goiás.

“Nós vamos, sem dúvida nenhuma, adotar uma política onde o nosso governo terá que ter o entendimento da importância socioeconômica do setor mineral para o nosso Estado.”

Dados e conhecimento para construir o futuro
Promovido pelo Minde, o Goiás Mineral 2026 reuniu empresários, pesquisadores, especialistas e representantes do poder público para discutir a relação entre mineração e desenvolvimento.

Ao longo de sete painéis, foram abordados temas como desenvolvimento regional em municípios mineradores, mineração e agricultura, diversificação e longevidade das operações, minerais críticos, gestão da CFEM e padrões globais de desempenho.

Na abertura, o presidente da Fieg, André Rocha, defendeu a articulação entre empresas, governo e instituições para superar entraves e ampliar as oportunidades para o setor mineral.

Mais do que discutir o crescimento da atividade, o encontro colocou em debate como transformar as oportunidades geradas pela mineração em desenvolvimento capaz de permanecer nos territórios ao longo do tempo.


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