Internacional

Itália registra 56 feminicídios em 2026, sendo 16 em agosto e setembro

Léo Carvalho

Publicado em 28 de setembro de 2026 às 09:03 | Atualizado há 2 horas

Itália vive pico repentino de feminicídios no mês em meio a debate sobre nova legislação | Foto: Divulgação
Itália vive pico repentino de feminicídios no mês em meio a debate sobre nova legislação | Foto: Divulgação

Dois casos ocorridos na Itália em menos de 20 dias chamaram atenção para o aumento dos feminicídios durante o verão europeu. Em 3 de setembro, a veterinária Lorena Isceri, de 45 anos, foi agredida, amarrada e colocada no porta-malas de um carro pelo ex-companheiro. Depois de dirigir por quase uma hora, o homem parou o veículo, retirou Lorena e a jogou viva de um viaduto de aproximadamente 30 metros, nas proximidades de Florença. Ela morreu no local. O homem se matou em seguida.

Em 16 de agosto, Tania Terrin, de 39 anos, também foi morta pelo ex-companheiro dentro da própria casa, na província de Veneza. Ela foi estrangulada depois de já ter denunciado o homem à polícia por violência. O suspeito também tirou a própria vida.

Os dois episódios fazem parte de uma sequência de casos registrados durante agosto e setembro. Segundo o observatório do grupo Non Una di Meno, foram contabilizados 16 feminicídios nos dois meses. No período anterior, entre julho e agosto, haviam sido registrados seis casos. Desde o início do ano, o levantamento aponta 56 vítimas. Em 2025, foram 84 mortes ao longo de todo o ano.

Para Federica Rosin, responsável pelo observatório que acompanha os casos no país, o período mais recente representa um aumento expressivo das ocorrências, embora o número acumulado no ano esteja próximo do registrado em períodos anteriores.

Segundo Rosin, o verão costuma provocar mudanças nos hábitos sociais e pode coincidir com maior ocorrência de violência de gênero, mas isso não explica, isoladamente, o aumento recente. Para ela, os casos estão relacionados às relações de poder presentes nos relacionamentos.

A especialista aponta a posse como um elemento presente nos casos de Lorena e Tania. Segundo essa avaliação, a decisão das mulheres de romper os relacionamentos e seguir a própria vida pode ser encarada pelos autores da violência como uma perda de controle sobre elas.

Cristina Carelli, presidente da Donne in Rete Contro La Violenza, organização que reúne 120 centros de atendimento e acompanha cerca de 25 mil mulheres por ano, também relaciona os casos à dificuldade de alguns homens em aceitar a decisão das mulheres de deixar os relacionamentos.

Para Carelli, o aumento recente não representa uma nova emergência, mas evidencia um problema estrutural da sociedade italiana.

Os casos ocorreram cerca de nove meses depois de o feminicídio passar a ser tipificado como crime no Código Penal italiano. A legislação foi aprovada por unanimidade pelo Parlamento e prevê prisão perpétua para os autores condenados.

A lei estabelece como feminicídio a morte de uma mulher quando praticada, entre outras circunstâncias, por ódio, discriminação, abuso, controle, posse ou domínio em razão de ela ser mulher, além de situações relacionadas à recusa de iniciar ou manter um relacionamento afetivo ou à limitação da liberdade.

Especialistas, porém, apontam dificuldades na aplicação da legislação. Termos como controle, posse e domínio ainda podem receber diferentes interpretações no sistema jurídico italiano. A falta de preparo de profissionais do Judiciário para identificar esses elementos também é apontada como um obstáculo.

Para Carelli, essa dificuldade pode contribuir tanto para a identificação incorreta dos casos quanto para situações de vitimização secundária, nas quais o comportamento da própria vítima passa a ser questionado durante a investigação ou o processo.

A legislação prevê formação específica para integrantes da magistratura, mas, segundo a especialista, não há evidências de que os cursos previstos estejam sendo realizados de forma suficiente.

A nova legislação também trouxe diferenças na contabilização dos casos. Segundo dados do governo italiano, foram registrados oito feminicídios no primeiro semestre de 2026, na primeira contagem oficial realizada após a inclusão do crime no Código Penal.

O observatório da Non Una di Meno contabilizou 34 casos no mesmo período.

A diferença está relacionada aos critérios utilizados para identificar e classificar as mortes. Para as especialistas ouvidas no levantamento, a falta de uma interpretação consolidada sobre os elementos que caracterizam o feminicídio pode influenciar diretamente as estatísticas oficiais.

Para Federica Rosin, a criação do crime de feminicídio, isoladamente, não é suficiente para reduzir a violência contra as mulheres. A especialista defende mudanças culturais e ações de educação desde a infância para enfrentar relações de gênero baseadas em desigualdade e dominação.

A educação sexual e afetiva também é apontada pelas especialistas como uma das medidas de prevenção.

Em junho, porém, o Parlamento italiano aprovou uma lei de iniciativa do governo que exige autorização dos pais para que adolescentes participem de determinadas aulas relacionadas à educação sexual e afetiva. O ministro da Educação, Giuseppe Valditara, integrante do partido Liga, afirmou que a medida protege estudantes daquilo que classificou como “confusão da propaganda de gênero”.

Para Cristina Carelli, a posição do governo não corresponde à demanda observada pelos centros de atendimento à violência contra a mulher. Segundo ela, famílias e profissionais da educação demonstram preocupação com o tema e defendem uma abordagem capaz de enfrentar preconceitos e estereótipos associados aos modelos tradicionais de gênero.

Além das mortes de Lorena Isceri e Tania Terrin, outros casos foram registrados nos últimos meses.

Em 18 de agosto, Carmela Bifano, de 72 anos, foi encontrada morta na província de Cosenza com ferimentos na cabeça, provavelmente provocados por uma pedra. O marido foi acusado e está preso.

Em 20 de julho, Daniela Florea, de 35 anos, que trabalhava na limpeza hospitalar, foi encontrada morta em Turim com sinais de agressão e sufocamento. O ex-companheiro foi acusado e está preso. (Com informações de MICHELE OLIVEIR/Folhapress)


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