Nossa Senhora Aparecida é envolvida em falsa associação com Flávio Bolsonaro
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 11:50 | Atualizado há 50 minutos
Nossa Senhora Aparecida foi envolvida em uma falsa associação com Flávio Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2026 | Foto: Reprodução
Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro do debate político brasileiro durante a campanha eleitoral de 2026. Publicações que circulam nas redes sociais passaram a relacionar o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta proposta para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A informação, porém, está relacionada a um projeto apresentado há quase duas décadas por outro político e não tem autoria de Flávio.
O texto citado nas publicações é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta alterava a legislação referente ao feriado de 12 de outubro e pretendia substituir a denominação “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado pela Câmara em agosto de 2008.
Flávio Bolsonaro negou ter relação com a proposta e afirmou que não apresentou nem defende uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do país.
TSE determina remoção de publicação
A repercussão chegou à Justiça Eleitoral. Em decisão liminar, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção de uma publicação no X que associava a família Bolsonaro a um suposto ataque à imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Na decisão, Mendonça considerou que os elementos apresentados pela campanha de Flávio indicavam que o candidato não havia proposto ou apoiado a retirada do título. O ministro também determinou medidas para impedir a continuidade da circulação de conteúdos que apresentassem essa informação como verdadeira.
A discussão ganhou força justamente às vésperas do primeiro turno e colocou um símbolo religioso no meio da disputa eleitoral. O episódio também reacendeu discussões sobre a utilização de temas ligados à fé no debate político.
A história de Nossa Senhora Aparecida remonta a 1717, quando pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição no Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, em São Paulo. A devoção cresceu ao longo dos séculos e passou a ocupar um espaço de destaque na religiosidade brasileira.
O reconhecimento oficial como Padroeira do Brasil veio em 1930. Em 16 de julho daquele ano, o papa Pio XI assinou o decreto que proclamou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira principal do país.
A relação da imagem com acontecimentos públicos e políticos, no entanto, não começou nas eleições de 2026. Ao longo da história, Nossa Senhora Aparecida esteve presente em cerimônias oficiais e manifestações ligadas à vida pública brasileira, enquanto sua devoção se consolidou como parte da cultura religiosa do país.
Leão XIV e a presença da santa no debate público
Um registro mais recente ocorreu em outubro de 2025, quando o papa Leão XIV recebeu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida levada por integrantes da redação brasileira do Vatican News. O encontro aconteceu em 11 de outubro, no Palácio Leão XIII, sede histórica da Rádio Vaticano. Na ocasião, o pontífice abençoou a imagem, e a fotografia foi publicada nas redes sociais do Vaticano no dia seguinte, 12 de outubro, data dedicada à padroeira.
Dois meses antes, em setembro de 2025, Leão XIV também havia enviado uma mensagem ao encontro “Com Deus, Tem Jeito”, realizado em Cachoeira Paulista (SP). No texto, o papa concedeu uma bênção apostólica aos participantes pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, a quem se referiu como “Rainha e Padroeira do Brasil”.
A repercussão ocorre em um período no qual a relação entre religião e política voltou a ocupar espaço no debate eleitoral. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem reiterado que a Igreja Católica não declara apoio a partidos ou candidatos.
Em setembro, o presidente da entidade, cardeal Jaime Spengler, afirmou que a Igreja não faz opção político-partidária. Ao comentar a relação entre religião e política, ele também criticou o uso de igrejas ou da fé para autopromoção de candidatos e ideologias.
A CNBB também tem promovido iniciativas voltadas ao chamado discernimento dos eleitores nas eleições de 2026. Em conteúdos publicados pela entidade, Spengler defendeu a participação dos católicos no processo eleitoral e destacou a importância de conhecer a trajetória, as atitudes e os compromissos assumidos pelos candidatos.