Ex-chefe do BC relata à PF encontros com Vorcaro em sua casa
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 16:08 | Atualizado há 50 minutos
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, confirmou à PF reuniões com servidores do Banco Central em seus endereços residenciais | Foto: Reprodução/Instagram
O ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central, Belline Santana, relatou à Polícia Federal ter se reunido com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao menos três vezes na casa do ex-banqueiro em São Paulo e outras duas em Brasília.
Na oitiva, que ocorreu em 25 de agosto, ele não especificou as datas dos encontros e afirmou apenas que uma das visitas em Brasília teria ocorrido em 2024. Em algumas dessas ocasiões, disse ter ido sozinho e, em outras, acompanhado de Paulo Sérgio Neves de Souza, que foi diretor do BC e passou a ocupar o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária em 2023.
Segundo documento da PF, Belline declarou que as visitas tinham caráter institucional e que as reuniões eram voltadas para “discutir estratégias diante do modelo de negócio de Daniel Vorcaro, que sofreria fortes impactos do ambiente econômico e regulatório então em curso”.
Ele disse ter reportado as reuniões na casa de Vorcaro à diretoria do BC. Internamente, membros da autoridade monetária dizem desconhecer tais compromissos.
Procurado, o BC não quis se manifestar. Na agenda pública do ex-chefe de Supervisão Bancária, não há registro das visitas realizadas por Belline na casa de Vorcaro.
Entre os compromissos listados de forma oficial constam reuniões nos prédios da autarquia, na sede do Banco Master em São Paulo ou por videoconferência. Apenas em uma ocasião, em 15 de agosto de 2023, consta um encontro em São Paulo, sem local específico.
Visitas à residência
Interlocutores com conhecimento das regras de conduta dos servidores disseram à reportagem, sob condição de anonimato, ser incomum a ida de membros do BC à residência de representantes de instituições reguladas para tratar de assuntos institucionais. Um deles afirmou também que deveria estar descrito na agenda pública dos funcionários que esses compromissos foram realizados fora das instalações da autarquia.
Belline confirmou à autoridade policial que esteve no endereço residencial de Vorcaro em São Paulo, sob a justificativa de ter necessidade de aprofundamento de contato para discutir o trabalho voltado para questões de supervisão. No depoimento, disse acreditar ter sido cerca de três vezes, mas não saber o número total com exatidão.
À PF Belline negou que frequentasse a residência do ex-banqueiro e alegou que, em Brasília, além da casa, ficava instalado também o escritório onde funcionava a representação comercial do Master, com salas de reuniões. Naquele ambiente, segundo ele, trataram de temas regulatórios e estratégicos.
Servidor de carreira do BC desde 1998, Belline atuou como chefe de Supervisão Bancária entre 2019 e janeiro deste ano. Liderou o departamento, em cargo de confiança, nas gestões de Roberto Campos Neto, que comandou o órgão de 2019 a 2024, e de Gabriel Galípolo, atual presidente.
Paulo Sérgio também relata reuniões

Paulo Sérgio, por meio de sua defesa, também disse à Folha que o escritório do Master em Brasília funcionava na casa de Vorcaro e que no ambiente havia recepção, secretária, sala de reuniões e um banner do banco.
“Todas as reuniões foram realizadas para tratar de temas solicitados pela diretoria no processo de solução do banco”, afirmou.
Segundo ele, foram três ou quatro reuniões no local as datas não foram informadas. “Em uma delas havia banners, pois no dia anterior teria ocorrido um evento do MPF (Ministério Público Federal) com os procuradores de Brasília, com o Master tendo cedido o espaço”, acrescentou.
Em depoimento à PF, em 28 de agosto, Vorcaro confirmou ter se encontrado “poucas vezes” com Belline e Paulo Sérgio em seus endereços residenciais em Brasília e em São Paulo. Ele disse não se recordar se havia outras pessoas além dos dois servidores.
“Em algumas oportunidades, sim, inclusive a minha casa em Brasília servia como escritório. Então, tive algumas reuniões que foram em casa, mas também reuniões institucionais”, disse. “Pautas relativas sempre ao Banco Master, aos pontos que a supervisão estava apontando que precisavam ser modificados e as questões que deveriam ser realizadas pelo banco ali para poder resolver o problema que ele tinha de liquidez naquele momento.”
O ex-banqueiro disse ter recebido muitas pessoas para compromissos profissionais também em sua casa em São Paulo, em 2024, durante uma mudança de escritório do Master.
Encontro com Roberto Campos Neto
Em dezembro de 2023, Vorcaro foi convidado pelo ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto a ir a sua casa, no interior de São Paulo. O encontro não ocorreu porque Campos Neto desmarcou, afirmando que a casa estava sendo dedetizada, sugerindo reunião no endereço oficial do BC em São Paulo.
Em Brasília, Vorcaro usava uma das mansões mais valorizadas da capital, comprada por R$ 36,1 milhões, como base de articulações políticas e empresariais em meio às tratativas para a venda do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília).
Como mostrou a Folha de S. Paulo, a casa foi adquirida em 3 de junho de 2024 pela Super Empreendimentos, holding usada por Vorcaro para a realização de diversos negócios. À época, seu cunhado, o advogado Fabiano Zettel, era um dos diretores da firma, que tinha também Leonardo Palhares como um de seus integrantes.
Pagamentos a Belline

Palhares é apontado pela Polícia Federal como um dos operadores do dono do Banco Master e responsável por fazer pagamentos a Belline. O ex-executivo do BC teria recebido, por meio da empresa Varajo Consultoria, o valor de R$ 3,8 milhões, para um projeto social voltado a conectar jovens de comunidades periféricas ao mercado financeiro.
Investigação interna do Banco Central concluiu, conforme relatório obtido pela Folha de S. Paulo na época, que o ex-chefe de Supervisão Bancária simulou esses contratos para ocultar recebimento de propina do Master ou de pessoas ligadas ao grupo.
Belline negou qualquer tipo de favorecimento ao Master e disse que os pagamentos não correspondiam à contraprestação por entrega de produto específico, tratando-se de projeto de longo prazo. Ele afirmou não ter recebido a integralidade dos recursos previstos no segundo contrato porque o processo não envolvia regularidade mensal.
Para ele, houve no relatório do BC “certa desqualificação geral tanto do projeto quanto de sua pessoa”, desprezando a relevância de sua vivência pessoal.
Anteriormente, a defesa de Palhares disse que ele e a Varajo têm cooperado com a Justiça para a apuração da realidade dos fatos.
Relação com Palhares
Em seu depoimento à PF, o ex-gestor do BC disse ter tomado conhecimento da relação de sociedade entre Palhares e Vorcaro somente a partir da sindicância patrimonial do Banco Central. Ainda de acordo com Belline, Palhares negou vínculo com entidade financeira ao fazer o aporte no projeto social. Ele se apresentava como ligado à Câmara-e.net, onde foi presidente.
Segundo ele, os termos do contrato -pagamentos e serviços prestados foram negociados diretamente com Palhares.
Belline afirmou que sabia que Vorcaro havia indicado seu nome a Palhares, mas que não seria a única indicação feita ao empresário. O ex-chefe de Supervisão disse ter consultado informalmente membros da Comissão de Ética do BC, mas não ter mencionado o valor que receberia pelo trabalho nem o nome de Vorcaro. (Nathalia Garcia/FOLHAPRESS)