Biografia de Jair Bolsonaro revela posições de Flávio
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 17:21 | Atualizado há 58 minutos
Flávio Bolsonaro publicou em 2017 uma biografia sobre o pai, Jair Bolsonaro | Foto: Evaristo Sa/AFP
Em 2017, anos antes de disputar a Presidência da República recorrendo a um perfil mais moderado que o do seu pai, Flávio Bolsonaro (PL) publicou uma biografia de Jair Bolsonaro (PL) em que nega ter havido um golpe em 1964, exalta a ditadura militar, elogia o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e desacredita as urnas eletrônicas.
No livro de quase 200 páginas, o presidenciável do PL exibe opiniões controversas próprias, como apoio ao massacre do Carandiru, e justifica outras do ex-presidente, como crítica aos direitos humanos. Em diversas passagens, Flávio reclama que a mídia distorce declarações do seu pai.
Parte das ideias endossadas por Bolsonaro na obra, como castração química de estupradores, redução da maioridade penal e a chamada Escola sem Partido, adaptada no programa de governo para educação “livre de doutrinação político-partidária”, são propostas de campanha de Flávio.
Ao narrar a vida de seu pai do nascimento até o ano de 2016, Flávio também trata de temas do imaginário bolsonarista, a exemplo do “kit gay” e da nova ordem mundial. Ele ainda tenta afastar do ex-presidente as pechas de racista e homofóbico.
Defesa da ditadura militar
O livro mostra como Bolsonaro defendeu, em sete mandatos como deputado federal, as causas dos militares, elogiados pelo autor. Flávio afirma que a Lei da Anistia “serviu apenas os terroristas” e que os agentes do Estado são perseguidos até hoje. Para ele, os militares “deveriam ser tratados como heróis nacionais por terem evitado que o Brasil se tornasse uma ditadura socialista”.
Sobre a Comissão da Verdade, Flávio diz ser uma malfadada iniciativa revanchista e que terroristas que tentaram implantar uma ditadura do proletariado na década de 1960 foram “barrados pela sociedade”. Em outra passagem ele diz que “havia eleições naquele período que alguns gostam de chamar de ditadura”.
Flávio nega a existência do golpe militar e diz que os livros do Ministério da Educação estão contaminados com a versão socialista. “Que golpe foi esse em que o Congresso, com respaldo constitucional, afasta um presidente? Ou seja, só houve golpe nos livros de ‘estória’ do MEC.”
“Bolsonaro seria uma grande pedra em seus sapatos nos embates ideológicos, especialmente na defesa da verdade sobre o papel das Forças Armadas na manutenção da democracia brasileira na década de 1964”, escreve.
Sobre o episódio em que seu pai homenageia Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador, no voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), Flávio diz que o coronel é “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.
O senador também questiona se, de fato, Rubens Paiva desapareceu pelas mãos do Exército o Estado brasileiro já reconheceu que a morte do ex-deputado foi provocada pela ditadura.

Carandiru

Ainda no tema violência, Flávio afirma que a cadeia não tem o papel de recuperar ninguém. Ele afirma que policiais do massacre do Carandiru agiram em legítima defesa e que os antecedentes criminais de alguns dos 111 mortos eram assustadores.
“Quantos milhares de novas vítimas esses marginais poderiam ter feito quando voltassem ao convívio em sociedade?”, questiona.
Urnas eletrônicas

No mês passado, Flávio repetiu seu pai e espalhou informações falsas sobre urnas eletrônicas em um evento com diplomatas. Essa desconfiança em relação ao processo eleitoral também está presente no livro.
O autor narra que as urnas eletrônicas foram bem aceitas em 1998 por evitarem fraudes, já que antes era necessário que cada candidato espalhasse fiscais por várias zonas eleitorais o que prejudicava Bolsonaro, já que ele não tinha uma grande equipe.
“Contudo, as suspeitas sobre elas foram aumentando com o passar do tempo. As urnas não eram passíveis de serem auditadas, ou seja, não era possível provar nem que elas eram fraudadas, nem que não eram. Hoje, muitos acreditam que o desvio de votos, que acontecia um a um, no varejo, passou a acontecer no atacado, de forma eletrônica”, escreve.
“Se não há como provar que houve a fraude, como provar que ela não aconteceu?”, questiona Flávio, defendendo o comprovante de voto impresso como “uma medida essencial de transparência, de respeito ao cidadão e de garantia da democracia”.
Polêmicas
Flávio busca justificar ideias de seu pai como verdadeiras, espontâneas e amparadas no senso comum. “A percepção da maioria esmagadora da população de que a política de direitos humanos só serve para proteger bandidos não foi, obviamente, invenção de Bolsonaro”, escreve.
Em apenas um trecho o autor demonstra discordância, quando Bolsonaro disse, em 1993, que o Congresso deveria ser fechado. “Ele não estava falando sozinho. Segundo pesquisa Ibope à época, apenas 9% da população acreditava nos políticos. Isso, por si só, não significava que o Congresso deveria ser fechado, mas a força de expressão de Bolsonaro foi levada ao pé da letra.”
Os processos e tentativas de cassação que Bolsonaro sofre em razão de suas declarações são tratados como perseguição por Flávio. Ele diz que as falas do pai são “constantemente distorcidas e retiradas do contexto por grande parte da mídia para, propositalmente, atacar sua imagem pública”.
Flávio afirma ainda que “posições consideradas polêmicas” são “na verdade apenas autênticas, coerentes e que não se curvam à chamada ditadura do politicamente correto”. E desabafa: “O tempo passa, o tempo voa, mas a maior parte da imprensa permanece esquerdista. Até quando, só Deus sabe”.
Outro lado
A assessoria de Flávio Bolsonaro não comentou as opiniões do senador sobre os temas elencados e, em nota, mencionou uma entrevista de Lula (PT) feita há 47 anos.
“No livro, Flávio descreve fatos e passagens de seu pai trazendo valores que também são seus: a defesa da democracia, da família, das liberdades de pensamento e econômica”, diz.
A nota afirma que a biografia “ilustra a história de um homem convicto da soberania de sua pátria, do respeito à Constituição e com firmes posicionamentos que fizeram de Bolsonaro o maior líder da direita da história do Brasil”.
“Ao contrário de Lula, que, em entrevista à revista Playboy, em 1979, disse admirar a dedicação e a disposição de luta de ditadores como Adolf Hitler, aiatolá Khomeini e Fidel Castro”, diz a nota. Na entrevista, Lula diz que admira “a disposição, a força, a dedicação” desses personagens e que “é diferente de admirar as ideias” e a ideologia de Hitler. (Carolina Linhares/FOLHAPRESS)