Eleitor mais resistente a pesquisas muda estratégia dos institutos na eleição de 2026
Léo Carvalho
Publicado em 4 de outubro de 2026 às 12:28 | Atualizado há 2 horas
Presidente do Instituto Voga, Gilmar Pires durante entrevista exclusiva ao DMTV, a TV web do Diário da Manhã | Foto: Reprodução/DMTV
A eleição de 2026 apresenta um eleitor mais difícil de ser captado pelas pesquisas. A avaliação é do presidente e fundador do Instituto Voga, Gilmar Pires, em entrevista exclusiva ao DMTV, a TV web do Diário da Manhã. Segundo o pesquisador, a resistência dos eleitores em responder aos levantamentos aumentou e passou a exigir ainda mais atenção dos institutos na formação das amostras e na interpretação dos resultados.
Para Gilmar, a mudança não está apenas no comportamento diante das pesquisas. O eleitor também passou a se relacionar de outra maneira com candidatos, campanhas e informações políticas. As redes sociais ampliaram esse processo e criaram um ambiente no qual grupos de militância digital podem interferir na percepção sobre as candidaturas.
O pesquisador afirma que existe uma preocupação especialmente relacionada ao eleitorado feminino. De acordo com sua experiência de campo, uma parcela expressiva das mulheres abordadas pelos pesquisadores se recusa a responder às entrevistas. Ele avalia que essa resistência pode dificultar a identificação precisa das tendências de voto.
A dificuldade, segundo Gilmar, não se limita às mulheres. O comportamento de recusa também aparece entre os homens e se soma ao que ele classifica como um certo desgaste do eleitor em relação ao excesso de pesquisas disponíveis, principalmente no ambiente digital.
“Hoje as plataformas estão lotadas de institutos fazendo pesquisa”, afirmou Gilmar ao DMTV. Na avaliação dele, o eleitor demonstra menor disposição para participar dos levantamentos do que em eleições anteriores.
O eleitor digital
Outro fenômeno destacado pelo presidente do Instituto Voga é o crescimento do chamado eleitor militante nas redes sociais. São usuários que participam ativamente de discussões políticas e podem responder repetidamente a pesquisas disponíveis na internet com o objetivo de favorecer determinada candidatura.
Para Gilmar, esse comportamento representa um desafio para os institutos, que precisam adotar mecanismos capazes de reduzir possíveis distorções provocadas pela atuação organizada de militantes digitais.
A transformação tecnológica também chegou ao próprio trabalho dos pesquisadores. A inteligência artificial já começa a ser utilizada em tarefas específicas, como elaboração de gráficos e tabelas, mas Gilmar afirma que a tecnologia ainda não pode ser tratada como instrumento capaz de prever o resultado de uma eleição.
Na avaliação dele, a IA pode ganhar importância nos próximos anos, mas ainda há limitações que exigem conferência humana dos resultados produzidos pelas ferramentas.
Pesquisa não é previsão de eleição
Gilmar também chamou atenção para uma diferença fundamental na interpretação das pesquisas eleitorais. Para ele, o levantamento não determina quem vencerá uma eleição. O objetivo é registrar o comportamento de uma parcela representativa do eleitorado em determinado momento.
“É uma amostra”, resumiu durante a entrevista.
O pesquisador defende que o eleitor observe o histórico dos institutos antes de considerar um levantamento como retrato definitivo da disputa. Na avaliação dele, é preciso verificar a metodologia utilizada e o desempenho anterior das empresas responsáveis pelas pesquisas.
Ele também destacou a diferença entre pesquisa científica e enquete. Segundo Gilmar, a elaboração de uma pesquisa eleitoral exige critérios metodológicos relacionados a fatores como sexo, idade, escolaridade e renda, entre outras características da população estudada.
Turismo ganha espaço no debate político em Goiás
Na análise do cenário goiano, Gilmar apontou uma mudança nos temas que tradicionalmente mobilizam o eleitorado. Saúde, educação, emprego, infraestrutura e industrialização continuam presentes, mas o turismo passou a ocupar espaço maior no debate político.
O pesquisador citou o potencial de regiões do Nordeste Goiano, com destinos como Terra Ronca, Mambaí, São Domingos e Vila São Jorge, como exemplos de áreas que ainda possuem espaço para ampliar a atividade turística.
Durante a entrevista, Gilmar também mencionou o candidato Toquinho Moreira e avaliou que a defesa do turismo como principal bandeira pode representar um diferencial político em uma região na qual o tema ainda é pouco explorado eleitoralmente.
Para ele, o turismo pode ser tratado não apenas como atividade ligada ao lazer, mas como instrumento de geração de emprego, renda e desenvolvimento regional.
Disputa pelo governo de Goiás
Ao comentar a corrida pelo governo de Goiás, Gilmar ponderou sobre as pesquisas que apontam vantagem de Daniel Vilela. Ele afirmou que diferentes levantamentos podem apresentar retratos distintos da disputa e que não seria adequado tratar uma eleição como definida exclusivamente a partir de pesquisas.
Na avaliação do presidente do Instituto Voga, existe possibilidade de a disputa ser decidida ainda no primeiro turno, mas também há cenários nos quais outros candidatos podem avançar e disputar uma eventual segunda etapa.
Gilmar citou a presença de diferentes estratégias de campanha entre os principais concorrentes, incluindo a associação de candidaturas a grupos políticos nacionais, a governos anteriores e a lideranças de direita.
Para o pesquisador, a campanha de 2026 também é marcada por uma tentativa das candidaturas de consolidar suas próprias narrativas e estabelecer vínculos com segmentos específicos do eleitorado.
Polarização permanece como marca nacional
No cenário nacional, Gilmar avaliou que a polarização entre direita e esquerda continua sendo uma característica importante da política brasileira e está inserida em um movimento mais amplo de transformação política observado em outros países.
Ele também relacionou o ambiente atual ao desgaste provocado por crises políticas e institucionais e à percepção de parte do eleitorado sobre o funcionamento das instituições.
Segundo o pesquisador, esse ambiente pode contribuir para o cansaço do eleitor e para uma mudança na maneira como parte da população encara partidos, candidatos e instituições.
Ao mesmo tempo, ele avalia que diminuiu a influência do chamado “voto útil” baseado exclusivamente na posição de um candidato nas pesquisas. O eleitor, segundo sua percepção, estaria mais disposto a manter sua escolha mesmo quando o candidato preferido não aparece nas primeiras posições.
O que pode decidir o voto
Para Gilmar Pires, a eleição de 2026 é marcada por um eleitor menos previsível, mais exposto às redes sociais e mais resistente às pesquisas. Nesse cenário, a capacidade de captar corretamente diferentes segmentos da população passa a ser um dos principais desafios dos institutos.
A entrevista ao DMTV mostra ainda uma mudança na relação entre eleitor e campanha. Se em eleições anteriores a posição dos candidatos nas pesquisas podia influenciar de maneira mais direta a escolha de parte do eleitorado, hoje esse efeito parece menos determinante.
O resultado, na avaliação do pesquisador, será definido pela combinação entre o comportamento das candidaturas, a capacidade de mobilização dos grupos políticos e a decisão de um eleitor que chega às urnas mais informado por diferentes fontes, mas também mais desconfiado e menos disposto a revelar antecipadamente sua escolha.