Política

Inquérito que investiga Flávio Bolsonaro por lavagem de dinheiro também inclui Cláudio Castro e Ramagem

Léo Carvalho

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 11:30 | Atualizado há 2 horas

Inquérito sobre suspeita de lavagem de Flávio Bolsonaro também investiga Cláudio Castro e Ramagem | Foto: Rede social/@LuisGustavoNova
Inquérito sobre suspeita de lavagem de Flávio Bolsonaro também investiga Cláudio Castro e Ramagem | Foto: Rede social/@LuisGustavoNova

A investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, também alcança relações do advogado com o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Os investigadores apuram movimentações financeiras, possíveis irregularidades em uma licitação estadual e transferências que teriam beneficiado o antigo diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

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O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) após o nome de Flávio Bolsonaro aparecer nos elementos reunidos pela PF. A relatoria ficou com o ministro Alexandre de Moraes. A apuração teve origem em investigações sobre movimentações suspeitas no setor de apostas e passou a examinar negócios e relações pessoais de Willer Tomaz, que também é investigado em um caso relacionado a suspeitas de fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Um dos eixos da investigação envolve a atuação da empresa Pixs Cobrança, atualmente denominada RioPag, em uma licitação da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), realizada em 2022. A PF suspeita que Willer fosse o proprietário de fato da companhia. O procedimento ocorreu durante a gestão de Cláudio Castro no governo fluminense.

De acordo com os elementos reunidos pelos investigadores, a Pixs ofereceu inicialmente repassar à Loterj 20% de sua remuneração. A única concorrente apresentou proposta de 26%, mas acabou desclassificada por registrar o percentual com duas casas decimais, em vez das três exigidas pelo edital.

Após ficar sem concorrentes, a empresa ligada a Willer negociou diretamente com a autarquia e elevou o percentual para 26,455%, conforme a investigação. A PF procura esclarecer se houve irregularidades no processo e examina registros de mensagens e viagens que indicariam proximidade entre o advogado e Cláudio Castro.

À época, a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes, nomeado durante o governo estadual. Os investigadores também apontam vínculos profissionais e proximidade entre ele e Willer anteriores à nomeação.

Willer é proprietário da Rede Loto, empresa que obteve licença para operar apostas no Rio de Janeiro em maio de 2023, segundo as informações reunidas no material da investigação.

A assessoria de Cláudio Castro confirmou que ele conhece Willer desde 2020 e que os dois mantêm amizade. Segundo a manifestação, o advogado atuou em processos relacionados à defesa do ex-governador sem cobrar honorários, em razão da relação pessoal.

Castro também confirmou que fizeram viagens juntos, mas afirmou que cada um pagou suas próprias despesas e as de seus familiares. A assessoria declarou que o ex-governador desconhecia qualquer vínculo de Willer com a Pixs ou a RioPag na época da contratação pela Loterj, assim como a relação do advogado com Hazenclever Lopes.

A nota acrescentou que Hazenclever foi indicado pelo PL para presidir a autarquia e que Castro não participou da licitação, da contratação da empresa ou de tratativas envolvendo Willer.

Outro ponto sob análise da PF são três pagamentos de R$ 90 mil, que totalizam R$ 270 mil, realizados por meio da empresa Torre Comunicação Estratégica. Segundo o pedido de abertura da investigação, o beneficiário final dos valores seria Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin durante o governo Jair Bolsonaro (PL).

Os repasses não foram feitos diretamente ao ex-deputado. A empresa de comunicação apareceu formalmente como favorecida nas transferências, mas a PF investiga a destinação dos recursos e sua possível relação com Ramagem.

Em nota, a Torre Comunicação Estratégica afirmou que prestou serviços de assessoria de imprensa ao escritório de Willer Tomaz e Eugênio de Aragão. Segundo a empresa, o escritório contratou planejamento estratégico, monitoramento e treinamento de mídia para Ramagem, que à época era pré-candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro.

A companhia declarou que o trabalho foi realizado durante três meses e que os pagamentos correspondem aos serviços prestados, com emissão regular de notas fiscais.

Ramagem teve o mandato de deputado federal cassado em dezembro de 2025, após condenação pelo STF a 16 anos e um mês de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado, conforme as informações fornecidas. Ele está nos Estados Unidos desde setembro de 2025, segundo o material da investigação.

A reportagem procurou a defesa do ex-deputado e Hazenclever Lopes, mas não obteve resposta até a publicação das informações utilizadas como base para este texto.

A relação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é outro foco da investigação. A PF encontrou registros que indicariam que o senador tinha acesso operacional, na condição de usuário master, a uma conta bancária da offshore Alcazar Holding, da qual o advogado é sócio. Segundo a apuração, em maio de 2025 foi solicitada a retirada do acesso do parlamentar.

Os investigadores também examinam viagens internacionais realizadas por Flávio em 2025. Conforme informações divulgadas anteriormente pela imprensa, uma empresa ligada a Willer teria atuado como intermediária na compra de passagens para viagens à Europa. A suspeita é de que a estrutura tenha sido usada para custear deslocamentos particulares dos dois núcleos familiares.

Mensagens e outros registros localizados pela PF também mencionariam festas, reuniões e encontros entre o advogado e o senador. Esses elementos são analisados no contexto da investigação sobre movimentações financeiras e possíveis relações comerciais.

A defesa de Willer afirmou que ele ainda não teve acesso integral ao inquérito e que solicitou formalmente os autos para prestar esclarecimentos. O advogado sustenta que suas empresas e participações estão registradas publicamente e declaradas à Receita Federal, negando a existência de sócios ocultos, contas não declaradas ou patrimônio escondido.

A manifestação também critica a divulgação seletiva de informações sigilosas durante a campanha eleitoral. Sobre a licitação da Loterj, a defesa argumentou que, conforme os elementos tornados públicos, a PF não identificou ordem ou intervenção direta de Willer na desclassificação da concorrente.

A campanha de Flávio Bolsonaro não havia se manifestado sobre os novos questionamentos até a publicação do material de referência. Em declaração anterior, afirmou que a relação entre o senador e Willer é exclusivamente de amizade.

As apurações buscam esclarecer a origem e o destino dos recursos, a natureza das relações entre os envolvidos e a eventual existência de irregularidades. As suspeitas investigadas não equivalem a uma condenação, e as responsabilidades individuais dependem da análise das provas e do andamento dos procedimentos.


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