Flávio Bolsonaro propõe ampliar irrigação em região que enfrenta seca de rios
Léo Carvalho
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 12:10 | Atualizado há 1 hora
Expansão de lavouras irrigadas por pivôs centrais avança no oeste da Bahia, onde estudos identificaram redução da vazão de rios | Foto: Divulgação/Daniel Ramalho
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, prevê ampliar a irrigação agrícola e facilitar as autorizações para captação de água no Brasil. A proposta inclui a criação de polos de irrigação no Matopiba, região que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e enfrenta problemas relacionados à redução da vazão de rios, ao desaparecimento de nascentes e à escassez hídrica.
No documento, Flávio afirma que pretende ampliar significativamente a área irrigada do país, que, segundo ele, ainda utiliza apenas uma parte de seu potencial. O candidato também propõe simplificar a concessão de outorgas, autorizações necessárias para captar água de rios e aquíferos, e desenvolver polos de irrigação no semiárido nordestino.
A expansão prevista ocorre em um contexto de pressão sobre os recursos hídricos do Cerrado. Embora o bioma abrigue nascentes de oito das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras, pesquisas apontam que a intensificação da atividade agrícola, especialmente das lavouras de soja, milho e algodão, tem contribuído para mudanças no fluxo dos rios.
A reportagem procurou a campanha de Flávio Bolsonaro por WhatsApp na terça-feira (20) e na quarta-feira (21) para esclarecer as propostas, mas não recebeu resposta.
Estudos apontam redução da vazão de rios no Matopiba
Um estudo publicado em 2021 na revista científica Water analisou os efeitos da expansão da irrigação na bacia do rio Corrente, no oeste da Bahia, uma das principais áreas agrícolas do Matopiba.
A pesquisa identificou um crescimento expressivo das lavouras irrigadas por pivôs centrais, equipamentos que distribuem água por meio de estruturas giratórias e formam áreas circulares nas plantações. Entre 1986 e 2018, a área irrigada por esse sistema na bacia passou de 240 para 43,6 mil hectares.
No mesmo período, a vazão do rio Pratudão, um dos principais cursos d’água da região, diminuiu 38%.
Os pesquisadores observaram que a captação ocorre principalmente nos planaltos ocupados pelas grandes plantações, enquanto os efeitos da escassez hídrica aparecem também nos vales, onde vivem comunidades tradicionais. Essa distribuição dificulta estabelecer a relação entre a expansão agrícola, as mudanças climáticas e a redução dos recursos hídricos.
O artigo, no entanto, aponta a atividade agrícola como um fator central para explicar a diminuição da vazão dos cursos d’água no oeste baiano, mesmo em áreas de vale com baixo nível de desmatamento.
Para Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e um dos autores da pesquisa, não há espaço para acelerar a concessão de autorizações para captação de água, especialmente em regiões semiáridas ou sujeitas a períodos prolongados de estiagem.
Ele também critica os critérios de concessão e fiscalização das outorgas de irrigação, que considera excessivamente simplificados e insuficientemente monitorados após a autorização.
Outorgas autorizam captação de bilhões de litros por dia
Outro levantamento, publicado em fevereiro de 2023 no periódico IDS Bulletin, examinou as outorgas concedidas pelo governo da Bahia entre 2007 e 2022 para captação de água no oeste do estado.
Nesse intervalo, foram concedidas 835 autorizações nas bacias dos rios Grande, Corrente e Carinhanha, permitindo a retirada de 17 bilhões de litros de água por dia.
Segundo o estudo, esse volume seria suficiente para abastecer diariamente uma população equivalente a sete vezes a de todo o estado da Bahia.
Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), levantados até outubro de 2024, registravam 332,5 mil hectares irrigados por pivôs centrais na região, a maior concentração brasileira desse sistema.
A pressão sobre os recursos hídricos também motivou uma ação do Ministério Público Federal (MPF), apresentada em novembro de 2025, para exigir mudanças estruturais na gestão ambiental e hídrica do extremo sudoeste da Bahia.
O objetivo é proteger o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa com Minas Gerais, diante do desmatamento e da utilização excessiva dos recursos hídricos disponíveis.
De acordo com o MPF, a conversão do Cerrado em áreas de agropecuária de larga escala provocou reduções de até 50% na vazão de rios e veredas do parque. Esses ambientes são importantes para a manutenção do fluxo de água, inclusive durante os períodos de seca.
Entre as medidas solicitadas pelo órgão estão a suspensão de novas outorgas para captação de água nas proximidades do parque e a interrupção de autorizações para desmatamento.
Mudanças no Cerrado também afetam os aquíferos
A redução da disponibilidade de água não está relacionada apenas à retirada direta para irrigação. A substituição da vegetação nativa por grandes áreas de monocultura também interfere na retenção de água no solo e na recarga dos aquíferos subterrâneos.
Um artigo publicado em 2024 na revista Nature Communications analisou 17.972 poços em diferentes regiões brasileiras e identificou que 55,4% apresentavam níveis de água subterrânea abaixo da superfície dos rios mais próximos. O resultado indica que mais da metade dos rios brasileiros analisados pode estar sujeita à perda de água para os aquíferos.
Na bacia do São Francisco, que abrange áreas do Matopiba, 61% dos rios avaliados apresentaram potencial de perda de água para os reservatórios subterrâneos. Os pesquisadores associaram esse cenário, entre outros fatores, ao uso intensivo de águas subterrâneas, principalmente para irrigação.
Os resultados reforçam a preocupação com a expansão da agricultura irrigada em regiões nas quais a disponibilidade hídrica já sofre pressão da atividade econômica e das mudanças ambientais.
Lagoa do Pratudão secou após anos de transformação
Os efeitos da redução dos recursos hídricos também são percebidos por moradores do oeste baiano. Em Jaborandi, o rio Pratudão, com 144 quilômetros de extensão, integra a bacia do rio Corrente e atravessa uma região marcada pela expansão das lavouras irrigadas.
Marcos Beltrão, integrante do Movimento Ambientalista Grande Sertão Veredas e morador da região desde a infância, relata que acompanhou o desaparecimento da lagoa do Pratudão ao longo de poucos anos.
Segundo ele, a lagoa era alimentada por uma nascente perene e chegou a ter mais de 50 hectares de superfície coberta por água.
Imagens de satélite de outubro de 2016 e outubro de 2026 permitem comparar a transformação da paisagem, com a redução da área alagada e a multiplicação de plantações irrigadas por pivôs centrais nas proximidades.
Beltrão também participou de um levantamento realizado em 2023 e 2024 nas sub-bacias dos rios Corrente e Carinhanha, sob coordenação da Comissão Pastoral da Terra. O trabalho identificou 3.050 trechos secos de cursos d’água, incluindo córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios.
Ao todo, o levantamento contabilizou 7.120 quilômetros de trechos de água que secaram.
A mudança representa uma ameaça para comunidades cuja história está ligada à disponibilidade de água no Cerrado. Beltrão lembra que a região foi destino de pessoas que fugiam da seca em outras partes do Nordeste e encontraram ali condições para viver.
Agora, diante do desaparecimento de nascentes e cursos d’água, ele teme que a situação se repita com os moradores que permaneceram na região.
A preocupação contrasta com a proposta de ampliar a irrigação agrícola. Enquanto o plano de Flávio Bolsonaro prevê facilitar a captação de água e expandir os polos irrigados, estudos e relatos de moradores apontam a necessidade de preservar os recursos hídricos que sustentam a produção rural e as comunidades locais.