Economia

Vitória de Lula derruba Bolsa, dispara dólar e aciona circuit breaker na B3

Léo Carvalho

Publicado em 26 de outubro de 2026 às 12:42 | Atualizado há 1 hora

A vitória de Lula provocou forte reação nos mercados, com disparada do dólar, alta dos juros futuros e interrupção na Bolsa | Foto: Reprodução
A vitória de Lula provocou forte reação nos mercados, com disparada do dólar, alta dos juros futuros e interrupção na Bolsa | Foto: Reprodução

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial provocou forte turbulência no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26). A Bolsa de Valores acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas, enquanto o dólar disparou e os juros futuros avançaram. A reação refletiu a frustração de investidores que apostavam na vitória do candidato do PL e esperavam mudanças na condução da política econômica.

Por volta das 10h14, o dólar registrava alta de 11,77%, cotado a R$ 5,584. O movimento contrastava com o comportamento do índice DXY, que mede a força da moeda americana diante de uma cesta de divisas internacionais e avançava apenas 0,05%. A diferença indicava que a pressão sobre o real estava concentrada principalmente em fatores domésticos.

O mercado de juros também apresentou forte deterioração. A taxa dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu para 13,889% ao ano, avanço de 42 pontos-base. Nos contratos para janeiro de 2031, a taxa chegou a 15,250%, com alta de 260 pontos-base.

Na Bolsa, a queda levou à interrupção temporária das operações. O circuit breaker é acionado quando o Ibovespa recua 10% em relação ao fechamento anterior, suspendendo os negócios por 30 minutos. Caso a queda alcance 15% após a retomada, pode ocorrer uma nova interrupção por uma hora. O mecanismo busca conter movimentos extremos e permitir que os investidores reavaliem suas posições.

A pressão já aparecia nas negociações de contratos futuros e nos ativos brasileiros negociados no exterior. Por volta das 9h45, o Ibovespa futuro recuava 19,97%, aos 166.855 pontos, depois de a B3 ampliar os limites de oscilação permitidos para o contrato.

A reação desta segunda-feira reverte parte da valorização registrada depois do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista.

No pregão seguinte à primeira votação, o Ibovespa avançou 7,70%, chegando a 206.911 pontos. O dólar, por sua vez, caiu 4,11%, encerrando a sessão a R$ 5,001.

Desde a confirmação das candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro, em agosto, até o último pregão antes do segundo turno, a Bolsa acumulava alta de 15,3%, enquanto o dólar havia recuado cerca de 2%, segundo os dados divulgados pelo mercado.

A valorização dos ativos após a primeira etapa eleitoral estava relacionada à expectativa de vitória de Flávio e à perspectiva de uma política fiscal mais rigorosa sob seu eventual governo. Com a reeleição de Lula, investidores passaram a reavaliar o risco associado às contas públicas e à condução da economia.

A preocupação se concentra na capacidade do governo de controlar o crescimento das despesas e estabilizar a dívida pública. Quando investidores consideram maior o risco fiscal de um país, podem exigir juros mais elevados para financiar o governo. Esse movimento pressiona as taxas futuras, encarece o crédito e pode reduzir o valor atribuído às empresas negociadas na Bolsa.

A turbulência também atingiu ações de companhias brasileiras negociadas nos Estados Unidos. Na pré-abertura de Nova York, o fundo de índice EWZ, que acompanha uma carteira de ações brasileiras, chegou a registrar queda superior a 26%.

Entre os recibos de ações, conhecidos como ADRs, Itaú e Bradesco apresentavam perdas de 28% e 25%, respectivamente, enquanto a Petrobras recuava 23%. Vale e Embraer registravam baixas menores, de 3,31% e 3,77%.

As ações da XP caíam mais de 45%, enquanto os papéis do Nubank recuavam cerca de 20%. A JBS apresentava perda próxima de 2%.

Os números indicavam que a reação negativa não se restringia ao mercado doméstico. Investidores internacionais também ajustavam suas posições diante da mudança nas expectativas para a economia brasileira após o resultado das urnas.

O BTG Pactual projetou uma venda expressiva de ações brasileiras nas semanas seguintes à eleição e apontou a possibilidade de o Ibovespa atingir rapidamente os 170 mil pontos. Para o real, o banco estimou uma desvalorização de 10% a 15%.

Em relatório, analistas da instituição avaliaram que juros de longo prazo mais elevados, enfraquecimento da moeda e expectativas econômicas desancoradas podem limitar o espaço para cortes mais intensos na taxa básica de juros pelo Banco Central.

A reação dos investidores também havia sido antecipada por uma pesquisa do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado. O levantamento mostrou que 80% esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse a eleição. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% estimavam valorização entre 1% e 5%.

No mercado cambial, 63% dos entrevistados esperavam desvalorização superior a 5% do real. Outros 28% projetavam queda entre 2% e 5%, enquanto 6% apostavam em valorização superior a 5% da moeda brasileira.

A intensidade e a duração da turbulência, porém, dependerão dos próximos sinais do governo sobre a política econômica, especialmente em relação às contas públicas, ao controle das despesas e à equipe responsável pela condução da economia.

O resultado eleitoral alterou as expectativas que vinham orientando as operações financeiras desde o primeiro turno. Agora, investidores aguardam indicações concretas sobre os rumos da política fiscal no novo mandato de Lula.


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