Internacional

Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise do Ueno Bank e pressão por impeachment

Léo Carvalho

Publicado em 5 de novembro de 2026 às 13:48 | Atualizado há 8 minutos

Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5) | Foto: Divulgação
Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5) | Foto: Divulgação

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio à crise provocada pelo colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do país. A decisão foi divulgada em vídeo, depois que a oposição iniciou a articulação de um processo de impeachment e integrantes do próprio Partido Colorado, legenda governista, declararam apoio à destituição.

Peña afirmou que decidiu deixar a Presidência em nome da estabilidade nacional, da paz social e da preservação das instituições democráticas. Em sua manifestação, também pediu desculpas à população caso tenha falhado durante o mandato, mas não assumiu responsabilidade direta pela crise bancária. Segundo ele, uma das prioridades é garantir que os clientes recuperem os recursos mantidos na instituição financeira.

A renúncia ocorreu no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados analisava a abertura de um processo de impeachment. A situação política se agravou depois que as duas principais correntes do Partido Colorado anunciaram apoio à medida. A legenda tem 36 deputados e integra a base de sustentação do governo.

Com a perda de apoio político, Peña ficou pressionado a deixar o cargo. O vice-presidente Pedro Alliana é apontado como sucessor na Presidência.

O Ueno Bank teve suas atividades suspensas após uma intervenção do Banco Central do Paraguai, que identificou problemas nos índices de solvência da instituição. A investigação apontou operações de crédito com empresas ligadas ao grupo controlador do banco, além de registros contábeis considerados irregulares.

A instituição chegou a reunir aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. Com a intervenção, o aplicativo, os cartões e as transferências deixaram de funcionar, impedindo que milhões de correntistas acessassem suas contas.

O Banco Central iniciou um processo de resolução da instituição, com previsão de transferência das contas e dos ativos considerados válidos para outras instituições financeiras antes da liquidação do que restar do banco.

A crise também provocou manifestações em Assunção. Clientes, aposentados, trabalhadores e estudantes foram às ruas cobrar a devolução dos recursos e responsabilização dos envolvidos. Oito executivos do Ueno foram detidos, enquanto o Ministério Público formalizou acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição e a empresas associadas.

A ligação do presidente com o grupo controlador do Ueno Bank também passou a ser questionada. Peña foi acionista do Grupo Vázquez, holding proprietária da instituição financeira, até março de 2025.

O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos de órgãos estatais e do sistema de previdência e saúde do país.

Parlamentares da oposição acusaram o presidente de conflito de interesses, uso indevido de recursos previdenciários e omissão diante de irregularidades envolvendo a instituição. As acusações foram utilizadas como fundamento para o pedido de impeachment.

O caso também atingiu o Banco Central. Carlos Carvallo, que presidia a autoridade monetária e havia sido indicado por Peña, renunciou ao cargo após a crise. Antes de assumir o comando do Banco Central, Carvallo havia dirigido a financeira que antecedeu o Ueno Bank.

Peña assumiu a Presidência em agosto de 2023, após vencer as eleições pelo Partido Colorado, força política que domina a política paraguaia há décadas. A legenda permaneceu no poder durante a ditadura de Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989, e voltou a comandar o país após o fim do regime.

A principal exceção ocorreu entre 2008 e 2012, quando o ex-bispo Fernando Lugo, eleito por uma coalizão de esquerda, chegou à Presidência. Seu mandato foi interrompido por um processo de impeachment aprovado pelo Congresso.

A crise envolvendo o Ueno Bank também colocou em discussão a imagem do Paraguai como destino de investimentos estrangeiros. Nos últimos anos, o país registrou crescimento econômico e conquistou grau de investimento, atraindo recursos de empresas e investidores internacionais, inclusive brasileiros.

O episódio, entretanto, reacendeu questionamentos sobre a relação entre interesses empresariais, autoridades públicas e órgãos reguladores. A crise envolvendo o banco e a renúncia presidencial passaram a representar um dos maiores abalos políticos e financeiros recentes do país.


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