Brasil

Elas usam branco

Redação DM

Publicado em 14 de julho de 2023 às 20:49 | Atualizado há 2 anos

Personagem fashionista de Diabo Veste Prada, já trazia a tendência e 2006. Foto: Divulgação

Para o universo masculino, os fios brancos grisalhos durante algum tempo foram vistos como charme, experiência e até sabedoria. O mesmo não podia ser dito em relação às mulheres, que eram vistas como desleixo. Com auxílio das tinturas, se tinha a impressão que eles sequer existiam para algumas pessoas.


De acordo com a cabeleireira Beth Bernadelli, há clientes que chegam a retocar as raízes brancas a cada 10 dias. Um valor que pode resultar em mais de R$ 300 por mês. Mas, a profissional revela que algumas clientes têm buscado um look mais natural e optado por deixar os fios grisalhos. “Temos diversas clientes que deixaram de pintar e assumiram os grisalhos e ficaram ainda mais estilosas”, conta.


Em seu salão, Beth tem observado um fenômeno chamado revolução grisalha, que tem se mostrado uma escolha valorizada na moda, apesar de suas adeptas ainda se depararem com uma série de preconceitos.


Embora, a personagem Miranda, do filme “O Diabo Veste Prada”, que era poderosa e editora de uma revista de moda e interpretada por, ninguém menos que Meryl Streep já ostentasse em 2006, as madeixas totalmente brancas, foi mais recentemente que a tendência grisalha foi se fortalecer. Mais especificamente, durante a pandemia,.


Com os salões fechados durante o isolamento social, muitas mulheres começaram a deixar suas raízes brancas aparecerem e o resultado agradou. Neste período, muitas celebridades, que sempre foram vistas com a raízes bem retocadas, assumiram o branco, como Fafá de Belém, Preta Gil, Astrid Fontenelle, Renata Vasconcellos e Maria Cândida.

A atriz Glória Pires, aos 58 anos, Glória Pires também deixou aparecer os cabelos brancos e disse ao O Globo: “Parece que o cabelo branco me autorizou, sabe? A dizer não, a fazer o que eu acho que eu preciso e me faz bem. A ser, a falar e a vestir coisas que queria mas me sentia meio fora de lugar. Eles são uma realidade. Estou com 58 anos, cheguei aqui aos trancos e barrancos, caindo e levantando, sofrendo. É daqui para frente. Sabe?”

Revolução além

Ao assumirem o branco. Há pesquisadores que acreditam que pode-se haver uma outra forma de lidar com o passar dos anos. Para  a antropóloga Débora Diniz, professora visitante na Universidade Brown, nos EUA, em entrevista à Revolução de Saia, explicou que pode estar acontecendo uma revolução estética ainda mais profunda. 


Assim, após décadas de padrões irreais da moda, além de não pintarem os cabelos, as mulheres possam optar em não passar por tantos procedimentos estéticos ou aceitar rugas como marcas do seu reconhecimento geracional.


“É a afirmação da possibilidade da existência do próprio corpo sem a sua adequação a um único padrão de beleza feminino. A possibilidade de existir com o branco, a possibilidade de existir com as rugas, com o corpo com outras formas, foram conquistas do feminismo. Então, pode não ser uma atitude individual feminista, mas foi uma conquista do feminismo , analisa.

Logo vale ressaltar que a revolução grisalha veio para libertar. Em artigo na Revista Vogue, Mirian Goldenberg, que é autora do livro “Liberdade, Felicidade e Foda-se!” diz que a moda e assumir os fios brancos, para algumas pessoas, pode se tornar mais um forma de padrão.

“Tenho observado que, nos últimos dois anos, a pergunta que era tão comum de “Por que você não pinta o cabelo?”, passou a ser substituída cada vez mais por: “Por que você pinta o cabelo?”. Muitas mulheres falam em um tom acusatório “Por que você pinta o cabelo?”, enquanto outras insistem e questionam “Por que você deixa seus fios grisalhos aparecerem?” Agora, temos que responder duas perguntas opostas como cobranças por um modelo de beleza feminina” , disse.

Aborda ainda que a moda dos fios brancos mostra que a sociedade atravessa um momento de ambiguidade. “De um lado, somos aplaudidas quando nos libertamos das tinturas. De outro, somos criticadas por mostrar as marcas do envelhecimento. Ainda sofremos a pressão de uma sociedade que nos massacra e nos torna invisíveis quando começamos a envelhecer”, argumentou. 

Mulheres goianas contam como sentem após a revolução grisalha

Legenda: “Não estamos mais aqui para atender à expectativa alheia”, diz a terapeuta tântrica Cacau Mila. 

Com fios brancos desde os 18 anos, a terapeuta tântrica e transpessoal, Cacau Mila, 39, conta que estava cansada de retocar a raíz dos cabelos. “Minha vida é corrida, gosto de coisas práticas, por isso tenho os cabelos curtos”, diz. 

A decisão de se tornar grisalha, ela tomou na pandemia. Na época cortou ainda mais os fios para crescerem. “Pensei: se os homens ficam mais charmosos, grisalhos, porque não podemos? Hoje meus cabelos estão com luzes prateadas que parecem que foram feitas no salão”.

No processo de se tornar grisalha, ela diz que o mais difícil foi tomar a decisão e depois se redescobrir com o novo look. “Foi um pouco complicado me reconhecer no espelho, porque, por dentro, me sentia menina e por fora mulher. Demorou até equalizar essas duas imagens”, recorda.

Após se encontrar, ela conta que tudo se transformou: se sente até mais poderosa, mudou a forma de se vestir, os lugares onde ia e até com quem se relacionava. Conta que agora se sente livre para ser quem é. 

“Quem ditou o padrão de beleza durante muito tempo foi um homem branco e mais velho, o dono da Playboy. Quem é que dita agora? Acho que está na hora da gente ditar. Não estamos mais aqui para atender à expectativa alheia”, argumenta.

Primavera feminista

Já a poeta e professora Yani Rebouças, que é autora dos livros “Pretérita Imperfeita” e “Das Dores”, também viu chegar os fios brancos muito cedo. E decidiu ficar grisalha antes mesmo da pandemia. Ela se recorda que em 2015, ano que representou, segundo ela uma “primavera feminista nas redes sociais”, foi a ultima vez que tentou esconder os fios brancos. 

“O que me influenciou foi o desejo de romper com os padrões preestabelecidos e a indignação com o fato de o grisalho ser mais bem aceito e até valorizado no universo masculino, enquanto que no feminino é lido como descuido e falta de vaidade”, explica. 

O maior impacto da revolução grisalha em sua vida, ela conta que aconteceu no momento de transição. “Eu não podia passar na frente de um salão de beleza que já me convidaram para pintar a raiz. Lembro de uma fala do meu pai que me disse: filha, você é professora, seus alunos não vão gostar desse cabelo não. Você está parecendo muito mais velha. E completava: jovem não gosta de velho não”, diz aos risos. 

Mas, ela conta que, ao contrário do conselho paterno, os alunos que acompanharam a sua transição ficaram orgulhosos e elogiaram o novo visual. “Depois de finalizada a transição, várias mulheres, em lugares diferentes, chegaram a me abordar na rua para saber o que eu passo e sempre se surpreendem quando eu digo: é natural”, celebra ela que fez até o momento para os seus cabelos grisalhos.

A poeta e professora Yani Rebouças, conta que após diversos conselhos e convites para pintar os cabelos, seus fios agora fazem sucesso. Foto: Lu Barcelos

Box: Dicas da cabeleireira Beth Bernadeli para cuidar bem dos fios brancos

  • Os fios brancos ficam mais grossos e ressecados, por isso o principal cuidado é hidratar.

-Proteja do sol e do calor excessivo para evitar o tom amarelado e prefira produtos de cor roxa.

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