A história nunca contada da febre aftosa em goiás
Redação DM
Publicado em 10 de julho de 2023 às 14:47 | Atualizado há 3 anosDelinear o futuro não é para qualquer um. Imagine nos idos dos anos 60-70 a ideia de vacinar todo o rebanho bovino de Goiás contra a febre aftosa. Ainda há um detalhe: o Estado era bem maior porque ocupava a área de 277.621 km2, hoje reservada ao Tocantins. Pois, bem, a Faeg arquitetou os novos tempos. E, numa parceria inédita, estabeleceu acordo com a Universidade Federal de Goiás.
Além dos mestres, alunos da Faculdade de Veterinária se dedicaram ao processo de vacinação do gado contra a zoonose. Graças à parceria, a entidade classista, em 1969, entrava com as vacinas e os futuros médicos veterinários percorriam fazendas próximas a Goiânia para vacinar os animais. O professor José Rios levava os estudantes para aulas práticas na fazenda da Emgopa, em Senador Canedo.
Felix Eduardo Curado presidia a Federação da Agricultura, então localizada em salas num edifício na Avenida Anhanguera. Doane Camargo Santana foi o primeiro médico veterinário da entidade classista. Mauro Araújo e Roberval, das áreas de veterinária e agronomia respectivamente, deram contribuição nesse processo pioneiro. O quadro provocou a criação de uma central de vacinação pela Faeg.
Heliomar, funcionário dedicado, zelava pelas vacinas armazenadas em geladeira numa sala reservada para não sofrer eventuais danos. Muitas vezes, Doane e Heliomar viajavam de Fusca rompendo estradas sem asfalto e esburacadas para levar a vacina até o produtor. Alguns criadores eram ariscos com a vacinação, não compreendiam a ideia de um rebanho saudável. Há informações de que jogavam as doses fora. Ainda bem que a grande maioria não pensava assim.
A vacinação era obrigatória e naquela época não se cobrava nada. O rebanho era vacinado, visando o controle da doença. Ruy Brasil Cavalcanti Junior, médico e pecuarista em Piracanjuba, presidente da Faeg no período, lembra da exigência do atestado de vacinação contra a febre aftosa já naquela época. Havia o risco da contaminação humana, observa Ruy Brasil.
Secretaria da Agricultura, tendo então um secretário do meio, Antônio Flávio Lima, que também compunha o quadro de diretoria da Faeg, entendia que a vacinação era necessária para erradicar a aftosa de uma vez em Goiás. A parceria entre o poder público e a iniciativa privada resultou numa campanha envolvendo os sindicatos rurais. A iniciativa foi eficaz, lembra Ruy Brasil. E veja o detalhe: o Tocantins era território goiano. De Goiânia a Araguatins, na confluência dos rios Araguaia e Tocantins, a distância era de 1.500 quilômetros.
Mercado exigente
Hoje, mais do que nunca, o mercado consumidor exige carne de qualidade. Antes se a mídia tocasse no assunto, com certeza teria suas limitações. Na atualidade com o advento da internet, ao contrário, eventuais senões de ordem sanitária ultrapassam as fronteiras. Para exportar carne bovina, frango ou de suíno, a sociedade quer o controle do produto desde as suas mais remotas origens.
Veja o exemplo do mal da vaca louca, ocorrido recentemente no interior do Pará: interrompeu de forma brusca a exportação brasileira para a China, o maior mercado de carne bovina no atacado. O processo provocou onda baixista à arroba do boi gordo, acumulando prejuízos à pecuária nacional. Veja bem: foi um caso isolado, considerado de risco insignificante pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSM), com sede em Paris.
Goianos aderiram ao novo sistema
Pode-se observar ainda que os pecuaristas goianos, por exemplo, aderiram por inteiro à vacinação periódica do seu rebanho que há 25 anos sucessivos sem nenhum caso de aftosa ou qualquer outra zoonose em Goiás. Aqui, inclusive, foi criada instituição para zelar pela defesa sanitária tanto dos animais quanto dos vegetais. A Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) é quem oficialmente atua para que o alimento seguro chegue à mesa de cada cidadão.
União
Em Goiás foram criadas instituições de fomento de rebanho e de agricultura saudável. A Secretaria da Agricultura, englobando a Emater, Agrodefesa, Ceasa, entre outros órgãos oficiais, Faeg, Senar, rede de sindicatos rurais e Fundepec, formam forte cadeia do desenvolvimento da atividade rural.
No plano nacional, Alysson Paolinelli, recém falecido, e Roberto Rodrigues criaram ainda no regime militar a Embrapa. Graças a estas iniciativas, o Brasil alimenta mais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo.
O Fundepec ou Fundo do Desenvolvimento da Pecuária foi instituído com esse propósito. E é mantido com recursos dos próprios produtores.
Presidente do Fundepec, Antônio Flávio Camilo de Lima esclarece que a manutenção do Fundo Emergencial Indenizatório se faz necessário principalmente agora que Goiás será considerado área livre de febre aftosa sem vacinação. O recolhimento dessa contribuição dos pecuaristas deve ser mantido junto aos frigoríficos.
Se as ações foram voltadas em primeiro lugar para a sanidade animal, posteriormente, a vegetal, que compõe os grãos, as frutas e verduras, no momento os esforços se voltam também para a conservação do solo e da água. Se o criador aderiu ao sistema de confinamento, a maior parte do rebanho se alimenta no pasto, gerando o boi verde. A genética entra no processo, graças a AGCZ, com a implantação da Goiás Genética e mais uma vez com o apoio da Escola de Veterinária da UFG.
A bandeira ambiental, que quis tornar o produtor vilão amaldiçoado, é empunhada pela quase totalidade de quem produz alimentos e torna o PIB motivo de orgulho nacional, e deixa o mundo mais tranqüilo com a segurança alimentar.