Fantasmas de Grécia e Espanha já “assombram”, hoje, a Europa
Redação DM
Publicado em 13 de junho de 2015 às 02:31 | Atualizado há 1 ano
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Daniel Aarão Reis diz que alternativos têm desafios em alianças
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Lincoln Secco vê colapso dos partidos tradicionais e êxito do Syriza
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João Machado define insatisfações com austeridade e onda neoliberal
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Paulo Winícius ainda espera rupturas radicais com as estruturas de poder
Um fantasma ronda a Europa, hoje, em 2015, século 21. É o espectro dos radicais de esquerda classificados como ‘indignados’ com os planos de austeridade da Troika [Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia]. Professor-doutor do Departamento de História da Universidade de São Paulo [USP], Lincoln Secco diz que o Syriza ganhou as eleições na Grécia e o Podemos, na Espanha. Resultados esperados, dado o colapso dos partidos tradicionais desde o movimentos dos indignados, analisa.
– A manutenção da altas taxas de desemprego e o exemplo do Syriza na Grécia também foram fatores importantes.
Especialista em esquerdas, projetos socialistas e relações de poder, Secco admite, hoje, que o Ocidente enfrenta uma grave crise econômica e política geral. A esquerda tradicional e a direita institucional mantêm diferenças circunstanciais, observa ele. O historiador revela, com exclusividade ao Diário da Manhã porém, que elas são pequenas diante da exigência de mudança que existe na sociedade. “Ou seja, a sociedade civil é, hoje, mais polarizada do que a sociedade política”, dispara.
Perspectivas
Pós-doutor em História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense [UFF], o escritor e colunista de O Globo Daniel Aarão Reis Filho avalia que os resultados na Grécia e Espanha abrem boas perspectivas de renovação. Mas é preciso sublinhar que os partidos que monopolizavam uma situação de bipartidarismo, na Espanha, o PP e o PSOE, não sofreram uma derrota catastrófica, explica. Reduziram seu eleitorado, sobretudo o PP, mas ainda conservam reservas importantes, destaca.
– Inclusive porque um partido alternativo de centro-direita – o Cidadãos – apareceu com força relativa.
O autor de A Revolução Faltou ao Encontro [1990], Editora Brasiliense, e de Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos [2014], Cia. das Letras, pontua que, feitas estas ressalvas, os resultados são amplamente promissores para as forças comprometidas com a renovação do quadro político e com as críticas das políticas da chamada ‘austeridade’. “Socialização das perdas, pau no lombo das camadas populares e benesses para os grandes bancos e para as faixas mais endinheiradas”, atira.
As esquerdas alternativas têm, agora, o desafio de formar alianças para governar as duas principais cidades espanholas, registra o historiador, em um tom de animação. Ele se refere a Madri e Barcelona. Para manter o nível de mobilização visando as eleições de novembro, insiste. Para a Grécia, que negocia isolada com a Troika [Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia] da austeridade, seria uma relevante ajuda poder contar com uma Espanha ganha contra a ‘austeridade’, fuzila Daniel Aarão Reis, ex-preso político à época dos anos de ouro e de chumbo.
Direitas recuam
Doutor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo [PUC-SP], João Machado, um dos integrantes da Insurgência, seção brasileira da Quarta Internacional, acredita que as eleições na Espanha, com o recuo do PP [Partido Popular, de direita] e do PSOE [Partido Operário e Socialista], expressaram o crescimento da insatisfação com o sistema político e com as políticas neoliberais que estes dois partidos têm aplicado (com pouquíssimas diferenças entre eles).
– O dado novo mais significativo foi que candidaturas de unidade popular (formadas para as eleições municipais) podem assumir a direção em Madrid e Barcelona.
Apesar disso, o economista aponta também que as eleições mostraram ainda que, com todos os seus desgastes, PP e PSOE mantêm muita força. Não custa lembrar: somados, eles obtiveram ligeiramente mais de 50% dos votos. “Nas eleições para as Comunidades Autônomas, em que Podemos (o partido que melhor expressa a insatisfação popular com a ‘casta política’, como seus dirigentes costumam falar, de forma muito acertada) concorreu com seu próprio nome, ele teve em média 14% dos votos”, frisa.
– Ou seja: para que haja uma verdadeira refundação democrática do sistema político espanhol (quem sabe, por que não, com a implantação da República), ainda falta muito.

Pós-franquismo
João Machado diz que a derrota da direita pós-franquista demonstra que o descontentamento espanhol, que apareceu em 2011 em diversos movimentos, em especial, na ocupação da praça do Sol em Madrid, agora se volta para uma resposta eleitoral, depositando na união das esquerdas seu rechaço contra as políticas de austeridade, propostas pela Troika (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI), como saída da crise econômica o modelo de cortes sociais, tal como o modelo aplicado no Brasil, frisa.
Segundo ele, a esquerda se apresentou de diversas formas nas distintas comunidades, tendo candidatos de partidos e principalmente de importantes movimentos sociais. “Como a vitoriosa Ada Colau, em Barcelona, que nos últimos se notabilizou por lutar contra os despejos forçados de bancos contra trabalhadores desempregados, como porta-voz da Plataforma dos Prejudicados pela Hipoteca (PAH)”, explica. As vitórias das composições de esquerda quebram o bipartidarismo, destaca.
– Que reinou na Espanha, desde a redemocratização em 1978, onde PP e PSOE, se alternavam no poder, em quase todas as esferas de poder.
Os ‘alternativos’ se elegeram propondo mais democracia, recuperação de direitos e mudanças radicais nas prioridades das políticas públicas, afirma. Priorizando as pessoas e seu bem-estar, registra. Sem dúvida a eleição na Espanha é uma nova página na história na Europa, sublinha, animado. “Detalhe: que agora terá nomes como o Podemos, Esquerda Unida, e vários outros protagonistas, para quebrar a hegemonia neoliberalizante do PP [Partido Popular] e PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol]”
Luta de classes
O historiador Reinaldo Pantaleão (GO) pontua que o conceito de luta de classes formulado por Karl Marx e F. Engels continua atual e serve para explicar a derrota das direitas tanto na Grécia quanto na Espanha. Com isso, os tradicionais partidos de esquerda, como o Pasok e o PSOE, vêm perdendo espaços para os movimentos de rua, observa. Fóruns alternativos que rejeitam os planos de austeridade de corte neoliberal, como o ajuste fiscal adotado no Brasil pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, diz.
– A Europa se move à esquerda: é a luta contra o capitalismo neoliberal!
Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás [UFG], o professor da rede pública de ensino Paulo Winícius Maskote, de linhagem comunista, é taxativo: “O modelo de arrocho salarial e de penalização dos trabalhadores combinado com benefícios ao capital já não se sustenta”, metralha. Tanto é que a população espanhola rejeita isso, emenda. O colaborador do Diário da Manhã crê, porém, que só teremos um projeto de esquerda que não decepcione os trabalhadores quando ela fizer as rupturas necessárias com o capitalismo definido como neoliberal.