Brasil

‘Não teremos futuro se mentirmos para o passado’, diz Mia Couto

Redação DM

Publicado em 25 de junho de 2015 às 06:10 | Atualizado há 11 anos

RIO – A capital, Maputo, ainda carregava o nome do navegador português Lourenço Marques quando, em 25 de junho de 1975, o comandante militar Samora Machel — que se tornaria o primeiro presidente do país e ganharia a alcunha de “Pai da nação” — proclamou “a independência total e completa de Moçambique”, no Estádio da Machava. Na quinta-feira, no mesmo local, com arquibancadas lotadas e a presença de diversos líderes africanos, o atual presidente, Filipe Nyusi, celebrou o 40º aniversário da independência moçambicana, à frente de uma nação marcada pela forte contradição entre um impressionante desenvolvimento econômico e níveis ainda preocupantes nos avanços sociais.

O país ficou marcado por dez anos de guerra antes que um cessar-fogo, estimulado pelo sucesso da Revolução dos Cravos em Portugal, permitisse que Moçambique e as colônias africanas pudessem dar o tão sonhado passo rumo à libertação do domínio colonial. Dois anos depois, conflitos voltaram a assolar o país, que se viu mergulhado numa guerra civil até 1992.

Nascido sob o domínio português, o escritor Mia Couto, autor de “Terra Sonâmbula” e vencedor do Prêmio Neustadt no ano passado, disse ao GLOBO, por e-mail de Lisboa, que o processo de libertação do país ainda não terminou e depende de um olhar honesto sobre o passado nacional.

Portugal é um dos principais investidores da economia moçambicana. Como as relações de Moçambique com os antigos colonizadores afetam a identidade moçambicana pós-colonial?

Não afetam. Os antigos colonizadores nunca foram tão colonizadores como se acredita de um e do outro lado. Portugal era uma nação pequena para administrar tanto território e sempre teve dificuldade de se erguer como centro de um império que era mais sonhado do que real. As relações de hoje são aquelas que se podem esperar. Do lado de Portugal e do lado de Moçambique, houve uma maturidade que foi alcançada pela distância e pela percepção, sempre presente na luta de libertação nacional, de que ambos os povos lutavam contra um mesmo inimigo.

Apesar do impressionante crescimento econômico, números apontam que o país não registrou grandes avanços na eliminação das desigualdades sociais e na erradicação da pobreza. Quais têm sido os principais empecilhos para que Moçambique supere esses desafios?

Primeiro, foi a guerra civil e a instabilidade militar e política associada a essa violência. É preciso não esquecer que o país esteve paralisado durante 16 anos. Hospitais e escolas foram queimados, professores e enfermeiros foram eliminados, e as infraestruturas foram destruídas. A guerra fez um milhão de mortos, e deixou uma ferida que não cicatrizará nos próximos anos. Mas embora ela tenha sido o principal fator de atraso, não se pode culpar apenas essa guerra. Existe uma elite que pensa o país como sua propriedade e que está disposta a usar os recursos não como fator de progresso social, mas de enriquecimento fácil e rápido de uma pequena minoria.

Em recente entrevista, o senhor afirmou que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), da qual fez parte nos anos 1970, “se distanciou do sentido de militância que caracterizou a luta de libertação nacional moçambicana”. Como e quando crê que o grupo se desviou da proposta original?

Aconteceu em Moçambique como em todos as nações recém-libertadas. As forças que fizeram a revolução rapidamente se converteram no seu próprio oposto: um grupo fechado com medo do futuro e com receio de ser confrontado com o seu próprio passado. No caso de Moçambique, existem ainda na Frelimo forças que reivindicam legitimamente esse ideal de justiça e de liberdade que fez nascer a Frente de Libertação.

Nas eleições moçambicanas de 2009, partidos de oposição acusaram a Frelimo de fraude eleitoral, e observadores internacionais reconheceram que o processo eleitoral do país apresentava falta de transparência. Até que ponto a corrupção é parte da política moçambicana?

A corrupção é parte da política em todo lado. Querem-nos sugerir que é um processo natural, que a corrupção faz parte do sistema, que é um efeito colateral de uma dieta ontológica de que não se pode fugir. No caso das nações pobres, como Moçambique, essa corrupção gera sentimentos de revolta mais evidentes e imediatos. Mas a corrupção que é patente nos países ricos não deixa de ser moralmente menos condenável.

O que creio ser importante reconhecer é que deixou de se poder dizer que a corrupção é uma coisa da África. A diferença é apenas de grau. E as diversas corrupções, no centro e na periferia do capitalismo neoliberal, fazem parte de um mesmo sistema. São as duas mãos de um mesmo corpo.

Qual foi o papel das mulheres na luta pela independência de Moçambique, e de que maneira elas se enquadram no futuro da sociedade moçambicana do século XXI?

As mulheres foram, sem dúvida, uma das forças sociais com mais dinamismo e cujo papel se tornou mais evidente nestes últimos 40 anos. São as mulheres que sustentam a verdadeira economia nacional — a erroneamente chamada de “economia informal”. Creio que os moçambicanos estão conscientes que a violência contra a mulher é um dos males a corrigir na nossa sociedade. As agressões contra a mulher constituem uma verdadeira guerra silenciosa que coloca em risco a possibilidade de sermos felizes e termos uma nação estável e justa.

É possível dizer que, de certa forma, a luta pela libertação de Moçambique nunca terminou totalmente?

Não terminou. E não se podem inventar culpados. Essa luta demora o seu tempo, e a primeira coisa que se deve exigir é que façam as coisas com verdade. Não se pode inventar um passado de que somos apenas vítimas, e continuar justificando os fracassos atuais como se não houve responsabilidades dos nossos próprios dirigentes e das estratégias que abraçamos. Não se pode continuar a dizer que está tudo bem e que a oposição é que inventa aquilo que deveria nos envergonhar. Não teremos futuro verdadeiro se continuarmos a mentir para o passado.


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