Brasil

A arte de fazer com as mãos

Redação DM

Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 00:30 | Atualizado há 10 anos

Imaginem a tristeza de um Beethoven, que, ficando surdo, não podia ouvir suas próprias sinfonias. Imaginem a amargura de um Aleijadinho, que ficando morfético, não podia modelar com as próprias mãos suas peças escultóricas. Imaginem a penúria de uma artista do paladar, que por fim tinha que ser alimentada por meio de uma sonda gástrica. Trata-se de Mãezinha. Ela que gostava de temperar, de provar a comida, levando cuidadosamente aos lábios a colher de pau. Depois, adicionava mais uma pitadinha de segredo daquele sabor que só ela sabia materializar com as pontas dos dedos.

Toda a arte de Mãezinha vinha de sua relação com a natureza, apesar de dominar também a arte de cerzir, cozer, bordar, como se vê do modelo de ponto de cruz acima. Foi com ela que aprendi a amar a terra, no sentido literal. Pegar no barro, amassá-lo entre os dedos e aos poucos ir criando formas imaginárias. Nunca cheguei a esculpir propriamente, mas imitava vasos, potes, telhas, como eu os via nas alvenarias, com fins utilitários e sem padrão estético. Mero exercício de modelagem, como por interação da argila com o tato. Era como sentir o contato da pele com o vento, com o sol, com a água.

Arte culinária

Minha mãe se levantava cedo, preparava o cafezinho torrado e moído ali mesmo na cozinha. E logo fazia os quitutes caseiros para o quebra-jejum dos infindáveis sobrinhos, que eram a alegria de sua casa.

Tudo ela extraía dos frutos da terra. Do milho (colhido verde) fazia pamonha, cuscuz, bolo assado. Para merenda, à tarde, era canjica ou curau.

Da mandioca colhia o polvilho ou a massa de puba, usada para bolos. Para merenda, mandioca cozida com água e sal, servida com manteiga e acompanhada de café. Do polvilho fazia beiju, peta, biscoito frito.

Todas as biscoiteiras queriam aprender com Mãezinha a técnica de fazer biscoito frito, sem que pipocasse. O perigo, ao pipocar, é saltar fora da panela e atingir o rosto da biscoiteira inexperiente.

Do arroz também saíam merendas: bolo frito, cuscuz e arroz-doce (este cozido com leite adoçado). Arroz, quando amanhecido, Mãezinha o transformava em arroz frito, passado na gordura e misturado com farinha. Se com ovo escaldado, melhor ainda.

Nas refeições principais, destaque para o feijão frito com torresmo (às vezes associado a melancia), de sabor especial.

É impossível dar receitas para os atos criativos. A arte culinária de Mãezinha era um ato de criatividade. Quis apenas ilustrar seu talento doméstico, tendo que alimentar uma renca de meninos, inventando combinações de alimentos, num lugar onde não havia nada de pronta entrega, nem sequer o pão usual.

Comida improvisada

Mas essa relação doméstica com a terra era comum a todas as pessoas que viviam mais próximas à natureza e não conheciam ainda os prodígios da indústria que artificializa os alimentos em troca de facilidades para as donas de casa.

Num retrato desenhado pela artista goiana Vânia Ferro, numa parede da sala de refeitório na casa residencial de Mãezinha, vê-se documentado seu gesto típico de ter nas mãos uma bandeja de petas sempre prontas para oferecer às visitas. A propósito, Mãezinha não gostou de ver-se projetada naquele seu gesto íntimo, por isso contraíu a expressão de seu olhar perceptivo e de seu sorriso acolhedor. Dizem que há semelhança desse retrato com o de Cora Coralina. Se não há semelhança nos rostos, pelo menos há nos nomes: Coralina e Carolina (uma doceira, outra biscoiteira).

Quando morava na fazenda Poço, Mãezinha costumava plantar roça (sem uso de agrotóxicos) e tinha, portanto, alimentos in natura. Cultivava hortaliça no quintal: não lhe faltavam alface, coentro, cebolinha. Sabia como ninguém inventar comida caseira, tanto melhor quanto improvisada. Suas panelas pequenas atraíam visitas e tinham o dom de fazer milagres. Quanto às tarefas de quintal, sempre me lembro de vê-la molhar as plantas do jardim, que vinham lhe exibir flores à janela. Eis o encanto do seu trato natural com a terra.

(Texto publicado originalmente no livro de Emílio Vieira, Dossiê de uma Professora, Goiânia/Kelps, 2009).

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])

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