À beira do pânico
Redação DM
Publicado em 11 de novembro de 2016 às 02:00 | Atualizado há 10 anosO bip detector de radiação apitando, a pessoa em quem era aplicado o aparelho era tirada da fila, formada no gramado do Estádio Olímpico. Separada para ser praticamente excluída da humanidade.Do convívio social, até dos familiares. Falar que aquilo era desespero puro seria pouco. Era mais que desesperador.Era estar em presença do horror.
Uma vez tirada da fila, a pessoa era desnudada. Ali, à frente de todos. Outra roupa, mais adequada da recente condição de pária, não lhe era dada. Assim foi com um homem idoso, em cujo corpo o detector de radiação acusou a presença do mortal e mortífero Césio-137.
Diferente, mas não muito, do armagedom que foi o holocausto nazista – judeus eram destituídos de todos os seus pertences.Suas roupas, seus nomes, famílias, suas personas, suas histórias de vida.Na situação-limite de Goiânia as culpadas foram as vítimas.Delas se fugia como se foge de uma peste.Uma maldição.Um anátema.
As que tiveram a má sorte de entrar em contato direto com o pó radioativo. Como a menina Leide das Neves, que teve seu caixão de chumbo apedrejado por um horda, liderada por um político. Que nuca perdeu para deputado.Nelson, o fotógrafo da cultura, presenciou, fotografou tudo isto.Nunca mais a cena do estádio Olímpico vai sumir da sua mente.
Césio colocado em uma bomba para tratamento de câncer. Desnudar imposto a uma moça. E depois com um homem de meia idade. Nem uma criança recebeu tratamento diferente.Tudo o que constituía sua rede de afetos – casa, bens de uso; seus cães e gatos, seus entes – tudo lhes fora brutalmente arrancado.
Corria o ano da graça de 1987. Estavam, literalmente, sem lenço e sem documento. Não como o tropicalista Caetano, em mero exercício de estilo, caminhando contra o vento, num sol de quase dezembro.
Era uma cena brutal, parecida com certos filmes B de terror – mas acontecendo em tempo real, na capital conhecida por seus parques verdolengos, sua então boa qualidade de vida. Pior, a pessoa não tinha para onde ir. Sua casa não existia mais.
Na rua 55 os tratores, máquinas pesadas, caminhões carregados de entulho, restos do que foram casas e barracos, trabalhavam a todo vapor. Nem documentos, que ela portasse, ou que estivessem em sua casa, eram poupados do extermínio radical.
De uma hora para outra; de repente, não mais que de repente, a cidade fora arrancada de seu ritmo habitual. Tornara-se manchete – nacional e em todo o mundo.Falava-se em acidente nuclear.Quando se tratava de acidente radiológico, como não cansava de explicar o cientista nuclear Rosenthal.Ele e sua equipe de técnicos do Cnen.
Inútil tentar amenizar o caos – o alarme, o desespero crescente. Todos tinham na memória o recente desastre nuclear de Chernobyl. Acidente que espalhou radiação nuclear para boa parte da Europa. Sabe-se lá se não teria se espalhado por outros continentes, com as chuvas, as nuvens. Em todo o país crescia, em feitio de tsunami, a peste da discriminação.
Fora de Goiás, evita-se o contato com quem fosse morador de Goiânia. Nem precisava ter conhecido o bairro Popular, ou a rua 55 – de onde um grupo grande de casas foi varrido do mapa. Com tudo dentro das residências, com tudo o que havia nos quintais.Produtos agropecuários eram rejeitados, pareciam fazer parte do vasto estoque de rejeito radioativo.
A não ser, é claro, que o preço fosse ficando tão pequeno até ser melhor dar tudo de graça. Nem mesmo animais de estimação foram poupados do sacrifício. Todos mortos onde foram encontrados. Mortos em via pública, sem dó e sem piedade.
Tudo sendo levado para Abadia de Goiás. Localidade pacata e pequena, localizada nas cercanias de Goiânia. Lixo dito atômico sendo enterrado em valas profundas, acondicionado em barris revestidos de chumbo. Toneladas de concreto sendo jogados por cima.
Artistas e poetas se mobilizaram. Uns querendo tirar uma lasquinha – tirar proveito da situação.Outros sendo sinceramente solidários. Tudo sendo feito em ritmo frenético.Vivendo em situação-limite, a cidade respirava o clima opresso do pânico.
(Brasigóis Felício, escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras)