A Capelinha dos Nove, testemunha muda, mas vibrante, do “Barulho” do Duro em 1919
Redação DM
Publicado em 5 de novembro de 2016 às 01:34 | Atualizado há 10 anosNão existe monumento. As famílias – acredito – mandaram construir uma capelinha simples e de adobes na ponta da rua, já pendendo mato adentro, para abrigar seus mortos. Por fim, o progresso foi escorraçando o mato, e a Igrejinha dos Nove foi se destacando, mas não o suficiente para se tornar vistosa, diante da usina de arroz de tio Dito e das casas disseminadas pelas imediações. O avanço das ruas parece tê-la empurrado para o centro da cidade.
Todos conhecem pelo nome de “Os Nove” a parte da cidade que leva à saída para a Bahia: “Fulano mora nos Nove”, “Fui a uma festa nos Nove”, e assim por diante. O nome, aparentemente sem propósito, está ligado ao fato histórico de 1919 que, por seu turno, está inserido na história política do Tocantins.
No início do século, a exemplo de outros Estados brasileiros, imperavam os coronéis, que mandavam e desmandavam dentro de seus domínios. Na Vila de São José do Duro (hoje, Dianópolis), a liderança político-econômica era exercida pela fa-mília Wolney, que tinha como patriarca o intocável e lendário coronel Joaquim Aires Cavalcante Wolney. Seu filho, Abílio Wolney, falecido em sessenta e poucos, exímio político e de cultura assombrosa, despontou como uma das maiores capacidades do Estado, elegendo-se deputado simultaneamente por dois Estados e sendo até cogitado para a presidência do Estado, provocando uma cisão entre os Wolney e a cúpula governista, liderada pelos Caiado, no episódio conhecido por “depuração”.
Como represália, Totó Caiado, então presidente, nomeou gente de sua confiança para os cargos públicos da Vila do Duro, dentre os quais o de juiz municipal (Manoel de Almeida) e de coletor estadual (Sebastião de Brito Guimarães), sobrinho do coronel (mas seu inimigo político), a fim de dar um basta à hegemonia dos Wolney, que imperavam pelo poderio econômico e sobretudo pela incontestável honestidade e espírito progressista.
Anteriormente, um outro sobrinho do coronel Wolney, Agenor Cavalcante, fora morto pelo tio, quando, embriagado, foi desafiar a autoridade do respeitado chefe político dentro do próprio casarão onde o velho residia. Da cidade de Goiás, então capital, chegou uma comissão de inquérito, presidida pelo juiz comissionado, José Basílio da Silva Dourado, que não chegou a qualquer conclusão sobre a culpabilidade dos Wolney.
Depois, por causa do inventário de um agregado de Abílio Wolney, chamado Vicente Belém, cujo rol dos bens o coletor estadual e o juiz municipal não aceitaram por entenderem haverem sido sonegados muitos bens do “de cujus”, o coronel e o filho Abílio juntaram jagunços, invadiram o cartório e obrigaram, a punho de armas, aquelas autoridades a concluírem o inventário, simulando datas, “obedecendo” a prazos, culminando com a sentença do irado e coagido juiz, que a proferiu a muque, com cano de carabinas futucando-lhe as costelas. E, “julgado” o inventário, carregaram o processo.
Foi só o coronel, o filho e os cabras saírem com o processo, Manoel de Almeida (juiz) e Sebastião de Brito (coletor) viajaram para Goiás Velha e foram chorar queixas ao presidente Totó Caiado. O fato chegou a talhe de foice para servir de estopim da vingança do velho Caiado. Era o pretexto esperado: comissionou o juiz capixaba Celso Calmon Nogueira da Gama e o mandou com setenta praças e quatro alferes para apurar a invasão do cartório. Mas a intenção velada era, sem dúvida, arrasar com os Wolney.
Chegando à Vila, o juiz procurou aproximar-se dos Wolney, que já haviam deixado o povoado e se refugiado na fazenda “Buracão”, a duas léguas dali, com enorme contingente de jagunços armados até os dentes. O juiz, velha raposa, fingindo de-monstrar paz, foi desarmado à fazenda e lá convenceu o velho coronel a devolver-lhe o processo e a dispensar a cabroeira, em troca de sua impronúncia.
Assim fez o coronel, homem de palavra. Malmente soube da fazenda inteiramente desguarnecida, o juiz mandou invadi-la com a força policial, e os soldados assassinaram e saquearam o lendário coronel, levando sua família presa para a Vila do Duro, no dia de Natal de 1918. Foi um caso assombroso, beirando ao inconcebível, pois o velho e respeitado coronel Wolney reinava como espécie de lenda viva.
O filho, Abílio Wolney, que conseguira furar o cerco, ficou revoltado (e estava coberto de razão) e viajou para a Bahia, onde recrutou mais de duzentos jagunços junto aos chefes de bando (Abílio Batata, Passaeinho e outros) para tomarem a Vila e aniquilarem a força policial (àquela altura, o juiz já tinha ido embora, dando como cumprida a missão, deixando lá no Duro apenas a soldadesca).
Quando soube da atividade de Abílio, o comandante da força, tenente Antônio Seixo de Brito, mandou recolher ao velho tronco de castigar escravos num sobrado da praçona (onde brinquei muito na meninice) várias pessoas ligadas à família Wolney, como reféns, para obrigar Abílio a recuar: Wolneyzinho (irmão), meu avô Benedito e seu filho menor, Joca (amigos), o compadre João Rodrigues e seu filhos Nilo e Salvador, João Batista Leal (cunhado), Messias Camelo (sobrinho-afim de meu avô) e Nasário do Bonfim (camarada de João Rodrigues).
Quando a jagunçama atacou, em 16 de janeiro de 1919, os reféns foram friamente assassinados, e os nove foram enterrados em cova rasa nas cercanias da Vila, onde existe a capelinha, conhecida como a Capelinha dos Nove, dando nome àquele lugar, que hoje batizaram de Bairro Novo Horizonte.
Este episódio inspirou Bernardo Élis a escrever o monumental romance “O Tronco”, que, embora atribua nomes fictícios aos personagens, retrata com invejável capacidade narrativa toda a verdade, colhendo retalhos aqui e ali de informantes. Mais recentemente meu irmão, Osvaldo Rodrigues Póvoa, reconstituiu toda a história e publicou “Quinta-feira Sangrenta”, que abrange toda a história do município, dando especial enfoque ao sangrento episódio.
Quem leu “O Tronco” ou “Quinta-feira Sangrenta” certamente gostaria de conhecer a Capelinha dos Nove, que ainda hoje está de pé e reformada, como que guardando no seu silêncio e tristeza o desfecho da sangrenta história da nossa velha Vila de São José do Duro.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])