Brasil

A casa de cada um Em defesa da casa do Dragão Campineiro

Redação DM

Publicado em 3 de agosto de 2015 às 22:26 | Atualizado há 11 anos

Quando, em fins de 1954 e começo de 1955, saí de minha pequena Uruaçu para tentar uma vaga na então Escola Técnica de Goiânia trazia também comigo duas vontades a serem realizadas: a primeira, realmente conhecer uma grande cidade (Goiânia tinha pouco mais de 50.000 habitantes na época, mas para mim, era uma grande cidade); segundo, ver de perto os ídolos do meu time goiano de coração – o Goiânia Esporte Clube –, dentre os quais os mais talentosos eram sem dúvida o grande goleiro Uberaba, o zagueiro elegante Manduca e – o mais elegante de todos na maneira de jogar e de se comportar em campo – o então center-half (meio de campo) Olacir, o príncipe da bola.  Acreditava que nenhum outro time goiano, que não fosse o Goiânia, pudesse ter jogado-res tão talentosos. Estava completamente equivocado, pois, na antiga Campininha das Flores, onde fui inicialmente morar na casa de um tio (Rua Sergipe, na parte antiga da Campinas já quase sesquicentenária), descobri que o Goiânia Esporte Clube não era o time goiano mais conhecido dos goianos e nem o único que abrigava os grandes ídolos do futebol na época. Na casa de meu tio, meus primos só falavam de um tal de Dragão (o Goiânia era o Galo Carijó), ou seja, de um time do qual pouco se ouvia falar no interior distante de Goiás, mas que, na verdade, tinha também grandes ídolos – como, entre outros, Tocafundo, Pitinho, Eudes, Fábio e o “Diabo Louro” Epitácio – e mais torcedores que o próprio Goiânia, já que do lado de cá do Capim Puba, onde começava a nova capital, ainda despontavam o Vila Nova, o Nova Vila, o Ferroviário, o Botafogo e, claro, o Goiás Esporte Clube para dividirem com o Galo Carijó a preferência dos torcedores. Para minha decepção, pude constatar que realmente o time de maior torcida de Goiânia era o Atlético Clube Goianiense, fundado em 1937, portanto, um ano antes do Goiânia Esporte Clube. Além do mais, o Dragão era o único time da capital que tinha uma casa própria – o Estádio Antônio Accioly. Também caiu por terra a crença de que o então Estádio Pedro Ludovico Teixeira (depois rebatizado Estádio Olímpico pelos militares no poder) fosse a casa do Goiânia, o que se imaginava tamanha era a influência do time junto ao governo de Goiás – o próprio Dr. Pedro Ludovico era torcedor e presidente de honra do Galo Carijó. Excluindo-se então o Atlético, nenhum outro time goiano dispunha, na época, de sua própria casa, ou seja, de seu próprio campo de futebol. O Goiânia, até a queda do Governo Mauro Borges, em 1964, era praticamente o time “chapa bran-ca” de Goiás, daí a crença de que o estádio Pedro Ludovico fosse sua moradia. Até o fim dos anos 1950 só o Dragão e o Galo Carijó levavam troféus de campeão goiano para casa, ou seja, só se tornaram campeões os times que tinham casa própria – os estádios Antônio Accioly do Dragão campineiro e o Pedro Ludovico do “chapa branca” Galo Carijó.

Passaram-se, então, mais de 15 anos para que outros times fora da dupla Dragão-Galo se sagrassem campeões goianos e começassem a despontar no cenário futebolístico da capital. Antes de construir a sua própria casa – o atual Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga (OBA) –, o Vila Nova (fundado em 1943) realizava os seus treinos no campo da então Escola Técnica de Goiânia, para a alegria da meninada que ali estudava. Foi dali que saiu o primeiro grande time do Vila – que conquistara o primeiro tri-campeonato goiano (1961/62/63), comandado pelo grande zagueiro Tidão. O Goiás Esporte Clube só se estruturou como grande time do futebol goiano – e, com todo mérito, também do futebol brasileiro na atualidade – após a construção de sua sede na Serrinha, que comporta o Estádio Hailé Pinheiro, em terreno adquirido no início dos anos 1960. Seu pri-meiro título oficial só aconteceu 23 anos após sua fundação em 1943.

Enquanto “morou” em sua casa oficial – o atual Estádio Olímpico –, o Goiânia liderou o futebol goiano, tornando-se até 1997, quando foi superado pelo Goiás, o maior campeão goiano, com 14 títulos conquistados (o último em 1974). Ao “perder” o Está-dio Olímpico, mudando-se para a Vila Olímpica (em Aparecida de Goiânia), o Goiânia perdeu também a aura de grande time e de grande campeão goiano. Da mesma forma, enquanto tinha o Estádio Antônio Accioly como sua casa principal, o Atlético rivalizou-se com o Goiânia na conquista de títulos. O Vila, time popular, se adaptou a todas as casas em que “morou”, mas, foi a partir do momento em que fixou residência no OBA que o time adquiriu mais estabilidade administrativa e conquistou a maior parte de seus títulos, sendo os da década de 1970 os mais emocionantes e mais vibrantes, porque co-mandados pelo seu maior ídolo em todos os tempos – o brilhante Guilherme, na minha opinião um dos maiores atacantes brasileiros –, mas que não teve a mesma chance que outros jogadores menos brilhantes, que se tornaram mais conhecidos nacionalmente por terem jogado em times grandes do eixo Rio-São Paulo.

Na atualidade, o caso mais exemplar de time bem sucedido do futebol goiano é o Goiás Esporte Clube. Quando ainda não “morava” na Serrinha, seu primeiro título, conforme sublinhava há pouco, só foi conquistado em 1966. De lá para cá, com sua sede esportiva e administrativa em pleno funcionamento – incluindo-se o estádio Hailé Pinheiro, com capacidade para 10.000 pessoas –, o Goiás se transformou em um dos melhores clubes do Brasil em infraestrutura esportiva e de apoio ao atleta, seja ele amador ou profissional. Isto prova que – além de uma excelente visão administrativa e empresarial de seus dirigentes –, para que evolua, é fundamental para qualquer equipe de futebol nesse País ter sua morada própria. Histórias de fracasso ficam, por exemplo, por conta de má gerência e amadorismo na condução da vida administrativa do clube.

O Dragão Goiano – da mesma forma que o seu irmão Galo Carijó – passou nesses últimos anos por administrações desastrosas e temerárias que deixaram o clube à beira da falência. Tem-se ouvido e lido na imprensa falada e escrita que os atuais dirigentes querem transformar o Antônio Accioly em empreendimento comercial (construção de Shopping Center, por exemplo, na área ocupada pelo estádio), sob o pretexto de que o torcedor atleticano se sente desmotivado com a má campanha do time, como se isto fosse a solução mais sensata para levar a equipe aos primeiros lugares dos campeonatos que disputa (o goiano e o nacional da série B). Sem moradia própria o Atlético Clube Goianiense corre o risco de se transformar em um time de várzea, como aconteceu com o Goiânia Esporte Clube, afundado que foi por administrações incompetentes, cujos dirigentes mais pensavam em seus interesses pessoais que nos da torcida alvinegra. A Vila Olímpica está sendo retalhada pelo mercado imobiliário para quitar dívidas de toda ordem. Sem forças para participar de um mero campeonato goiano de segunda divisão, o Galo Carijó nem mesmo terreiro decente tem para fazer escutar o seu grito de guerra. Os casos mal sucedidos de administração esportiva que tiveram o Goiânia Esporte Clube servem como exemplo para mostrar aos atuais dirigentes atleticanos que não se deve jamais deixar a segurança do Antônio Accioly em troca de projetos que nada têm a ver com a finalidade maior do clube: ter sua sede própria, com um estádio decente, mesmo que pequeno, porém, aconchegante, para receber o seu torcedor vestindo a camisa do time. Quando menino presenciei partidas belíssimas de futebol jogadas pelos ídolos do Goiânia e do Atlético em suas próprias casas. Ora, se a torcida mais numerosa do Dragão é campineira, porque tirar-lhe o prazer e a alegria de ver o seu time no lugar em que ele praticamente nasceu e cresceu como um dos mais tradicionais times de futebol de Goiás? Futebol é, sobretudo, paixão, que os dirigentes têm a obrigação de respeitar e fazer de tudo para que ela não se apague em decorrência de gestão temerária ou contrária aos interesses do clube e do principal motivo de sua existência: o torcedor. É possível aliar paixão pelo clube com administração competente. O Goiás mostrou isto ao se tornar um clube eficiente na gerência do seu patrimônio material e ao adequar o time de futebol à realidade econômica do momento. Nem por isso deixou de ter grandes ídolos “prata da casa” defendendo suas cores, como, entre muitos, o zagueiro Tião Macalé (campeão em 1966), Luvanor, Fernandão e Túlio Maravilha. Pode não ganhar todos os títulos que disputa, mas, no correr do tempo, traz mais alegrias que tristeza aos seus torcedores.

O Antônio Accioly é a casa do Atlético há mais de 70 anos. Se ficar sem sua morada histórica, é possível que em pouco tempo perca, como aconteceu com o nosso simpático Goiânia, o encanto e o amor que têm dos seus torcedores, que – como eu e o meu time goiano do coração – só viverão das glórias do passado.

 

(Antônio Teixeira Neto, historiador, torcedor do Goiânia Esporte Clube e defensor ardoroso daquilo que os clubes têm de mais precioso: sua moradia e seu patrimônio histórico-cultural – E-mail [email protected])

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