Brasil

A Celg e a falta de areia no deserto

Redação DM

Publicado em 26 de julho de 2016 às 22:08 | Atualizado há 10 anos

O saudoso Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia de 1976 e ícone da economia de mercado, apontou algo que se mostrou ser uma verdade a respeito da intervenção do Estado na economia.  A seu ver, “se colocarem o governo para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos, faltará areia”. Não poderiam ser mais apropriadas as palavras do mais notável economista liberal dos Estados Unidos. E o Estado brasileiro é um exemplo do que nos aponta Friedman em seus escritos.

Bebo dessa fonte para avaliar a escassez de areia no Deserto do Saara na mina de dinheiro daquela que, por anos, foi o maior símbolo do desenvolvimento goiano: a CELG.

Não é novidade para ninguém que essa empresa está literalmente falida. Sucessivos governos do estado (incluindo o atual) exauriram sua capacidade de investimentos. Na situação em que se encontra a então maior estatal goiana, simplesmente, tornou-se um obstáculo ao crescimento econômico de Goiás. Acabou-se a areia do deserto. Que o digam os inúmeros empresários que padecem da falta de energia para atender a seus empreendimentos. Que o digam os grandes consumidores (com demanda acima de três megawatts) que têm a liberdade facultada pela legislação de optar por receber energia de outras companhias. Que o digam os consumidores residenciais, que, a cada dia que passa, vão atrás da microgeração que os conduza à autoprodução de eletricidade. Consumidores que se vão, areia que se vai, receita que se perde. É exatamente aí que entram sucessivos governos e a consequência irresponsável de ações predatórias sobre a CELG, que serviu para tudo, empreiteiros, políticos, apaniguados. Desvirtuou-se, assim, sua verdadeira missão de atender ao desenvolvimento de Goiás.

Quem atesta fatos dessa natureza é a Universidade de São Paulo, em seus relatórios, e os inúmeros balanços da empresa. O quantitativo da areia secou o Deserto do Saara. Deixaram de entrar no caixa da empresa, até 2008, aproximadamente 4,5 bilhões de reais.  De 2008 para cá, outro  Bilhão e meio foi areia que se foi, assim, elevando seu brutal endividamento. Está a nocaute a capacidade de investimentos da empresa. A falta de areia turbinou financiamentos artificiais via bancos, com taxas lá nas alturas, asfixiando a capacidade da Celg de financiar o crescimento do mercado via tarifas. Com isso, evidenciaram-se os problemas estruturais que nunca foram enfrentados. Privatização da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada, o contrato criminoso de compra de energia a preços majorados, licitações duvidosas, consultorias duvidosas, pacotes tecnológicos e seus eternos aditivos contratuais esvaíram a areia do deserto, desse modo, deixando seis milhões de goianos desprovidos de uma empresa que poderia ser outra se na Casa Verde houvesse  inquilinos da estatura de um Pedro Ludovico, Mauro Borges, Irapuan Costa Júnior. Gente que, um dia, desdisse, em ações de governo, o que hoje dá razão ao ícone do liberalismo norte-americano: de que o Saara não será mais deserto ante as ações predatórias dos governos.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, Mestre em Planejamento Energético e autor, entre outras obras, de Uma Falência mais que Anunciada. O caso da CELG)

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