A corrupção e seus tentáculos
Redação DM
Publicado em 6 de julho de 2016 às 03:01 | Atualizado há 10 anosFalar das virtudes de quem quer que seja, verdadeiras ou não, sempre foi mais fácil. Uma espécie de paradoxo do cotidiano, que ser sincero é ofensa! Dizer o que todo mundo quer ouvir é fácil e doce, ventila poesia, ainda que não seja genuíno! O problema maior é que quando os canalhas morrem, se redimem e viram lendas, não bandidos! “O mundo estaria salvo se os homens de bem tivessem a mesma ousadia dos canalhas”, afirmou Nelson Rodrigues.
A corrupção no seu mais amplo e profundo sentido manifesta-se como endemia nacional! Percebo a necessidade de uma reflexão maior e mais séria sobre esta questão. A desonestidade pessoal e a imoralidade política, que permeia todos os setores da sociedade. Que no Brasil, parece cultural! Sem pieguice ou aquele típico hipócrita “politicamente correto”, como diz Pondé.
Discutir e refletir sobre este mal que permeia as relações e instituições, requer acima de tudo coragem e atitude, principalmente diante da nossa frágil democracia. De liberdades vigiadas e repressões silenciosas, que colocam a liberdade de expressão em xeque. Principalmente diante desta falsa e hipócrita moral religiosa, que ser desonesto para muita gente é cultural. “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”, disse o grande Jô Soares.
Chegamos num nível de mentalidade tão inaceitável, que para muitos, a corrupção, a trapaça tem se tornado algo “aceitável” e “normal”! Indiscutivelmente, uma vergonhosa inversão de valores, numa espécie de cultura nacional.
Quantas pessoas afirmam de forma explícita e categórica que “todo político é ladrão”? E desde quando for ladrão é normal e aceitável? Às vezes tenho a sensação, que há até certo “conformismo” ou “aceitação” popular na afirmação. Será mesmo? O que será pior e mais vergonhoso, a corrupção ou a impunidade? E aquela máxima popular de “quem não é corrupto, quando for eleito, tornar-se-á”! Precisamos rever alguns conceitos. Não podemos perpetuar a ideia do errado, ser o certo! Ser “esperto”, “malandro” é muito diferente de ser honesto. E ser corrupto é o mesmo que ser ordinário e desonesto.
Entendo que em todos os segmentos da sociedade, possuem pessoas honestas e de conduta íntegra e também, aquelas desprovidas de qualquer brio ou caráter. Pessoas competentes e confiáveis, bem intencionadas, comprometidas e idealistas, bem como, as incompetentes, de moral e conduta duvidosa, sórdidas. Seja político, jogador de futebol, militar, professor, escritor, pastor, padre, bispo católico, bispo evangélico, ateu, à toa, empreiteiro, empresário, banqueiro, funcionário da Petrobrás, famoso ou anônimo, a corrupção é um desvio de caráter, crime covarde, que não tem “cara” ou culpa; já o resultado, nota-se em cada analfabeto deste país; na qualidade da educação; na insegurança da segurança pública, na constrangedora e sempre duvidosa, saúde estatal e suas frágeis e patéticas instituições.
A ideia deste artigo, fruto da indignação – que é o que me move – e dos absurdos quase inacreditáveis deste país, precisam ser vistos e entendidos, como muito além da crítica, da provocação ou de uma “caça as bruxas”, como alguns “ofendidinhos” se sentirão. Até porque, já dizia Rui Barbosa, “não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.” E como são longevos!
Na verdade, um convite a uma reflexão filosófica, moral e política um pouco mais aprofundada. Um despertar para algo que nos parece, infelizmente, familiar e “natural”. Quem sabe, um despertar deste estado de letargia, de cidadãos mais conscientes e críticos, mais intolerantes à desonestidade, que precisam ter clareza e a certeza, que corrupção não é exclusividade de classe política ou qualquer outra categoria profissional. Inerente à condição de indivíduos involuídos e velhacos!
A corrupção se manifesta nas mais singelas e “ingênuas” atitudes do nosso dia a dia. Como “oferecer” um trocado ao policial como compensação por uma “gentileza”, por um “quebra-galho”. Aquele que suborna é tão corrupto e infame, quanto o que aceita o suborno! O estúpido que vive dando carteirada por ser autoridade – e ainda se apresenta com a clássica e ordinária pergunta: “Você sabe com quem está falando?” Isso quando o infeliz não é um amigo do amigo da autoridade, nas raízes malditas e vergonhosas do tão antigo e tão atual coronelismo!
Pode até parecer cultural e legal, mas é imoral. Aquela “insignificante” e ingênua cola na escola – que o delituoso de forma patética ainda ironicamente, típico dos apodrecidos –, diz: “Quem não cola, não sai da escola!” – não é lindo? Para muita gente, isso é normal! É aí que está o problema. O que fura a fila da cantina, do banco, do estádio, do cinema; que transgride as leis e alguns princípios básicos da boa convivência. Que direta ou indiretamente sempre prejudica alguém; o “jeitinho brasileiro”, como os recibos forjados por grandes “profissionais imaculados” para enganar o Imposto de Renda na hora da Declaração. Ou seja, estão todos no mesmo time de detestáveis, que arrebentam com a Nação, comprometem o presente e ameaçam o já incerto futuro.
Barão de Montesquieu afirmou, que “a corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios”. Portanto, de nada adianta ir para as ruas com cartazes e palavras de ordem criticando a corrupção, os “mensaleiros”, o “petrolão”, por exemplo, se na primeira oportunidade, o indivíduo tropeça e ignoram princípios, valores elementares e básicos, mesmo sabendo da ilegalidade do seu ato. Ou seja, de nada valerá as ferrenhas críticas à corrupção dos outros, se no “nosso” dia a dia, sempre “estamos” tentando ludibriar ou passar alguém para trás. Ainda que seja, enganar-se a si mesmo!
Desta forma, vejo a necessidade de repensarmos algumas atitudes e reavaliarmos princípios éticos básicos. O Brasil é um país gigantesco por natureza, povo trabalhador por excelência, sofredor e vítima da famigerada prevaricação e a incompetência de quem governa e de alguns eleitores. Otimistas e esperançosos por uma grande transformação, que fará da cegueira, da parvoíce triunfante, o caminho alicerçado na esperança e em cidadãos conscientes, críticos e intolerantes ao caos. Usufruindo daquilo que nos aguarda num horizonte ainda incerto, que é o verdadeiro exercício do respeito ao próximo, ao erário público, na construção da verdadeira cidadania. Que ainda tem sido um direito distante, restrito e negado a muitos humildes e anônimos brasileiros, que constroem o patrimônio dos “honoráveis bandidos”, convictos da impunidade das leis e da miopia dos “deuses terrenos” desta republiqueta de bananas. Chefiadas por uma quadrilha de gângster, de fazer inveja a qualquer organização criminosa – Yardies, Yakuza, Cosa Nostra – salvo raríssimas, raríssimas, quase imperceptíveis exceções!
Portanto, caros leitores, acredito ser a educação – doméstica, escolar –, a arte, o debate de ideias, a leitura, a reflexão, seria o caminho mais próximo, para repensarmos nossos valores e princípios, morais, éticos e filosóficos. Na incansável luta pela transformação e a construção de uma sociedade mais fraterna e honesta. Reconhecendo-nos dentro do processo histórico, no qual, estamos todos inseridos e convictos de que somos nós, os únicos responsáveis por nosso destino e por um mundo melhor, ou não.
(Marcos Manoel Ferreira, professor, pedagogo, historiador, escritor. [email protected])