Brasil

A encruzilhada do ócio

Redação DM

Publicado em 3 de dezembro de 2016 às 01:21 | Atualizado há 10 anos

As esquinas são universais, exibidas e óbvias. Quando passo numa rua olho sempre para as esquinas. Houve uma época em que as melhores lojas e residências estavam localizadas nas esquinas. Ter uma casa de esquina foi – por muito tempo – sinal de riqueza. Até hoje um prédio na esquina vale mais. Arquitetos construtores de esquinas juntam cimento, ferro, tijolos e madeira para amenizar a paisagem urbana. Minha esquina têm flores coloridas no beiral azul.

Cada esquina tem um jeito de enfrentar o açoite do vento, o calor do sol ou a solidão da lua. Esquinas são duais ao interpretar o barulho diuturno das ruas; não o separa e nem filtra apenas o que quer ouvir. Não importa se as esquinas se voltam para o leste, o sul, o norte ou ao oeste; elas são soberbas. E ideologicamente definidas: à direita ou à esquerda da rua; nunca ao centro. Anunciam-se aos quatro ventos em variadas formas, cores e alturas. Algumas – como se fosse Jacobina, o quinto personagem de O Espelho, de Machado de Assis – embora criadas para mostrar duas almas, mostram só o exterior. Mesmo a esquina mais vaidosa – do tipo que se acostuma ao vazio interior – tem espelhos a refletir os dois lados. O vazio só vê o lado de fora das coisas. Daí a dualidade essencial da existência de uma esquina.

Gosto mais das esquinas com portas ou janelas abertas para todos os lados. As esquinas regateiras são ainda especiais. Triste é perceber que o preconceito fecha as passagens do pensamento.

Porque a porta em que entra a compreensão também serve para sair a tolerância. Haverá um dia em que as esquinas vaidosas e felizes terão portas escancaradas para todos os lados. Através delas passarão homens e beija-flores. E a raça humana celebrará as esquinas povoadas de gente pacífica de todas as cores e ideais com bandeiras brancas na janela.

A esquina é o ponto mais democrático de uma cidade. Nela faz ponto a prostituta, o ladrão e o apaixonado ansioso com flores nas mãos. Também os homens de negócios, o engraxate e o político que não sabe aonde ir. Os anjos protetores da esquina guardam a encruzilhada do encontro iminente com o destino.

Bendigo as esquinas com pessoas nas calçadas a espera de um milagre. A esquina é bela e insofismável desde o Coliseu de Roma, o Parthenon grego, as pirâmides do Egito com o bafo da Esfinge a soprar o ar seco do deserto na antecâmera do rei. Oscar Niemeyer, esquinista incorrigível, criou dezenas de esquinas curvilíneas. As construções idealizadas são esquinas do tempo.

Uma brisa ancestral acaricia cada esquina. O exército de anjos protege-a com o solitário facho de luz ao alto da torre do Universo ou na sombra que se esconde a escuridão. Ninguém é invisível numa esquina. Ela está à vista de gente viva ou morta. As esquinas são as primeiras a caírem com a força dos terremotos e das enchentes. As águas correm certas de que a sua força molhará a terra ressequida do caminho. Talvez com um certo remorso. Por isso correm apressadas para receber o sal do oceano.

Goiânia tem muitas esquinas, umas famosas, outras anônimas. E o Rio Meia Ponte, de águas fugidias, corre sempre para o sul.

Fiel ao seu destino, a minha esquina dorme e acorda sempre no mesmo lugar.

Na soleira da minha janela aceno ao anjo da esquina um lenço branco.

 

(Doracino Naves, jornalista;apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

 

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