A ética dos sábios
Redação DM
Publicado em 23 de novembro de 2017 às 22:33 | Atualizado há 9 anos
O progresso científico e tecnológico não está resolvendo os problemas básicos da maioria da população mundial: corrupção, pobreza, fome, drogas, sequestros, assaltos, violência contra mulheres e crianças, corrida armamentista, ditaduras, migrações massivas, genocídios cruéis, discriminação racial e religiosa etc. Há um grande descompasso entre desenvolvimento racional, científico e tecnológico de um lado e desenvolvimento emocional e ético de outro. Em que pese o trinômio da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, a ciência e tecnologia não têm assegurado a estabilidade dos países democráticos.
Decepcionado com esse quadro paradoxal, apresentei alguns artigos sintetizando a vida e principais ideias de alguns grandes pensadores – filósofos e religiosos, ativistas ou não – cujas mensagens de valor universal são válidas para homens e mulheres de todos tempos e lugares, mas que geralmente não são ouvidas e muito menos seguidas, pois as solicitações externas da vida contemporânea absorvem de tal modo as pessoas que não lhes permitem sequer uma reflexão mais séria sobre o amor, a fraternidade, a verdade, a justiça, a sobriedade, a simplicidade… enfim, sobre valores interiores, necessários para que os seres humanos sejam mais felizes. Resolvi então, através dos sábios, buscar respostas às questões discutidas na primeira parte. Uma síntese do que aprendi com essas pessoas: Confúcio me ensinou que a simplicidade e a franqueza são instrumentos poderosos na comunicação das ideias; Sidarta Gautama (o Buda) me revelou que a renúncia e a meditação são caminhos para se superar o sofrimento; Sócrates me mostrou que é mais importante compreender as perguntas do que encontrar as respostas; Platão me conscientizou das trevas das caverna em que vivo; Aristóteles me lembrou que preciso me conscientizar ainda mais para ser um bom cidadão; Jesus Cristo me ensinou que, antes de qualquer julgamento, devo acolher todos os homens e mulheres como irmãos e irmãs; Maomé me mostrou que o islamismo não é uma religião de ódio e, daí eu concluo que, o terrorismo que vem cometendo atrocidades é uma aberração e não uma dimensão da religião; Gandhi me mostrou a força da simplicidade e da não violência para vencer poderosos e dominadores; Nelson Mandela me provou que, quando se tem um ideal, é possível ser livre mesmo quando se está encarcerado; Luther King me abriu os olhos para acolher todas as pessoas como irmãs, independente de raça, cor, sexo, classe social e outras diferenças; o papa Francisco, com seu sorriso acolhedor, está me dizendo que é necessário derrubar todos os muros que separam e construir pontes que integrem todos as pessoas a começar por aquelas que vivem nas periferias geográficas e existenciais.
Glosando a afirmação de Simone de Beauvoir de que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher” (BEAUVOIR, 1967), ouso dizer também que “ninguém nasce santo ou com a salvação garantida por antecipação”, mas que também “ninguém também nasce pecador ou corrupto”, e, completando com Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias” (ORTEGA Y GASSET, 1967), concluo que, guiado pela própria consciência, aproveitando das oportunidades que as circunstâncias oferecem, cada homem e mulher constrói o dia a dia da sua existência.
A seguir, a título de ilustração, tento mostrar como os ídolos citados na Bíblia – dinheiro, poder e prazer -, podem estar no caminho da corrupção assim como o desapego a sobriedade e a sabedoria podem estar no caminho da sabedoria.
Caminhos dos corruptos: ou os caminhos do “jeitinho” para o “jeitão” brasileiro.
l Dinheiro: a) um sujeito acha uma carteira contendo dinheiro, com o nome e o endereço do seu dono, mas por que devolver, se o dono nunca saberá? É assim que começam os pequenos deslizes; b) passa-se o tempo, e o mesmo sujeito encontra uma forma de falsificar um documento para receber um valor maior numa transação; c) e de esperteza em esperteza, esse sujeito vai acumulando dinheiro até tornar-se um milionário e/ou um grande proprietário.
l Poder: a) ele foi um aluno estudioso e líder desde o ensino fundamental; foi conquistando espaços no grêmio estudantil, depois no diretório da faculdade; b) convidado, entrou no partido político e logo já era candidato a vereador; c) como deputado percebeu que, além o salário, poderia beneficiar-se de outros recursos, desde que aceitasse entrar no clube dos conchavos e trambiques maiores e, em consequência, obter maiores benefícios. E assim tornou-se um grande político, mas corrompido.
l Prazer: a) um menino normal que gostava de brincar e que, à medida que crescia, encontrava formas mais sofisticadas de prazer, como, shows, baladas, namoricos; b) aprendera o caminho do sexo fácil, das bebidas alcóolicas e do cigarro; c) agora, cada vez mais feliz, já se tornou um homem que oferece prazeres sexuais a muitas mulheres, que se alcooliza e se droga para se manter sempre antenado.
Imagine ainda que essa mesma pessoa consiga trilhar com sucesso os três caminhos (dinheiro, poder e prazer) ao mesmo tempo: é a felicidade multiplicada por três.
Caminhos dos sábios: da humanização.
l Desapego: a) aprendeu, desde criança, a poupar porque as coisas custam dinheiro e, para se ganhar dinheiro, precisa-se trabalhar; b) desde o primeiro emprego soube distinguir o que era seu (salário) e o que era da empresa (patrimônio); c) tornou-se depois um político que, distinguindo claramente o que é público e o que é privado, vê a sua função simplesmente como um serviço prestado à comunidade.
l Serviço: a) ainda como criança aprendeu a respeitar as pessoas e a usar algumas palavras muito importantes: “obrigado” e “desculpe”; b) como jovem, aprendeu a distinguir o que é público e o que é privado, a ser moderado na aquisição e uso dos bens; c) como adulto aprendeu a poupar, a investir e a empreender e, generosamente, a distribuir os bens supérfluos e a prestar serviços comunitários.
l Sabedoria: a) a criança que aprendeu dos pais e, depois, dos professores, o que é bom e mau, certo e errado, verdadeiro e falso, justo e injusto; b) ao crescer, percebe que, para agir corretamente, depende em primeiro lugar da sua consciência; c) adulto, torna-se uma rocha de resistência aos desvios éticos individuais, grupais e societários.
Esta pessoa também encontrou a felicidade, só que por outros caminhos.
l Pode-se concluir que dinheiro, poder e prazer são bens que se buscam fora, não brotam espontaneamente do interior das pessoas. As solicitações externas da vida moderna absorvem de tal modo as pessoas que limitam as possibilidades de uma reflexão mais séria sobre o uso dos bens que são oferecidos. Já o caminho indicado pelos sábios – do bem, do amor, da fraternidade, da verdade, da justiça, da simplicidade – são interiores, necessários para que os humanos alcancem a verdadeira felicidade.
Referências:
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Campinas (SP): Íbero Americano, 1967.
BRUNNER-TRAUT, Emma (Org.). Os fundadores das grandes religiões. Petrópolis: Vozes, 1999.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote. Campinas (SP), Íbero Americano, 1967.
PEGORARO, Olinto. Ética dos maiores mestres: através da história. Petrópolis: Vozes, 2006.
(Darcy Cordeiro, filósofo, teólogo e sociólogo, mestre e livre docente, professor aposentado da PUC-Goiás e da Universidade Estadual de Anápolis)