Brasil

A exposição do corpo imperfeito

Redação DM

Publicado em 5 de janeiro de 2017 às 01:57 | Atualizado há 10 anos

A busca pelo corpo perfeito vem se tornando cada vez mais desacerbada no mundo atual e, nas redes sociais, essa realidade fica ainda mais evidente. Muitos jovens utilizam seus perfis como ferramentas de exibição, postando o passo a passo de uma evolução corporal que, nem sempre contempla, a real situação de sua saúde.

A considerada “boa forma”, muitas vezes não está associada a acompanhamento médico, ou seja, especialista capacitado por fazer todos os diagnósticos precisos até a chegada de um condicionamento físico compatível com cada corpo. Com o bombardeio de informação, o desprendimento de atendimento especializado, tanto mulheres quanto homens, de toda a faixa etária, se espelham em moldes que nem sempre são confiáveis.

Além das redes sociais, as novelas, revistas e milhares de cartazes espalhados pela cidade viraram incentivadores em busca de um corpo atrativo. Fora as doenças acometidas como anorexia e bulimia, as quais necessitam sem qualquer indagação de atendimento médico, outras como a psicológica precisam de tal preocupação por parte dos familiares.

Boa parte desses nem sabem quais os métodos que seus filhos estão se submetendo para chegar a um corpo considerado como perfeito na visão de uma cultura que vem devastando milhares de famílias. Nem sempre quem tem um corpo magro, carregado por “gomos” pode ser considerado como ideal. Sobre um olhar crítico e aprofundado dos modelos, os quais boa parte das pessoas se espelham, menos de 50% deles, utilizaram de métodos médicos para chegar até o corpo saudável: médico, academia e alimentação coerente.

Para se ter ideia, as cirurgias plásticas, ultrapassaram a casa dos 24 milhões, somente no ano passado, conforme relatório divulgado pelo International Society of Aesthetic Plastic Surgery. De acordo com ele, o Brasil ocupa posição de destaque no levantamento: foi o que mais realizou procedimentos cirúrgicos, ficando a frente dos EUA com 1.491.721 do total.

O país da América do Norte, no entanto, ainda lidera quando o volume total de cirurgias plásticas – cirúrgicas e não cirúrgicas – são considerados. Entre as cirurgias mais realizadas no Brasil estão a lipoaspiração e colocação de próteses mamárias. O país também é líder quando o assunto é rinoplastia e abdominoplastia. Entre os procedimentos estéticos o destaque é a aplicação da toxina botulínica. O volume é o segundo maior do mundo, com 308.185 procedimentos realizados.

Em muitos casos, o processo para alcançar a perfeição física, exigida para se encaixar nos padrões de beleza de hoje, tem sérios problemas de auto-imagem. Na prática, esse problema de percepção se traduz em dois comportamentos que preocupam os médicos: o excesso na prática de atividades esportivas e o uso de esteróides anabolizantes, GH (hormônio do crescimento) e suplementos alimentares, utilizados sem critérios.

Quem acha que as cirurgias plásticas são mais evidentes entre as mulheres está enganada. Entre os homens esse número dobrou em quatro anos. Ou seja: saltou de 37.740 procedimentos em 2008 para 91.100 em 2012 (141% a mais), segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

No mesmo período, o número total de plásticas em adultos subiu 38,6% (saindo de 591.260 para 819.900 procedimentos) – o que significa que as cirurgias no público jovem cresceram em um ritmo 3,5 vezes maior. Dentre as exposições nas redes sociais, o autor das postagens acreditam que o apelo desacerbado de “boa forma” está ligado ao conceito de felicidade. Porém especialistas consideram como contrário. Muitos estão infelizes, sem perspectiva na vida pessoal e profissional.

Esses jovens passam a ser ridicularizados, principalmente, por terem sido atraídos por um sinônimo de beleza que não é ideal para a sua estrutura física.  Diante disso, a não realização deste padrão o leva, muitas vezes, à depressão e à desilusão consigo mesmo, como alguém que não atingiu a sua meta e, por isso, acaba não sendo feliz.

Para os psicólogos, os transtornos do corpo perfeito, seria um sintoma do momento atual, uma vez que se vive em uma sociedade do espetáculo, em uma cultura de valorização da imagem. A aparência passa a representar a personalidade, o caráter da pessoa e, por isso, a maioria não quer ser excluída.

Os julgamentos em torno disso são cada vez mais severos. Tolera-se cada vez menos e isso vem acompanhado de uma avaliação moral muito depreciativa àqueles que não cuidam da própria estética. Moralizar a beleza é dizer que quem não cuida do próprio corpo é desleixado.

Diante disso, não podemos considerar o corpo perfeito em redes sociais ou na sociedade midiática como sinônimo de saúde, pois em muitos casos são falhos o desenvolvimento de técnicas de emagrecimento, principalmente, quando se trata de sacrifício e muitas horas de malhação. O cuidado com o corpo não é algo somente cultural de nossos povos.

Hoje, muito mais do que algo de nossas raízes, a busca exagerada pela boa forma se faz muito mais por influências externas, Estamos reféns de uma apologia cruel e implacável pela busca do corpo perfeito, apologia esta que, nos promete uma felicidade pelo que representamos ser e não pelo que somos de fato.

 

(Acaray Martins Silva, assessor de imprensa e marketing)

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