Brasil

A feijoada “vencida”

Redação DM

Publicado em 17 de janeiro de 2017 às 01:02 | Atualizado há 10 anos

No ano de 1963, um grupo de estudantes do Curso de Direito da Universidade Católica de Goiás, do qual eu fazia parte – assim como, vários, hoje, juízes aposentados, delegados, promotores e, até, alguns desembargadores -, seguiu viagem para a cidade Araguari, no Triângulo Mineiro, para participar de um júri simulado, onde também estaria presente a Faculdade de Direito de Uberlândia.

Com o ônibus lotado – e sob o comando do Ilustre, querido e saudoso Mestre do Direito, professor Jerônimo Geraldo de Queirós –, o grupo seguiu, firme – BR-153 afora –, rumo àquela bela e hospitaleira cidade mineira.

O almoço, que se deu por volta de meio-dia, aconteceu no   famoso Posto do Trevo, onde, segundo se ouvia falar, era servida a melhor  feijoada de toda a região. E era mesmo ou, pelo menos – até prova em contrário –, parecia que era. Todo mundo se empanturrou do delicioso prato, acompanhado, tão somente, de um aguado e, por demais, sem graça copo de  suco de laranja, já que bebida alcoólica – para tristeza da grande maioria da turma – estava totalmente vetada  pelo nosso severo diretor.

Terminando o almoço – e fiel ao ditado popular de que “de barriga cheia, pé na areia” –, tomamos novamente a estrada, rumo ao nosso destino, já que as horas iam passando e ainda faltava um bom pedaço de chão a ser vencido.

Acomodados, confortavelmente, em um luxuoso hotel, no centro da cidade, passamos o resto do dia descansando e, ao mesmo tempo, nos preparando – principalmente aqueles colegas que iriam participar diretamente dos debates – para o evento, que estava com início marcado para as vinte horas.

Com o teatro completamente lotado, tanto de estudantes, como, também, de advogados – surgidos de toda a região –, o evento foi um verdadeiro sucesso, quando os nossos representantes, principalmente, o, então, colega – hoje, professor –, Getúlio Targino Lima, foram de um brilhantismo digno dos maiores elogios.

Encerrado o evento, todo o grupo seguiu direto para uma churrascaria, localizada na mesma praça do hotel, onde seria servido um requintado coquetel, bem como, um faustoso jantar, em comemoração ao sucesso do evento.

Com muita mulher bonita desfilando pelo salão, bem como, com comida boa e bebida à vontade e, mais que isso, com a notícia de que, mais tarde, iria “rolar” até um “arrasta-pé” – a noitada parecia que não tinha hora para terminar. Os colegas, aqueles mais “assanhadinhos” – encantados com a beleza das mineirinhas – não escondiam o entusiasmo e, como não poderia deixar de ser, “só pensavam naquilo”. Mas, que nada. Em dado memento, foi como que alguém tivesse jogado “pó de mico” no meio do salão; em poucos minutos, não havia mais um só goiano no recinto. A debandada foi geral. Todo mundo desembestou porta afora, em desabalada carreira, rumo ao hotel. Daí, como – de resto – por toda a noite, foi uma correria só; não havia banheiro que chegasse. Os dos quartos, os dos corredores e, até, aqueles reservados aos funcionários do hotel, foram, todos, “requisitados” para uso exclusivo dos desesperados goianos. Acontece que uma infecção intestinal, sem precedentes, pegou a todos; não perdoou ninguém. A “coisa” foi tão feia que, em dado momento, o estoque de papel higiênico do hotel “zerou” de vez; não havia mais um só rolinho do produto para “contar a história”. Jornal velho, papel de pão, saco plástico, enfim, qualquer coisa que estivesse ao alcance das mãos era bem-vinda, naquela hora de desespero. Já se tinha notícias, inclusive, de que cuecas, calcinhas, lenços, gravatas, meias e, até, pedaços de camisas de pijamas, já estavam sendo encontrados nos cestinhos dos banheiros.

Deitado em minha cama, me recuperando das dezenas – ou, talvez, centenas –, de carreiras, que tive que dar pelos corredores do hotel durante a noite, eu pensava: “Puxa-vida”! Ao que parece, aquele “filho da mãe”, lá do restaurante, deve ter usado foi carne de urubu – e com data de validade vencida –, para fazer aquela “porcaria” de feijoada, pois, só isso, pode justificar esta “desgraceira” toda… Mas, antes, mesmo, de concluir o  pensamento, eu já estava lá, novamente, batendo na porta do banheiro mais próximo; seguido, de perto, por mais dois outros desesperados companheiros. Não foi preciso insistir muito para  que  a porta do WC fosse aberta. Lá   dentro, visivelmente abatido – e, ainda, com as calças arreadas até aos joelhos –, o colega, trazendo na mão uma nota de dez cruzeiros, suplicava:

– Por favor, colegas! Alguém aí tem duas notas de cinco pra trocar pra mim?

 

(Sergio Itapoam Gomes, advogado militante em Goiânia, escritor, articulista associado à AGI – Associação Goiana de Imprensa)

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