A incredulidade dos parentes de Jesus
Redação DM
Publicado em 1 de maio de 2016 às 01:10 | Atualizado há 10 anosAproximava-se a festa judaica dos Tabernáculos. Disseram-lhe, então, os seus irmãos: “Parte daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém age em segredo, quando quer ser conhecido em público. Já que fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo!”
Pois nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele. Disse-lhes, então, Jesus: “Meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está preparado. O mundo não vos pode odiar, mas odeia a mim, porque dou testemunho de que as suas obras são más. Subi vós a essa festa. Eu por enquanto, não subo a essa festa, porque o meu tempo ainda não está completo”.
Tendo dito isto, ficou na Galileia.
E aconteceu que, terminando Jesus essas palavras, partiu da Galileia e foi para o território da Judéia, além do Jordão. Em se completando, porém, os dias de sua assunção deste mundo, ele manifestou no semblante a firme resolução de ir a Jerusalém. Depois que seus irmãos subiram para a festa, também subiu ele, não publicamente, mas às ocultas. (Evangelhos de: Mateus, cap. 19, v. 1 – Lucas, cap. 9, v. 51 – João, cap. 7, vv. 2 a 10).
A palavra tabernáculo vem do latim tabernaculum, que significa cabana. No hebraico, tabernáculo equivale a Sucá ou Sucot (no plural). A Festa dos Tabernáculos ou Festa das Cabanas ou, ainda, Festa das Colheitas é uma festa religiosa e agrícola ocorrida durante a época das colheitas. Nessa festa, é celebrada, com gratidão, a assistência que Deus concedeu ao povo hebreu durante os quarentas anos, nos quais ficou a peregrinar no deserto depois de ser retirado do Egito por Moisés. Durante esse período, os judeus viveram em tendas frágeis.
A Festa dos Tabernáculos durava uma semana, era celebrada no início do mês de outubro e durante esse período os judeus viviam em tendas construídas com ramos e eram feitas ofertas especiais (Nm, 29:12-38). Essa festa foi estabelecida em Êxodo (23:15-16 e 34:22), Levítico (23:34-42), Deuteronômio (16:13-15) e Esdras (8:14-17). Era uma das três festas que obrigava os judeus a ir a Jerusalém, do mesmo modo que a Festa da Páscoa e de Pentecostes.
Flávio Josefo, em sua obra Antiguidades Judaicas (8,4,1), considerou a Festa dos Tabernáculos como sendo “a festa mais santa, mais alegre e mais importante dos hebreus”. Talvez seja por isso que alguns dos irmãos de Jesus sugeriam que o Mestre fosse até Jerusalém para divulgar os seus ensinos e demonstrar os seus poderes de cura. No entanto, o divino Rabi não atendeu ao conselho porque sabia da incredulidade de seus irmãos e aproveitou para afirmar que ainda não chegara o seu tempo.
Diante da negativa do Mestre, é provável que os seus irmãos e também os seus discípulos não entendessem esse posicionamento. Afinal, o próprio Jesus afirmara, segundo a narrativa de Mateus (5:14-16):
“Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.”
Jesus, no entanto, demonstra prudência quanto ao momento exato de aparecer numa festa de Jerusalém. A festa dos Tabernáculos seria uma grande oportunidade de apresentar a sua doutrina de amor e os seus poderes de cura à sociedade judaica, mas não poderia partir imediatamente. Aguardaria o momento adequado para comparecer ao evento. Desse modo, o Rabi aproveitou a oportunidade para ensinar, conforme Eclesiastes (3:1): “Há tempo para tudo, há tempo para todo os propósito debaixo do céu”. Uma atitude de prudência para poder semear no tempo e no lugar certo. Principalmente porque ele sabia que os seus ensinos e exemplos gerariam toda sorte de animosidade entre alguns líderes religiosos de Jerusalém.
O Mestre recomendou que os seus irmãos incrédulos fossem a Festa dos Tabernáculos. Ele permaneceria na Galileia com os seus discípulos, depois iria para a Judeia, além do Jordão, e durante a Festa dos Tabernáculos foi a Jerusalém, “mas às ocultas”. Como ser verá a seguir, no momento oportuno, durante a Festa, Jesus apresentaria os seus ensinos no Templo de Jerusalém, causando a ira dos incautos que desejavam prendê-lo.
Era em Jerusalém que Jesus deveria dar o testemunho maior de amor e de perdão aos temporários inimigos da Verdade. O Espírito evoluído conhece o tempo e o modo certo para agir conforme a Lei Imutável do Criador Eterno. E nem para isso necessita esconder suas mais íntimas emoções.. O semblante de Jesus não dissimulava. Ele era transparente em seus sentimentos e vontades e, não raras vezes, era censurado por isto. No entanto, não se preocupava com a sua imagem ou com a imagem que faziam dele porque era autêntico, verdadeiro, suavemente equilibrado em suas emoções e extremamente lúcido em seus atos e palavras.
Equilíbrio e concentração constituíam a base de amor exemplificada por Jesus. Isso porque o equilíbrio espiritual é o lastro que garante o poder de concentração tão necessário para a consecução de qualquer tarefa. Muitos desperdiçam precioso tempo com o passado ou com o futuro e acabam esquecendo-se do presente, o qual é tesouro real e concreto para a realização de qualquer trabalho. É evidente que não é possível olvidar as lições preciosas do ontem ou as esperanças do amanhã. Os erros e acertos do pretérito não mais poderão retornar numa mesma sintonia de tempo, embora as experiências positivas e negativas possam ser aperfeiçoadas ou reparadas, mas de forma exclusiva e concentrada no tempo presente.
Jesus sabia que o trabalho anônimo e oculto constituía a sólida base para o sucesso de suas atividades. Foi homem público e isolado ao mesmo tempo. Um exemplo de atividade não muito fácil, porquanto uma intensa vida social tende a exaurir cada vez mais o indivíduo, arrastando-o para mais compromissos sociais geradores de desajustes de diversos matizes. O isolamento impertinente engendra fatores psicológicos negativos capazes de anestesiar as fibras mais sublimes da fraternidade. O Espírito evoluído não recorre ao isolamento egoísta nem a exposição desenfreada e ambiciosa; age conforme Jesus quando ia às festas dos homens por meio do silêncio oculto das festas dos Céus, as quais consistem em testemunhar, ensinando, com amor, o caminho venturoso da Perfeição Maior.
(Emídio Silva Falcão Brasileiro, autor do livro O Direito Natural e a Justiça Quântica, membro da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás)